2.12.16

até quando?


Hoje me levantei,
fui trabalhar em mais dois desenhos
terminei a leitura de um artigo de Carlos Fico
jantei e me preparo para dormir.

No entanto, Rafael Braga
passou outro dia preso injustamente.



30.11.16

intelectuais e mudança social




The real nazis run your schools
Dead Kennedys

[...]

A verdadeira educação significa conseguir fazer as pessoas pensarem por si próprias - e este é um negócio complicado de se saber como fazer bem, mas que claramente exige que, seja o que for a que você esteja visando, tem de alguma forma capturar o interesse das pessoas e fazer com que elas queiram pensar, buscar e explorar.

As escolas premiam disciplina e obediência, e castigam a independência da mente. Se calha de você ser um pouco inovador, ou talvez você tenha se esquecido de ir à escola um certo dia, porque estava lendo um livro, ou algo assim, isso é uma tragédia, é um crime - porque você não deve pensar, deve obedecer e simplesmente continuar percorrendo as matérias do modo que for exigido.

E, de fato, a maioria das pessoas que conseguem passar pelo sistema de educação e chegam às universidades de elite conseguem isso porque mostraram-se dispostas a obedecer a um monte de ordens idiotas durante anos a fio - foi assim que eu consegui, por exemplo. É o seguinte: se algum professor idiota lhe diz "Faça isto", que você sabe ser algo que não faz o menor sentido, mas você obedece e faz, e então você passa para o degrau seguinte, e então obedece à ordem seguinte, e finalmente você consegue chegar ao fim, e eles lhe dão créditos: uma parcela horrível da educação é assim, desde o comecinho. Algumas pessoas seguem em frente com isso, porque eles calculam: "Tudo bem, farei qualquer coisa idiota que esse bundão mandar, porque eu quero seguir adiante"; outros o fazem porque simplesmente internalizaram os valores - mas depois de algum tempo essas duas coisas tendem a se confundir um pouco. Mas você faz, senão está fora: faça perguntas demais e vai se meter em encrenca.
Noam Chomsky

Trad.: Eduardo F. Alves


29.11.16

microfísica do poder


I

Eu nunca precisei de preceitos religiosos e metafísicos para existir. Quem me diz o contrário tem em mente o controle e a submissão.


26.11.16

Bonaventure


e nossos amigos de Oléron

[...]

Bonaventure, belo nome para um percurso educativo, estava situada na ilha de Oléron, uma singular escola em uma pequena ilha que funcionou de setembro de 1993 a junho de 2001 com, em média, uma dúzia de crianças por ano, ou seja, uma frequentação de 50 a 60 crianças. Era uma associação amparada na lei de 1901, que escolarizava as crianças de 3 a 11 anos, do maternal à entrada no colégio.

Ela era definida como uma experiência de educação 

para e pela liberdade, igualdade, apoio mútuo, autogestão e cidadania [...] brandindo alto e luminosa a bandeira da laicidade, da gratuidade, de um financiamento social, da propriedade coletiva, da igualdade de salários.
Hugues Lenoir


24.11.16

acts of literature


Jacques Derrida
Trad.: Marileide Dias

[...]

O que chamamos de literatura pressupõe que seja dada licença ao escritor para dizer tudo o que queira ou tudo o que possa, permanecendo, ao mesmo tempo, protegido de toda censura, seja religiosa ou política.

[...]

Nossa tarefa talvez seja indagar por que tantas obras e sistemas de pensamento poderosos deste século têm sido o lugar de "mensagens" filosóficas, ideológicas e políticas que são às vezes conservadoras (Joyce), às vezes brutal e diabólicamente homicidas, racistas, antissemitas (Pound, Céline), outras vezes equivocadas e instáveis (Artaud, Bataille).


23.11.16

chopin na cadeira elétrica


[Chroma | 2015]
Abre aspas 
O lema dos cyberpunks é: a informação deve ser livre. Desconfie das autoridades, lute contra o poder; coloque barulho no sistema, surfe essa fronteira, faça você mesmo. 
Fecha aspas


22.11.16

dialética da escola-prisão


vinte


Um amigo me narra uma situação. Resumo. Em sua escola a "professora" de química sem leitura de história "explica" o que seria o comunismo. Ela olha para a classe e apanha o penal da aluna da carteira da frente e diz, agora este objeto é meu. Me pertence. Isso é o comunismo.

Eu nunca tive nada a ver com esse ensino reducionista e burro. Me desligo de qualquer função formal relacionada à educação a partir desse pequeno relato. Soma-se, em mais de oito anos de ensino, muita incoerência, falta de leitura e moleza cognitiva.

É a saída ou a doença mental. Prefiro, obviamente, a saída.


21.11.16

dialética da escola-prisão


dezenove

A escola
nunca deixou 
de ser aquilo 
que realmente 
sempre foi: 
uma prisão.


Fuck off!


18.11.16

zero zero zero




A ferocidade se aprende
[...]

