24.7.17

a poesia

Atelier Populaire || 1968

A poesia - O que é a poesia? A poesia é a organização da espontaneidade criadora, a exploração do qualitativo segundo as leis internas de coerência, aquilo a que os gregos chamavam poiein, que é o "fazer", mas o "fazer" devolvido à pureza do seu momento original, em outras palavras, à totalidade.

Onde faltar o qualitativo, nenhuma poesia será possível. No vazio deixado pela poesia instala-se o oposto do qualitativo: a informação, o programa de transição, a especialização, o reformismo, em suma, o fragmentário sob suas diversas formas. Contudo, a presença do qualitativo não garante a poesia. Pode acontecer que uma grande riqueza de signos e de possibilidades se perca na confusão por falta de coerência, ou se destrua por interferências mútuas. O critério de eficácia deve predominar sempre. A poesia portanto é também a teoria radical digerida pela ação, o coroamento da tática e da estratégia revolucionária, o apogeu do grande jogo da vida cotidiana.

O que é a poesia? Em 1895, durante uma greve mal começada e que parecia votada ao fracasso, um militante do Sindicato das Estradas de Ferro tomou a palavra e mencionou um processo engenhoso e barato para fazer avançar os objetivos da greve. "Com 2 centavos de um determinado material utilizado corretamente podemos impossibilitar o funcionamento de uma locomotiva". O governo e os capitalistas imediatamente cederam. Aqui a poesia é claramente a ação que gera novas realidades, a ação de inversão de perspectiva. A matéria-prima está ao alcance de todos. São poetas aqueles que sabem como usá-la, que material qualquer não é nada se comparado com a profusão de energia sem igual disponibilizada pela vida cotidiana: a energia da vontade de viver, do desejo desenfreado, da paixão do amor, do amor das paixões, a força do medo e da angústia, o furacão do ódio e o ímpeto selvagem da fúria de destruir. Que transformações poéticas não poderemos esperar de sentimentos tão universais experimentados como aqueles associados à morte, à velhice e à doença? É dessa consciência ainda marginal que deve partir a longa revolução da vida cotidiana, a única poesia feita por todos, e não por um.

"O que é a poesia?", perguntam os estetas. E é então preciso lembrar-lhes esta evidência: a poesia raramente tem a ver com poema. A maior parte das obras de arte trai a poesia. Como poderia ser de outra forma já que a poesia e o poder são inconciliáveis? Quando muito, a criatividade do artista prende-se a si mesma, enclausura-se esperando a sua hora numa obra inacabada, aguardando o dia de dar a última palavra. Mas, mesmo que o autor espere muito dela, essa última palavra - aquela que precede a comunicação perfeita - nunca será pronunciada enquanto a revolta da criatividade não tiver levado a arte à sua realização.

A obra de arte africana, quer se trate de um poema ou de uma música, de uma escultura ou de uma máscara, só é considerada acabada quando é verbo criador, palavra atuante: só quando é um elemento criativo que funciona. Ora, isso não é válido só para a arte africana. Não existe arte alguma no mundo que não se esforce por funcionar; e por funcionar, mesmo no âmbito das recuperações ulteriores, com exatamente a mesma vontade que a gerou: uma vontade de viver na exuberância do momento de criação. Compreende-se por que razão as melhores obras não têm fim? É que elas exigem de todas as formas o direito de se realizar, de entrar no mundo da experiência vivida. A decomposição da arte atual é o arco idealmente retesado para tal flecha.

Nada pode salvar da cultura do passado o passado da cultura, com exceção dos quadros, da literatura, das arquiteturas musicais ou líricas que nos atingem pelo qualitativo, livre da sua forma - de todas as formas de arte. Isso ocorre com Sade, Lautreamónt, e também com Villon, Lucrécio, Rabelais, Pascal, Fourier, Bosch, Dante, Bach, Swfit, Shakespeare, Uccello. Eles se livram do seu envoltório cultural, saem dos museus nos quais a história os tinha colocado e se tornam dinamite para as bombas dos futuros realizadores da arte. O valor de uma obra antiga deve ser avaliado pela parte de teoria radical que contém, pelo núcleo de espontaneidade criadora que os novos criadores se prontificam a libertar para e por uma poesia inédita.