Seguir os percursos do narcotráfico e da lavagem de dinheiro faz com que você se sinta capaz de medir a verdade das coisas. Entender os destinos de uma eleição política, a queda de um governo. Escutar as palavras oficiais começa a não ser mais suficiente. Enquanto o mundo tem uma direção bem precisa, tudo, no entanto, parece se concentrar em algo diferente, talvez banal, superficial. A declaração de um ministro, um acontecimento minúsculo, a fofoca. Mas quem decide tudo é outra coisa. Esse instinto está na base de todas as escolhas românticas. O jornalista, o narrador e o diretor gostariam de contar como é o mundo, como é realmente. Dizer aos seus leitores, aos seus espectadores: não é como vocês acham, é assim. Não é como vocês acreditavam, agora vou abrir a ferida através da qual vocês podem espiar a verdade suprema. Mas ninguém jamais consegue totalmente. O risco é acreditar que a realidade, a verdadeira, pulsante, determinante, está completamente escondida. Se você tropeça e cai nessa, começa a achar que tudo são conspirações, reuniões secretas, associações e espiões. Que nada jamais aconteceu como parece ter acontecido. Essa é a idiotice típica de quem narra. É o início da miopia de um olho que julga são: fazer o círculo do mundo quadrar nas suas interpretações. Mas não é assim tão simples. A complexidade está justamente em não acreditar que tudo está escondido ou que tudo é decidido em salas secretas. O mundo é mais interessante do que uma conspiração entre serviços de inteligência e seitas. O poder criminoso é uma mistura de regras, desconfiança, poder público, comunicação, ferocidade, diplomacia. Estudá-lo é como interpretar textos, como se tornar entomologista.


A aula

[...]


Com o tempo me convenci de que não conservamos somente na cabeça as coisas que recordamos, elas não estão todas na mesma zona do cérebro; me convenci de que outros órgãos também tem uma memória. O fígado, os testículos, as unhas, o peito. Quando você ouve as palavras finais, elas ficam grudadas ali. E quando essas partes se lembram, enviam o que registraram ao cérebro. Não raro me dou conta de me lembrar de algo com o estômago, que armazena o belo e o horrendo. Sei que estão ali certas lembranças, sei disso porque o estômago se mexe. E às vezes a barriga também. É o diafragma que cria ondas: uma lâmina delgada, uma membrana plantada ali, com as raízes no centro do nosso corpo. É dali que tudo parte. O diafragma faz você bufar, enraivecer-se, arrepiar-se, mas também mijar, defecar, vomitar. É dali que parte o impulso durante o parto. E também estou certo de que há pontos que recolhem o pior: conservam os dejetos. Não sei onde é esse ponto dentro de mim, mas ele está cheio. E agora está saturado, tão repleto que não cabe mais nada. Meu espaço das lembranças, ou melhor, dos dejetos, está farto. Poderia parecer uma boa notícia: não há mais espaço para a dor. Mas não é. Se os dejetos não têm mais aonde ir, começam a se meter onde não devem. Se enfiam nos espaços que recolhem memórias diversas.


Roberto Saviano


10.11.16

américa


Sobre a bandeira da corrupção
a cadela do fascismo pariu a serpente.

Na pedra está escrita
a outra história.


9.11.16

lugar para dúvida

[...]

Estamos em uma transição incerta que torna insegura qualquer descrição da estrutura social. É posto um ponto de interrogação no senso comum sobre o que é o social, não apenas das pessoas comuns como também dos cientistas. Não basta tentar entender o "contexto social" quando os cidadão decidem em quem votar ou os consumidores escolhem se diferenciar lendo livros ou exibindo dispositivos eletrônicos. Nós tomamos essas decisões participando de interações sociais que não são exteriores aos indivíduos, como são imaginados os "contextos". Operamos como atores em rede que colocam em dúvida constantemente como se associar, e para quê, com outros autores, com instituições e com os movimentos que as questionam. Naturalmente, examinar a cada momento os pressupostos do senso comum não é tarefa exclusiva dos filósofos e cientistas sociais, ou seja, nós que suspeitamos da simples acumulação de dados - dos que leem ou não, dos que votam ou preferem se manifestar nas ruas. Também cumprem essa tarefa crítica os movimentos sociais, e por isso os pesquisadores estamos prestando tanta atenção neles e nas estruturas, que cada vez duram menos. Em um mundo que se transforma com mais velocidade do que quando apareceu a imprensa, o cinema ou a televisão, é inaproveitável a ideia do cientista como um taquígrafo que anota se as leis imaginadas "do social" são cumpridas ou transgredidas. Quando as maiorias atuam conforme as leis, mas adaptando-se a relações informais que prevalecem na política, na economia, no acesso à informação, quando o sobrenome que melhor qualifica a democracia é canalha, quando não muda fisicamente o mapa dos poderosos, mas as interações próximas e distantes de multidões, e todos nos sentimos mais ou menos estrangeiros, a tarefa do pensamento social - em vez de descobrir regularidades de longa duração - é "orquestrar contrastes" (Clifford Geertz). Captar a ordem das pessoas e das coisas requer, mais do que nunca, estar atento à sua arbitrariedade. A sociedade é um labirinto de estratégias.

Néstor G. Canclini


8.11.16

tristes trópicos


Universalizar a esquerda sem fazer um recorte é coisa de pessoas que não se assumem de direita. Falas cheias de retóricas viraram moda e estou ouvindo muita gente graduada nas redes sociais reproduzindo falsidades sem se dar conta desta má consciência.


1.11.16

tristes trópicos



Em nosso planeta os teóricos e ideólogos são em sua essência demonólogos. E estes pseudos especialistas estão em tudo quanto é buraco destruindo as singularidades, as subjetividades que se recusam a fazer parte da falsa existência, dos papéis sociais estereotipados.

E isso no Brasil é três vezes pior.


31.10.16

educação e emancipação


Numa democracia, quem defende ideais contrários à emancipação, e, portanto, contrários à decisão consciente independente de cada pessoa em particular, é um antidemocrata, até mesmo se as ideias que correspondem a seus desígnios são difundidas no plano formal da democracia. As tendências de apresentação de ideias exteriores que não se originam a partir da própria consciência emancipada, ou melhor, que se legitimam frente a essa consciência, permanecem sendo coletivistas-reacionárias. Elas apontam para uma esfera a que deveríamos nos opor não só exteriormente pela política, mas também em outros planos muito mais profundos.

Theodor W. Adorno
Trad.: Wolfgang L. Maar



29.10.16

a vida ao rés do chão


dois

Minha proposta ética, independente da introspecção, é o inconformismo.


28.10.16

a vida ao rés do chão



A democracia não se estabeleceu a ponto de constatar a experiência das pessoas como assunto próprio da sociedade de modo que fizesse os indivíduos compreender a si mesmos como sujeitos dos processos históricos e dos processos políticos. Falta chão.



deus, um delírio


Lxs muchachxs estan dormindo. Por isso, eu repetirei mais uma vez a fala de um geneticista:

"se a história da ciência nos mostra alguma coisa, é que não chegamos a lugar nenhum ao chamar nossa ignorância de deus."


27.10.16

dialética da escola-prisão


Dezoito

Anteontem de manhã uma diretora despreparada para a educação e para compreender o movimento ocupa dos estudantes "performatizou", apoiado por papais fabricados pela escola sem partido (aposto), uma cena deplorável na rua. Ela tentava a desocupação da escola por meio de berros e ameaças.



É fácil manter a boquinha ao transformar a direção em um mecanismo do aparelho ideológico e em um instrumento da repressão.

Chego a pensar que a escola não precisa dessa relação de poder. Nunca precisou. Não há necessidade disso se estamos em um espaço para exercer a atividade intelectual.

Agora, mais do que nunca, é preciso nacionalizar os ocupas. Por todos os estados. E quem sabe, um dia, ter uma escola gerida apenas por educadores e educandos.

Hasta la victoria!


dialética da escola-prisão


dezessete

Lembro de um ignorantão que "lecionava" em uma escola em Colombo que dizia espumando pelos corredores:

- Machado de Assis na minha escola não!

Posso lhes assegurar que ele tinha orgulho da sua sapiência.


26.10.16

dialética da escola-prisão


dezesseis

Superstição, intolerância e perseguição, eis a tríade administrativa das escolas.


25.10.16

dialética da escola-prisão



The CasualtiesRiot | 1997



Riots in our cities fucking riots at your schools
Riots in this country we fucking riot just for you
Riot, Riot, Riot, Riot
Riots in your city fucking riots at your schools
Riot for the punx, fucking riots everywhere

Riot in the streets, fucking riots of today


quinze

Às vezes é necessário repetir a mesma história para que se possa ter uma compreensão palpável. Uma frase que ouvi com muita frequência, por exemplo, neste último ano como educador foi:

- Eu estou recebendo ordens.

Essa oração - discurso do senso comum - foi dita inúmeras vezes por pedagogas e alguns professores. 

Eu pensava que a escola fosse espaço para questionamentos. Para levantar questões: problematizar.


Mas não.

O espaço está mais para a disseminação de dogmas, produção de cartazes horríveis e reprodução da cultura de massa.

Análise e interpretação de texto? 
A maioria não lê.

Eichmann sorri no inferno.


24.10.16

de la musique

Buenos Aires Hora Cero

Maneras de luchar

Que no me digan
que escriben simplemente,
que dicen el poema
sin pensarlo siquiera.
Que él nace sin más ni más.

Es un arduo trabajo,
un oficio de herreros, un quehacer proletario,
un cansancio que seguirá mañana.

Que no me digan
que se hacen poemas sin sudores,
sin una larga y violenta jornada de trabajo.
Tengo las manos como las de un labrador,
duras, gastadas, llenas de poemas.

Rubén Vela | 1969



23.10.16

aberração


é preciso procurar
precisão em cifras
números
estatísticas
gráficos
até no rabo.

calcula-se tudo:
o homem não deve dormir
nunca.



22.10.16

ópios


Rock farofa, sertanojo, bandinhas promovedoras de álcool, artistas pop drogaditos, merdinhas fabricados pela televisão, patriotismo industrializado, violência comercializada, mercado de dogmas, todo esse lixo cultural não faz parte da minha vida desde os 10 anos.