A teoria radical é exímia em dilatar a ação iniciada pela espontaneidade criadora, sem alterá-la nem desencaminhá-la de seu curso. Do mesmo modo, em seus melhores momentos, o processo artístico tenta imprimir ao mundo o movimento de uma subjetividade tentacular, sempre sequiosa de criar e de se criar. Mas, enquanto a teoria radical se gruda à realidade poética (a realidade que se faz), ao mundo que se transforma, a arte adota um processo idêntico com um risco muito mais elevado de se perder e corromper. Só a arte armada contra si mesma, contra aquilo que tem de mais fraco - de mais estético - resiste à recuperação.

É sabido que a sociedade de consumo reduz a arte a uma variedade de produtos de consumo. E quanto mais se vulgariza essa redução, mais a decomposição se acelera, mais crescem as possibilidades de uma superação. A comunicação tão imperativamente desejada pelo artista é impedida e proibida mesmo nas relações mais simples da vida cotidiana. De tal modo que a busca de novos modos de comunicação, longe de estar reservada aos pintores ou aos poetas, é parte hoje de um esforço coletivo. Assim acaba a velha especialização da arte. Já não existem artistas uma vez que todos o são. A futura obra de arte é a construção de uma vida apaixonante.

A criação importa menos que o processo que gera a obra, que o ato de criar. O que faz de alguém um artista é o estado de criação, e não o museu. Infelizmente, o artista raramente se reconhece como criador. Na maior parte do tempo, faz pose diante de um público, se exibe. A atitude contemplativa diante de uma obra de arte foi a primeira pedra lançada no criador. Inicialmente ele provocou essa atitude, mas agora tenta desfazê-la uma vez que, imperativos econômicos. É por isso que não existe mais obra de arte no sentido clássico do termo. Já não pode haver obra de arte, e ainda bem. A poesia reside em outro lugar, nos fatos, nos acontecimentos que criamos. A poesia dos fatos, que sempre foi tratada marginalmente, reintegra hoje o centro dos interesses de todos, o centro da vida cotidiana, que na verdade ela nunca abandonou.

A verdadeira poesia não dá a mínima para poemas. Na sua busca do livro, Mallarmé nada mais desejava do que abolir o poema, e como abolir um poema senão realizando-o? E essa nova poesia foi usada com fulgor por alguns contemporâneos de Mallarmé. Quando o autor de Hérodiade lhes chamou "anjos da pureza", teria ele tomado consciência de que os agitadores anarquistas com suas bombas ofereciam ao poeta uma chave que, encurralado na sua linguagem, ele não podia usar?

A poesia está sempre em algum lugar. O seu recente abandono das artes torna mais fácil ver que ela reside antes de tudo nos gestos, num estilo de vida, numa busca desse estilo. Reprimida em toda parte, essa poesia por toda parte floresce. Brutalmente recalcada, reaparece na violência. Consagra motins, casa-se com a revolta, anima os grandes carnavais revolucionários antes que os burocratas lhe fixem residência na cultural hagiográfica.

A poesia vivida soube provar no decorrer da história, mesmo nas revoltas parciais, mesmo no crime - essa revolta de um só, como disse Coeurderoy - , que ele protegia acima de tudo aquilo que há de irredutível no homem: a espontaneidade criadora. A vontade de criar a unidade do homem e do social, não na base da ficção comunitária, mas a partir da subjetividade, é o que faz da nova poesia uma arma que todos devem saber manejar por si mesmos. A temporada de caça à experiência poética já começou. A organização da espontaneidade será obra da própria espontaneidade.

Raoul Vaneigem
Trad.: Leo V.
1967



23.7.17

el educador mercenario


La Polla Records || 1984


Se preguntaba por la ‘posibilidad’, después de Auschwitz, de una Educación que nunca ha existido - o ha existido sólo como «falsa consciencia», como mito, como componente esencial de la «ideología escolar». Esa Educación de Adorno tampoco fue posible «antes» de Auschwitz. Más aún: los campos de concentración y de exterminio fueron concebidos y realizados gracias, en parte, a la educación «real», «concreta», que teníamos y que tenemos - la educación obligatoria de la juventud ‘recluida’ en Escuelas; la educación que segrega socialmente, que aniquila la curiosidad intelectual, que modela el carácter de los estudiantes en la aceptación de la Jerarquía, de la Autoridad y de la Norma, etc., ésta es la única «educación» que conocemos - a la cual las democracias contemporáneas pretenden meramente lavarle la cara. Esta educación ‘efectiva’, de cada día en todas las aulas, habiendo coadyuvado al horror de Auschwitz, sigue siendo perfectamente posible después...

Has hablado de “anti-pedagogía”... ¿A qué te refieres con ese concepto? ¿Qué recriminas al ‘pedagogismo’ moderno?

En esencia, entiendo por “anti-pedagogía” la negación del dogma fundacional de ese taimado saber: el prejuicio de que hay algo que corregir y algo que forjar en la subjetividad de los jóvenes. Como anti-pedagogo, yo niego ese supuesto; y, para el ejercicio de la Corrosión que sugiero, y que durante dos años llevé a cabo, propongo justamente lo contrario: no pretender hacer nada “por” los estudiantes, dejar en paz a la juventud, no inmiscuirnos en “sus” asuntos, permitir que cada cual decida dónde reside su propio ‘bien’... Luchar contra la máquina escolar, obstruir sus movimientos característicos, dificultar su funcionamiento coercitivo. Luchar contra la máquina, mas ya no por los alumnos. Contra la máquina y, accidentalmente, con los alumnos (ya que la resistencia estudiantil puede ‘converger’ con la práctica corrosiva de los antiprofesores; y cabe cierta complicidad en el fraude, cierta solidaridad en la transgresión); pero nada más.

Al no situarse “por encima” de los demás, al no incurrir en la infamia de usurpar la voz del otro (infamia de hablar ‘por’ los estudiantes, de transformar los método en su nombre, etc.), el anti-profesor aún en ejercicio, en pleno ‘recorrido’, no pretende salvar a nadie, no procura ayudar a nadie -¿cómo, si apenas está seguro de saber ayudarse a sí mismo? No le interesa, en absoluto, la cabeza del estudiante: lo suyo es desguazar la maquinaria escolar, desescolarizarse. A esto se refiere el término “anti-pedagogía”, que está en mi punto de partida. La Polla Records, en “Gurú”, tema de su álbum Salve, centró muy bien esta cuestión: 

“Has venido a salvarme, de la otra parte del mundo; 
me traes la salvación, pero eso es por tu cuenta y riesgo. 
¿Quién cojones te ha mandado? 
¡Gurú! Una patada en los huevos es lo que te pueden dar... 
¡Vete a salvar a tu viejo, sólo pretendes cobrar! 


Lo mismo que Marx, lo mismo que Nietzsche, lo mismo que Illich y Reimer, yo no ‘venero’ el ídolo del Confinamiento Educativo, no hago mío ese dogma. Considero, además, que, desde el punto de vista de la “resistencia”, de la “contestación”, de la “oposición” al Sistema, lo más coherente sería negar esa exigencia del Encierro, del Enclaustramiento; y trabajar para que, fuera de la Escuela, en la sociedad civil, en el extrarradio de las instituciones estatales, los jóvenes vean multiplicados los medios (los recursos, los instrumentos) de su auto-educación: colaborar, p. ej., en la creación y en el funcionamiento de ateneos, bibliotecas alternativas, asociaciones culturales, foros de discusión, revistas, galerías independientes, editoriales, colectivos de un signo o de otro, talleres de creación, etc., etc. 

Pedro G. Olivo



19.7.17

devir


Ser terno
na modernidade corrosiva.

Ser corajoso
em tempos difíceis.

17.7.17

pensar por nosotros mismos




Quien niega Auschwitz es el mismo que estaría dispuesto a rehacerlo.
Primo Levi

Fascismo não é apenas governo autoritário e forte, de preferência militar, que deixa que se reproduzem, sem contestação, as forças econômicas da classe dominante. Fascismo existe todas as vezes em que o ser humano se sente cúmplice e súdito de normas. Amolecem o cérebro, espreguiçam-se os músculos, soltam a fibra. O homem deixa-se invadir por modelos de comportamento que não representam a sua energia, mas que o transformam em um uniforme a mais.