Tenho dito e fique escrito!

21.10.16

se questo è un uomo


Pela primeira vez, então, nos damos conta de que a nossa língua não tem palavras para expressar esta ofensa, a aniquilação de um homem. Num instante, por intuição quase profética, a realidade nos foi revelada: chegamos ao fundo. Mais para baixo não é possível. Condição humana mais miserável não existe, não dá para imaginar. Nada mais é nosso: tiraram-nos as roupas, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão - e, se nos escutarem, não nos compreenderão. Roubarão também o nosso nome, e, se quisermos mantê-lo, deveremos encontrar dentro de nós a força para tanto, para que, além do nome, sobre alguma coisa de nós, do que éramos.

Imagine-se, agora, um homem privado não apenas dos seres queridos, mas de sua casa, seus hábitos, sua roupa, tudo, enfim, rigorosamente tudo que possuía; ele será um ser vazio, reduzido a puro sofrimento e carência, esquecido de dignidade e discernimento - pois quem perde tudo, muitas vezes perde também a si mesmo; transformado em algo tão miserável, que facilmente se decidirá sobre sua vida e sua morte, sem qualquer sentimento de afinidade humana, na melhor das hipóteses considerando puros critérios de conveniência. Ficará claro, então, o duplo significado da expressão "Campo de extermínio", bem como o que desejo expressar quando digo: chegar no fundo.

Primo Levi | 1958
Trad.: Luigi Del Re


20.10.16

dialética da escola-prisão


[Absurdo | 09]
catorze

Outro dia, fui questionado por um colega de profissão, quando ainda não era motivo de perseguição ideológica, quantos anarquistas eu conhecia. Para respondê-lo, o sujeito tinha ares de juiz da lei e da ordem e sustentava um olhar de fanático da moral, remeti a Léauthier:
- Os anarquistas não precisam se conhecer para pensarem a mesma coisa.
Feito, voltei para o livro que estudava e dei por encerrado o interrogatório.


18.10.16

papéis

La clef des songes | 1930
[...]

A doença mental não existe. É uma categoria cômoda para agrupar e afastar os casos em que a identificação não ocorreu de forma apropriada. Aqueles que o poder não pode governar nem matar são rotulados de loucos.

Raoul Vaneigem


14.10.16

s/ título


escola
esfola

mata
desmata

neurose
necrose

e assim vai.


13.10.16

abstração mediatizada e mediação abstrata


[...]

A repressão que se abate sobre o rebelde libertário se abate sobre todos os homens. O sangue de todos os homens corre com o sangue dos Durruti assassinados.

[...]

A meu ver, é muito grande a indiferença das pessoas quando em certas épocas se vê o mundo tomar as formas de metafísica dominante. A crença em Deus e no Diabo, por mais bizarra que seja, faz desses dois fantasmas uma realidade viva logo que uma coletividade os julga presentes o suficiente para inspirar os textos das suas leis. Do mesmo modo, a estúpida distinção entre causa e efeito foi capaz de reger a sociedade na qual os comportamentos humanos e os fenômenos em geral eram analisados em tais termos. E ainda hoje, ninguém pode subestimar a dicotomia aberrante entre pensamento e ação, teoria e prática, real e imaginário... essas são forças da organização. O mundo da mentira é um mundo real: nele se mata e se morre, é melhor que não se esqueça isso. Enquanto ironizamos sem dó o apodrecimento da filosofia, os filósofos contemporâneos se retiram com um sorriso de entendidos por trás da mediocridade do seu pensamento: sabem ao menos que o mundo continua a ser uma construção filosófica, um grande sótão ideológico. Sobrevivemos numa paisagem metafísica. A mediação abstrata e alienante que me afasta de mim mesmo é terrivelmente concreta.

[...]

Julgamos viver no mundo, mas na verdade adotamos uma perspectiva. Não mais a perspectiva simultânea dos pintores primitivos, mas a dos racionalistas do Renascimento. Dificilmente os olhares, os pensamentos, os gestos escapam à atração do longínquo ponto de fuga que os ordena e os altera, situando-os no seu espetáculo. O poder é o maior urbanista. Ele loteia a sobrevivência em partes privada e pública, compra a preço baixo os terrenos roçados, proíbe que se construa sem passar pela suas normas. Ele próprio constrói para expropriar cada um de si mesmo. Os seus construtores de cidades invejam esse estilo monolítico sem graça, e o imitam ao substituir a velha arquitetura confusa da santa hierarquia por regiões de magnatas, bairros de funcionários, blocos de trabalhadores (como em Mourenx).

A reconstrução da vida, a reedificação do mundo: uma única e mesma vontade.

[...]

O poder é a soma das mediações alienadas e alienantes

[...]