Silviano Santiago


16.7.17

das passagen-werk

estêncil: Anarcrítica || 2017

Se se comparar a obra em desenvolvimento na história à uma fogueira em chamas, o comentador está diante dela como o químico, o crítico como o alquimista. Enquanto para aquele madeira e cinza permanecem os únicos objetos de sua análise, para este a chama guarda um enigma: o do vivo. Assim, o crítico se interroga sobre a verdade cuja chama viva continua a arder por cima das achas pesadas do que foi e das cinzas leves do vivido.


Walter Benjamin
Trad.: Graciela Calderón e Griselda Mársico

Desbravar os domínios onde apenas a loucura, até agora, cresceu em abundância. Avançar com o machado afiado da razão e sem olhar nem à direita nem à esquerda, para não sucumbir ao horror que, do fundo da floresta virgem, procura nos seduzir. Toda terra deverá um dia ser desbravada pela razão, ser desembaraçada das brenhas do delírio e do mito.


Walter Benjamin
Trad.: Jean Lacoste


equilibrio


Kortatu || 1986


O Brasil nos obriga a beber é uma falácia do sistema capitalista. O Brasil, praticamente, nos obriga a desistir, se não nos deixa doente. A burrice é distribuída de várias maneiras, por meio da televisão, por meio da música e por meio da imprensa, sistematicamente, para não deixar sequer espaço para o uso do bom senso. E isso triplica enormemente para o lado negativo quando é ajudado pelos intelectuais conformistas.


15.7.17

hip hop & esqueleto cafeinado



Soy la ironía de Bukowski, la rebeldía de Gramsci 
y escupo a los medios de la burguesía como Chomsky 

A responsabilidade dos intelectuais
Noam Chomsky
Trad.: Renato M.

O padrão de enaltecimento e punição é conhecido e familiar ao longo da história: os que se engajam e se alinham a serviço do Estado são geralmente exaltados pela comunidade intelectual geral, ao passo que os que se recusam a se mobilizar a serviço do Estado são punidos.

A distinção entre as duas categorias de intelectuais fornece o arcabouço para a determinação da "responsabilidade dos intelectuais". A expressão é ambigua: ela se refere à responsabilidade moral dos intelectuais como seres humanos decentes, numa posição para usar seu privilégio e status a fim de promover as causas de liberdade, justiça, misericórdia, paz e outras inquietações sentimentais? Ou se refere ao papel que se espera que ele desempenham na condição de "intelectuais tecnocráticos e orientados pela política", não depreciando, mas servindo à liderança e às instituições estabelecidas? Uma vez que o poder geralmente tende a triunfar e preponderar, os da última categoria são considerados os "intelectuais responsáveis", enquanto os primeiros são descartados ou denegridos - em seu próprio território.



14.7.17

em liberdade


O escritor é o guardião do repertório das histórias que o povo conta e vive, mas é antes de tudo o guardião da língua de que se serve este povo para contar as histórias do passado e as histórias que os acontecimentos de hoje (em todo o território nacional) fabricam. Numa sociedade complexa como a nossa, seria muito simples se o escritor fosse só o contador de histórias. Ele deve preservá-las, passá-las adiante, mas é responsável pela língua que as gravou. Para isso, é preciso que alargue as suas próprias possibilidades de fabricar uma linguagem, entrando por formas linguísticas que não possui, que não comanda. É assim que acaba por ter acesso ao coletivo da língua e à ficção do outro. Abrindo fronteiras, desbravando território estranho. Ganha, passa, recupera.

Não é exagero dizer que o escritor brasileiro tem a obrigação de traduzir o seu português (língua aprendida na escola, exercida através da função individual dentro da classe dominante, uniformizada pelo convívio, aprimorada e conscientizada através dos nossos bons autores daqui e de além-mar) para o brasileiro falado por pessoas de diferentes estratos sociais, que não tiveram acesso às instâncias de purificação da língua.

[...]

Assim como o escritor se interessa pelo alargamento das suas fronteiras linguísticas, também o leitor tem de trabalhar nesse sentido se quiser acompanhar o romancista, lendo a sua obra. Dessa forma terá acesso a um pensamento diferente do seu. Terá um melhor conhecimento do outro, do intricado funcionamento da sua cabeça e da maneira como fabrica soluções e problemas. Tudo isso sem a interferência de uma única subjetividade individual ou de classe. Não concebo uma intriga - num país de tantos falares quanto o nosso - sem antes fazer uma investigação minuciosa da língua em que esta intriga foi vivenciada. Saio à cata do falar dos meus personagens, encontrando por aí uma série de línguas menores que precisam ser dicionarizadas.

Dizem que os meus livros são construídos demais. Existe nesse tipo de frase um elogio implícito à espontaneidade na execução da obra de arte que me incomoda. Quanto mais espontâneo o discurso de um semelhante, mais fácil a sua compreensão por um outro semelhante, pois ficam ambos dentro de um circuito tautológico. O discurso ficcional não tem obrigação de seguir o circuito a que chamo de jornalístico (de semelhantes para semelhantes). Pode segui-lo - e será uma opção do romancista, condizente com a história que quer narrar. De modo geral, o nosso romance do Nordeste é, básica e intrinsecamente, feito por não-semelhantes para não-semelhantes. Ele tem de, como obrigação, criar um curto-circuito emocional no momento da leitura.

O leitor de jornal (ou de romance espontâneo) não quer fazer esforço algum quando lê. Contenta-se em absorver a escrita de um outro como se fosse um papale mata-borrão. Deixa-se guiar apenas pelas faculdades da memória e não pelas reflexão. Este leitor tem uma visão fascista da literatura. Fascismo não é apenas governo autoritário e forte, de preferência militar, que deixa que se reproduzem, sem contestação, as forças econômicas da classe dominante. Fascismo existe todas as vezes em que o ser humano se sente cúmplice e súdito de normas. Amolecem o cérebro, espreguiçam-se os músculos, soltam a fibra. O homem deixa-se invadir por modelos de comportamento que não representam a sua energia, mas que o transformam em um uniforme a mais. Chega a uma triste conclusão: quanto mais semelhante sou ao meu semelhante, mais sei a respeito do mundo, da sociedade e das pessoas.

A verdadeira leitura é uma luta entre subjetividades que afirmam e não abrem mão do que afirmam, sem as cores da intransigência. O conflito romanesco é, em forma de intriga, uma cópia do conflito da leitura. Ficção só existe quando há conflito, quando forças diferentes digladiam-se no interior do livro e no processo da sua circulação pela sociedade. Encontrar no romance o que já se espera encontrar, o que já se sabe, é o triste caminho de uma arte fascista, onde até mesmo os meandros e os labirintos da imaginação são programados para que não haja a dissidência de pensamento. A arte fascista é "realista", no mau sentido da palavra. Não percebe que o seu "real" é apenas a forma consentida para representar a complexidade do cotidiano. 

O romancista ocupa, por isso, uma posição difícil dentro da sociedade e do seu grupo. Ele traz problemas sem solução para os seus semelhantes. Incomoda-os, não os deixando quietos e tranquilos com a vida que estão levando. Todas as vezes em que percebe que uma norma está sendo criada e seguida como modelo ideal por um grupo considerável de cidadão, é o momento em que entra em cena com as suas armas críticas. Esta crítica, no entanto, não aparece de forma explícita. Seria preferível, neste caso, escrever um ensaio. A crítica na ficção joga com a ambiguidade: reproduz a norma (momento em que o leitor, tendo encontrado um semelhante, simpatiza com ele), mas ao reproduzi-la, começa a instilar gotas de insatisfação que perturbam o mesmo leitor (tendo simpatizado inicialmente com os personagens, o leitor começa a achar o seu/dele comportamento estranho, deixando, enfim, de simpatizar com o livro).

Silviano Santiago
1994


12.7.17

la universidad desconocida

Santiago | 2017


Llegará el día en que desde la calle te llamarán: / chileno. / Y tú bajarás las escaleras de tres en tres. / Será de noche / y tus ojos por fin habrán encontrado el color / que deseaban. / Estarás preparando la comida o leyendo. / Estarás solo y bajarás de inmediato. / Un grito una palabra / que será como el viento empujándote de improviso / hacia le sueño. / Tú bajarás las escaleras de tres en tres / con un cuchillo en la mano. / La calle estará vacía.

Roberto Bolaño


11.7.17

formação continuada


A educação formal não passa de uma mentira. E essa mentira não possui disfarce. O que ela vem tentando fazer é só instigar um fervor patriótico. Em poucos momentos o sistema educacional promove o pensamento criativo ou algum tipo de estrutura conceitual para a análise independente ou de empoderamento. Fabrica-se uma mentalidade automatizada e robotizada de alguém que segue ordens para o "bem da nação". 