A mediação do poder exerce uma chantagem permanente sobre o imediato. É claro que a ideia de que um gesto não pode ser completar na totalidade das suas implicações reflete exatamente a realidade de um mundo empobrecido, de um mundo da não-totalidade, mas ao mesmo tempo reforça o caráter metafísico dos fatos, a sua falsificação oficial. O senso-comum é um compêndio de falsidades como: "Os chefes são sempre necessários", "Sem a autoridade a humanidade se precipitará na barbárie e nos caos" e assim por diante. É verdade que o hábito mutilou de tal modo o homem que ele pensa que, ao mutilar-se, obedece à lei natural. Talvez seja também o esquecimento de sua própria perda que o amarra tão bem ao pelourinho da submissão. Seja como for, condiz à mentalidade do escravo associar o poder à única forma de vida possível: a sobrevivência. E cabe aos desígnios do senhor encorajar esse sentimento.


Raoul Vaneigem | 1967
Trad.: Leo V.


12.10.16

dance of days


[Dead Kennedys | 1985]

Em território americano, o "rock" estava sob ataque. O responsável pelo ataque era o famigerado Parents Music Resource Center (O Parents Music Resource Center foi um comitê americano formado em 1985 com o objetivo inicial de aumentar o controle dos pais sobre o acesso das crianças à música considerada violenta, o uso de drogas ou a conotação sexual através da rotulagem com o selo Parental Advisory). O rosto público mais notório do PMRC era o de Mary Elizabeth "Tipper" Gore, esposa do Senador Al Gore, que estava chocada pelos vídeos de rock e pelas letras de canções como "Darling Nikki", de Prince.

Mary gore e suas amigas (conhecidas como as "esposas de Washington") tentavam passar uma imagem de que eram contra a censura, mas seus pedidos para classificação e rotulação dos discos diziam exatamente o contrário. Um dos primeiros golpes desferidos por essa campanha aconteceu quando Jello Biafra foi acusado de "distribuição de material prejudicial a menores", uma referência ao pôster Penis Landscape, de HR Giger, que fazia parte do álbum Frankenchrist.

Mark Andersen 
Trad.: Ana Carolina e Marcelo Viegas 



10.10.16

dialética da escola-prisão


treze

Não há neutralidade que possa resistir à corrupção e à destruição do pensamento dentro dos ambientes escolares.


8.10.16

arranjo cultural


Viver sem referência 
a um deus qualquer.



7.10.16

dialética da escola-inquisição


dois

Um amigo me contou sobre a palestra motivacional o ocorrida na semana pedagógica da sua escola. Só que a palestra tinha como vídeo uma pregação evangélica.

O engodo tem dois lado da mesma moeda. A pregação como desculpa de motivação.

Será, me pergunto, estes pseudos-pedagogos estão tirando uma onda da cara dos educadores preocupados com uma educação emancipatória ou as escolas se declararam igrejinhas?

Está ficando fácil trabalhar como professor. A profissão já não está mais preocupada com a pesquisa científica muito menos com a memória histórica.

E o que dizer do pensamento analítico?



6.10.16

dialética da escola-prisão


doze

Eu descubro o nível de cognição do corpo pedagógico em um ensino público quando ouço falas do tipo: 

"Quanto mais eu leio, mas irritada eu fico." 

Sério? Eu pensei que a leitura nos ajudasse na base das argumentações, no esclarecimento dos fatos históricos. Mas partindo da pedagoga, ler é sinônimo de ficar irritado.


5.10.16

dialética da escola-prisão


onze

Como é que se garante ao educando o acesso à escrita e aos discursos sem prática de leitura?


4.10.16

situação nenhuma ambígua


A filosofia original do punk era, para mim, antes de tudo, lutar contra a merda toda qui’taí. Por exemplo: televisão, álcool, carros e ser fodão.

Punk era fazer da vida um protesto.


1.10.16

el sueño de un gran taller

[Joan Miró | 1973]

Miró escribió en 1936:

"Mis contemporáneos saben lo que hay que luchar hoy en día cuando se es pobre. Eso se acaba cuando su cuenta se pone bien. Comparados con esa gente, que comienza su vergozosa decadencia a los treinta años, admiro a artistas como Bonnard o Maillol. Estos lucharán hasta el último aliento. Cada nuevo año de madurez es para ellos un nuevo nacimiento. Los grandes crecen y se desarrollan a cualquier edad."

Obviamente Miró se había autodisciplinado de tal manera, que se convirtió en uno de esos artistas: luchaba, aprendía, evolucionaba mientras vivía, sin traicionar su proprio estilo. Creó un arte fresco y vital hasta una edad avanzada, sin preocuparle el espíritu de los tiempos. El rótulo del tren que Miró encontró en una tienda y que tenía colgado en la puerta de su estudio parisino, porque tanto le gustaba, parecía hacer sido estampado para él:

ESTE TREN NO PARA.

[...]

Una tarde observó a unos niños lanzando cometas desde el tejado del taller. Los movimientos ondulados y serpenteantes de la cola de las cometas le inspiraron de tal manera, que casi sin pensarlo pintó líneas rítmicas en el cuadro, que ya estaba equilibrado y en parte pintado.

Janis Mink
Trad.: Carlos Caramés


30.9.16

a espada e a lâmpada: uma leitura de guernica


[Guernica, de Alain Resnais e Robert Hessens | 1950]


... pintura fundamentalmente antifascista da qual o inimigo fascista está ausente, substituído por uma comunidade de seres humanos e animais ligados pela tragédia e pela morte.