10.7.17

welcome to hell


O que os alienados de sofá vão chamar de violento na manifestação em Hamburgo (barricadas, carros queimando, chuva de pedra, fogos de artifícios) foi causado pela repressão policial.

Todos os vídeos que estão a circular pela rede mostram que o aparelho repressor seguiu a cartilha para perseguir os manifestantes anarquistas que se reuniram pacificamente.


9.7.17

welcome to hell




Desde a guerra civil de Espanha a ação revolucionária dos anarquistas passou pelo planeta inteiro e desembocou em Hamburgo.

Devemos ser práticos! Há que fundar sociedades de resistência!

Salud y anarquia!


8.7.17

apêndice


Os tolos e fanáticos perseguiram até o filósofo Bertrand Russel. Moveram-se para agir contra a nomeação do livre pensador para a Universidade de Nova York. Atacaram-no de todas as maneiras. Nomearam-no de ministro do demônio, usaram e abusaram de recurso demagógico em uma ação judicial e o queriam expulso dos Estados Unidos.

Em tempos de ignorância difundida como entretenimento, vale muita a leitura de Cómo se evitó que Bertrand Russel enseñase en la Universidad de la ciudad de Nueva York:

[...] este desaguisado de procedimiento no esta nada comparado con las deformaciones, calumnias y falsas conclusiones contenidas en el juicio, que merece el estudio más cuidadoso. Demuestra lo que aparentemente puede hacerse a plena luz del día, incluso en un Estado democrático, si un fanático ostenta el poder judicial y se siente apoyado por políticos influyentes.

7.7.17

observações sobre as várias tentativas de perseguição ao Wikileaks e às pessoas a ele associadas


Órgãos do governo norte-americano, como a Biblioteca do Congresso, o Departamento de Comércio e as Forças Armadas, bloquearam o acesso ao conteúdo do Wikileaks em suas redes. E a proibição não se limitou ao setor público: instituições acadêmicas foram advertidas de que os estudantes que tivessem a ambição de seguir carreira no funcionalismo público deveriam evitar o conteúdo divulgado pelo Wikileaks em suas pesquisas e atividades na internet.


30.6.17

máquina da lama



A elite brasileira viciada em dinheiro se contenta apenas adquirir carros e destruir as cidades, transformando-as em um imenso estacionamento. É ela, bitolada, que mantém toda a estrutura podre da sociedade. É ela, seduzida pelos meios de comunicação de massa, entregue ao entretenimento mais alienante do planeta, que deseja a morte de ciclistas. É ela, historicamente alienada, que não compreende e também não quer compreender e nunca vai compreender as lutas de classes. 

A elite brasileira é pilantra, caluniadora, golpista, só pensa em si, no seu consumo cego. É ela seduzida pelo "bens" da indústria cultural. É ela deseducada, acelerada, impaciente e corrupta até o osso. É ela que é individualista e autoritária.

A elite brasileira não passa de um produto da publicidade. Rigorosamente um produto. Perfeitamente um produto: um objeto. O modelo mais bem acabado, por exemplo, é o atual prefeito de São Paulo. 

A elite brasileira mantém a desigualdade social para discriminar e excluir. Para ela, a sociabilidade se dá apenas pelo entretenimento. 

Sabemos, diante de tanta falcatrua, que o mundo inteiro é podre, mas podem ter certeza que no Brasil é quatro vezes, cinco vezes, infinitamente pior.


29.6.17

formação continuada


O bairro mais podre em que trabalhei como professor de literatura foi o Batel. Não é à toa que lá, justamente lá, eu fui encontrar uma bandeira dos confederados pendurada numa barraquinha de quinquilharias na praça da Espanha.

Depois que eu digo que a classe abastada é historicamente alienada, a geral acha que eu exagero.


27.6.17

abre aspas

Mafalda | Quino

A resposta da vanguarda ao cognitivo, ao ético e ao estético é inequívoca. A verdade é uma mentira, a moral fede e a beleza é uma merda. E é claro que eles estão certos. A verdade é um comunicado da Casa Branca, a moral é a Moral Majority, e a beleza é uma mulher nua anunciando um perfume. É claro também, que eles estão errados. A verdade, a moral e a beleza são importantes demais para serem passadas com desprezo às mãos do inimigo.