Carlo Ginzburg
Trad.: Júlio C. Guimarães



29.9.16

direito à literatura



[...]

Nas sociedades de extrema desigualdade, o esforço dos governos esclarecidos [...] tenta remediar na medida do possível a falta de oportunidades culturais. Nesse rumo, a obra mais impressionante que conheço no Brasil foi de Mário de Andrade no breve período em que chefiou o Departamento de Cultura da Cidade de São Paulo, de 1935 a 1938. Pela primeira vez entre nós viu-se uma organização da cultura com vista ao público mais amplo possível. Além da remodelação em larga escala da Biblioteca Municipal, foram criados: parques infantis nas zonas populares; bibliotecas ambulantes, em furgões que estacionavam nos diversos bairros; a discoteca pública; os concertos de ampla difusão, baseados na novidade de conjuntos organizados aqui, como quarteto de cordas, trio instrumental, orquestra sinfônica, corais. A partir de então a cultura musical média alcançou públicos maiores e subiu de nível, como demonstram as fichas de consulta da Discoteca Pública Municipal e os programas de eventos, pelos quais se observa diminuição do gosto até então quase exclusivo pela ópera e o solo de piano, com incremento concomitante do gosto pela música de câmara e a sinfônica. E tudo isso concebido como atividade destinada a todo o povo, não apenas aos grupos restritos de amadores.

Antonio Candido | 1988



25.9.16

dialética da escola-prisão

[Sin dios | 2005]

dez

É inexistente o projeto político pedagógico de leitura como eixo do ensino público.

Mesmo a simples prática de leitura de narrativas.

Observações empíricas de um período de oito anos mostraram que não há bibliotecas atualizadas, mas abandonadas. O local é tão inutilizado que se transforma em depósito caótico de livros. Pilhas encaixotadas. E elas ficam lá, por um bom tempo.

A biblioteca é vista como local de castigo.

Não estamos lendo nem para exercer a cidadania. Tome como exemplo, olhe, escute o nível baixo dos candidatos que encabeçam as pesquisas para as prefeituras? São playboys que fazem "cara de nojinho" pra beber pingado. Outros, como o gordo podre e ladrão, são racistas.

O reflexo da falta de leitura do mundo e da palavra bate na sala e ilumina o mundo. E nessa onda, eu me pergunto: a ignorância está gerando fonte de renda para quem?

Isso e mais um pouco fabricam um tipo de cultura. 
O esgoto do complexo químico deságua.

Vão tomar no cu!


24.9.16

vício privado


sou um 

usuário
da língua


20.9.16

medo e ousadia


Não está na hora dos ativistas anarquistas, trotskistas, altermundialistas, neozapatistas, luditas, e tutti quanti se unirem para uma frente única e radical de transformação da sociedade: a começar pelas escolas?


19.9.16

a máquina da lama

[La mentira | Punkora]


Sinto que a democracia está literalmente em perigo. Pode parecer exagero, mas não é. A democracia está em perigo no momento em que, se você se manifesta contra certos poderes, se se apresenta contra o governo, o que o espera é o ataque de uma máquina que lhe cobre de lama: um ataque que parte de sua vida privada, de fatos minúsculos de sua vida privada, que são usados contra você.

A democracia está em perigo na medida em que você, quando liga o computador para escrever seu artigo, pensa ao mesmo tempo: "Amanhã me atacarão dizendo coisas que não têm nada a ver com a vida pública, nada a ver com um crime cometido". Você não fez nada de mau, mas usarão sua privacidade contra você, obrigando-o a se defender. Então, quer seja prefeito, assessor, médico, jornalista, antes de criticar você reflete um pouco. Quando isso acontece, a liberdade de imprensa começa a se deteriorar, a liberdade de expressão começa a se deteriorar. 

A força da democracia é a multiplicidade. Mas, infelizmente, o instinto que está emergindo no país é o que afirma que somos todos iguais, todos idênticos, todos somos a mesma coisa. É aqui que a máquina da lama vence. convém saber enxergar as diferenças. A diferença é aquilo que a máquina da lama não quer que o espectador, o leitor, o cidadão intua. Uma coisa é a debilidade que todos temos, outra é o crime. Uma coisa é o erro, outra a extorsão. Os políticos podem errar, significa que agem. Mas uma pessoa que erra é bem diferente de uma pessoa corrupta.

É necessário dizer: "Nós somos diferentes". É preciso sublinhar a diferença, não lançar tudo no mesmo caldeirão. Assinalar, por exemplo, que a privacidade é sagrada, é um dos pilares da democracia.

O objetivo da máquina da lama é justamente dizer que é tudo a mesma coisa. E, principalmente, baixe o olhar, não critique, deixe que vença o mais esperto e, se criticar, o que o espera é isto: toda a sua privacidade se tornará pública.

A desinformação visa destruir as vítimas no campo dos amigos, é usada como punição, para obrigá-lo a se defender perante seus familiares, a dizer coisas que nada têm a ver com sua atividade pública. Semeia dúvidas e insinua suspeitas que justamente os amigos devem temer. Seja qual for seu estilo de vida, seja qual for seu trabalho, seja qual for seu pensamento, se você se posiciona contra certos poderes, estes sempre responderão com uma única estratégia: deslegitimá-lo.

Roberto Saviano
Trad.: Joana d'Avila


17.9.16

informação, definições, adjetivos


A guerra midiática durante as manifestações [São Paulo, agosto de 2013 até a Copa do Mundo 2014] foi incessante. Pouco a falar sobre os grandes veículos de comunicação que não tenha sido dito já até a saciedade, porém, um fenômeno, talvez mais imperceptível, mas muito mais transformador, nunca deixou de chamar a minha atenção: em cada um dos protestos, além dos veículos formais, havia cidadãos anônimos com smartphones, reproduzindo via streaming, filmando, fotografando, opinando...

Curioso como muitas pessoas não querem aceitar mais ser consumidores dóceis de informação. Querem produzir, criar. Claro que isto é algo extraordinário, avançar do cidadão-consumo ao cidadão-informação, mas nada é sempre cor-de-rosa. Nas manifestações, o jogo sempre é complexo e a informação pode muito bem servir de base tanto para o diálogo quanto para a neurose.

Frequentemente, depois de cada manifestação, depois do enfrentamento na rua, começava o enfrentamento na rede social e a conclusão do dia era uma histeria midiática aumentando a polarização e o clima de tensão. Cenas de violência de manifestantes e de violência de policiais. Essas cenas resumiam tudo, como se não tivesse existido nada mais durante as horas de cada manifestação. Como se tudo pudesse se vulgarizar, rapidamente, sem tempo para a análise, para a sagacidade, para a diversidade dos fatos. O que é complexo parece cansar na rede.

A internet e especificamente a rede social Facebook exercem um papel fundamental nos protestos. O Facebook não é só a plataforma de convocação, organização e difusão dos eventos, mas atua também como fortalecedora da identidade coletiva Black Bloc. Informações sobre a tática, notícias sobre sua atuação em diversos países, sentimentos, experiências, expectativas pessoais de cada um dos adeptos sobre a situação nas ruas, comentários contra a Polícia Militar... Proximidade, horizontalidade, ampla liberdade de expressão, fatores que disseminam ideias coletivas com rapidez e atuam como estimuladores.

Mas a internet que redemocratiza, onde todos podem ser criadores em vez de meros repetidores, às vezes parece uma selva de sociopatas. Espaço dos lugares-comuns por excelência, onde tudo é trivializado, pouco é debatido. Horas na frente do Facebook e, em vez de questionamentos, só reproduzimos dogmas.

Esther Solano


chopin na cadeira elétrica


[La krudeza no muere | 2013]

Abre aspas

A dinâmica da acumulação leva inexoravelmente ao colapso da biosfera e ao desaparecimento das condições orgânicas da vida humana. Portanto, devemos criar uma sociedade ecológica, em ruptura com o capitalismo, não apenas porque ela é desejável, mas porque é tragicamente necessária.

Fecha aspas


15.9.16

indivíduo e coletivo


[...]

O capitalismo ao transformar em mercadoria todas as sequências da atividade humana, fraciona, "fragmenta" o indivíduo: "Cada uma das suas relações humanas com o mundo, ver, ouvir, cheirar, degustar, sentir, pensar, intuir, perceber, querer, ser ativo, amar, enfim todos os órgãos da sua individualidade" foram alienados pela lei do lucro. Mais tarde, em 1867, em O capital, Karl Marx aprofundou mais essa ideia e opõe o ser do homem completo ao ter do homem "fragmentado" pela alienação capitalista. Este último é cindido pela divisão do trabalho, é despossuído de sua produção pela leio do valor: pelo trabalho, os assalariados transformam matérias-primas em mercadorias, e assim dão a elas um valor suplementar, valor que só retorna muito parcialmente aos produtores em forma de salários. O indivíduo, encurralado entre a dupla natureza do trabalho e os circuitos do capital, é sistematicamente separado de uma parte de si mesmos, de seu tempo social, de sua produção, de seu trabalho: de uma atividade que lhe é própria na origem. O capitalismo não é individualista, ele oprime o indivíduo.


Olivier B.
Michael L.


14.9.16

por uma arte revolucionária independente


Para a criação intelectual, a Revolução deve, desde o começo, estabelecer e assegurar um regime anarquista de liberdade individual. Nenhuma autoridade, nenhuma coação, nem o menor traço de comando!

Breton y Trotski


12.9.16

as causas psicológicas do nazismo

[1912-1973]

O sadomasoquista moral se traduz numa vontade doentia de poder e dominação, ligada a uma ânsia, igualmente doentia, de submissão e autodiminuição. [...] O sadomasoquista moral só sente bem dentro de uma hierarquia rigorosa, em que sempre há alguém por cima e alguém por baixo dele - posição exata da pequena e da media burguesia.

Entre os múltiplos caminhos de evasão do isolamento e da liberdade oferece-se o do sadomasoquismo como meio de fuga inconsciente para as massas. O sadismo é a tentativa inconsciente do indivíduo de sobrepor-se à solidão e ao sentimento da sua extrema pequenez pelo engrandecimento da própria pessoa a tal ponto que domina e, por assim dizer, engole um ou outros indivíduos. Desta maneira, incorporando outros, ele se sente, inconscientemente, valorizado e fortificado. O impulso masoquístico, ao contrário, é a expressão inconsciente de uma tentativa de aniquilação do próprio "eu", que, assim, pela sujeição a um poder superior, espera libertar-se do isolamento doloroso. Os dois fenômenos são sintomas de um só estado de fraqueza e insegurança. O sadista, embora parecendo "homem forte", é no íntimo um fraco, pois sua vontade de poder é um sinal da sua essencial dependência daqueles que domina. Longe de ser autônomo, capaz de realizações positivas, é ele, ao contrário, nas suas formas excessivas, uma pessoa mórbida, escravizada, apta apenas para ações destrutivas. Esta fraqueza ressalta pelo fato de ele ser igualmente dominado por instintos de submissão.

O futuro da democracia, sistema dentro do qual a liberdade poder-se-á realizar relativamente de maneira melhor, depende da sua capacidade de criar condições econômicas-sociais e o ambiente espiritual que possibilitem a educação de indivíduos relativamente autônomos, seguros de si mesmos num estado de segurança geral em que não podem desenvolver-se o medo, a angústia, a preocupação constante, a solidão insuportável para o espírito médio; a futura democracia depende da sua capacidade de criar condições nas quais possam desenvolver-se indivíduos que não sejam autômatos que sucumbam a qualquer campanha de propaganda, mas que saibam raciocinar com discernimento; que sintam seus próprios sentimentos e não os que poderes anônimos sugerem; que tenham emoções genuínas e não as que convém a patriotas espertos; que ajam de acordo com seus próprios desejos humanos, dentro dos limites sociais e não obedecendo a desejos de alguns que puxam as cordas. Se Sócrates disse "conhece-te a ti mesmo!", devemos dizer hoje: "seja você mesmo! Não seja o que outros querem que você seja!"

Anatol Rosenfeld


31.8.16

sonho pirata ou realidade 2.0?


“Jolly Roger” usada por Stede Bonnet. 
Bandeira dos anarquistas russos 
1918 - 1920

Compartilhar, colaborar 
e se comunicar livremente...

Localizada em um paraíso tropical e habitada por gente amiga, Libertália era também perfeita por estar próxima as principais rotas marítimas. Para Daniel Defoe (1724), Libertália foi a maior expressão da Utopia pirata por uma terra livre. [...] Lá não havia lugar de privilégios de nobreza, inquisição religiosa, exploração colonial ou comerciantes de escravos. Era o único local onde se ostentava em terra firme a bandeira preto e branca, conhecida como "jolly roger" - cuja origem vem do francês jolie rouge ("bela vermelha"). Seu uso significava a disposição de uma embarcação lutar até a morte.

[...]

Libertália foi a origem de uma série de ataques a navios negreiros. Estes eram saqueados e tinham seus cativos libertados.

[...]

O reduto tornou-se um símbolo do humanismo comunitarista pirata.
Uma terra onde todos são livres. Onde não há exploradores ou explorados; nem senhores, nem escravos; nem proprietários, nem servos. Onde sequer há nacionalidades e fronteiras de qualquer espécie. Onde o dinheiro não é centro da vida, mas sim a solidariedade e o bem estar comum.

[...]

Em tempos de regimes absolutistas, dominação colonial, escravidão, inquisição - tudo ao mesmo tempo, os barcos piratas podiam ser considerados ilhas de democracia em meio a um oceano de tirania.

[...]

A estratégia pirata consistia em explorar as fraquezas do sistema organizado de roubo, baseado em uma política colonial, onde uma monarquia ávida por riquezas, cercada por uma nobreza corrupta contrastava com o povo miserável.

[...]

Os barcos piratas eram uma ameaça a todo o sistema de exploração colonial: à manutenção das colônias, ao comércio marítimo, aos navios negreiros e a própria estrutura social vigente, baseada na divisão de classes, nacionalidades e raças.

[...]

Por suas tendência antiautoritárias, a mera existência dos piratas representava um risco às autoridades. Qualquer igualitarismo ou ideologia libertária era incompatível com regimes monárquicos, elites rurais, senhores de escravos, exploração mercantilista e colonial. E essa forma de vida contrariava a moral e costumes da época.

[...]

Pirata significa também que está "fora do lugar". Identifica os que se opõem à sociedade em suas práticas sociais, especialmente no campo da cultura, da arte, da política e da informação.

[...]

Os piratas de hoje não aceitam o bloqueio ao fluxo da informação, controles sobre os meios de comunicação e ataques à privacidade e direitos fundamentais sob a escusa de garantir a "segurança". Também não aceitam que a infraestrutura de informação e comunicação se preste ao monitoramento e ao vigilantismo, ao mesmo tempo em que o Estado esteja sob o controle de pessoas que defendam com unhas e dentes o segredo. A manipulação de informação e a concentração de poder pelas corporações também é o contrário ao espírito libertário pirata.

Jorge Machado