Terry Eagleton


26.6.17

direito à literatura

Estêncil | 2017

[...]

Certos bens são obviamente incompressíveis, como o alimento, a casa, a roupa. Outros são compressíveis, como os cosméticos, os enfeites, as roupas supérfluas. Mas a fronteira entre ambos é muitas vezes difícil de fixar, mesmo quando pensam nos que são considerados indispensáveis. O primeiro litro de arroz de uma saca é menos importante do que o último, e sabemos que com base em coisas como esta se elaborou em Economia Política a teoria da "utilidade marginal", segundo a qual o valor de uma coisa depende em grande parte da necessidade relativa que temos dela. O fato é que cada época e cada cultural fixam os critérios de incompressibilidade, que estão ligados à divisão da sociedade em classes, pois inclusive a educação pode ser instrumento para convencer as pessoas de que o que é indispensável para uma camada social não o é para outra. Na classe média brasileira, os da minha idade ainda lembram o tempo em que se dizia que os empregados não tinham necessidade de sobremesa nem de folga aos domingos, porque não estando acostumados a isso, não sentiam falta... Portanto, é preciso ter critérios seguros para abordar o problema dos bens incompressíveis, seja do ponto de vista individual, seja do ponto de vista social. Do ponto de vista individual, é importante a consciência de cada um a respeito, sendo indispensável fazer sentir desde a infância que os pobres e desvalidos têm direito aos bens materiais (e que portanto não se trata de exercer caridade), assim como as minorias têm direito à igualdade de tratamento. Do ponto de vista social é preciso haver leis específicas garantindo este modo de ver.

Por isso, a luta pelos direitos humanos pressupõe a consideração de tais problemas, e chegando mais perto do tema eu lembraria que são bens incompressíveis não apenas os que asseguram a sobrevivência física em níveis decentes, mas os que garantem a integridade espiritual. São incompressíveis certamente a alimentação, a moradia, o vestuário, a instrução, a saúde, a liberdade individual, o amparo da justiça pública, a resistência à opressão etc.; e também o direito à literatura.

Mas a fruição da arte e da literatura estaria mesmo nesta categoria? Como noutros casos, a resposta só pode ser dada se pudermos responder a uma questão prévia, isto é, elas só poderão ser consideradas bens incompressíveis segundo uma organização justa da sociedade se corresponderem a necessidades profundas do ser humano, a necessidades que não podem deixar de ser satisfeitas sob pena de desorganização pessoal, ou pelo menos de frustação mutiladora. A nossa questão básica, portanto, é saber se a literatura é uma necessidade deste tipo. Só então estaremos em condições de concluir a respeito.

Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos de folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações.

... a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. 

A produção literária tira as palavras do nada e as dispõe como todo articulado. [...] A organização da palavra comunica-se ao nosso espírito e o leva, primeiro, a se organizar; em seguida, a organizar o mundo. Isto ocorre desde as formas mais simples, como a quadrinha, o provérbio, a história de bichos, que sintetizam a experiência e a reduzem a sugestão, norma, conselho ou simples espetáculo mental.

A eficácia humana é função da eficácia estética, e portanto o que na literatura age como força humanizadora é a própria literatura, ou seja, a capacidade de criar formas pertinentes.

Negar a fruição da literatura é mutilar a nossa humanidade.

O que há de grave numa sociedade como a brasileira é que ela mantém com a maior dureza a estratificação das possibilidades, tratando como se fossem compressíveis muitos bens materiais e espirituais que são incompressíveis. Em nossa sociedade há fruição segundo as classes na medida em que um homem do povo está praticamente privado da possibilidade de conhecer e aproveitar a leitura de Machado de Assis ou Mário de Andrade. Para ele, ficam a literatura de massas, o folclore, a sabedoria espontânea, a canção popular, o provérbio. Estas modalidades são importantes e nobres, mas é grave considerá-las como suficientes para a grande maioria que, devido à pobreza e à ignorância, é impedida de chegar às obras eruditas.

Para que a chamada literatura erudita deixe de ser privilégio de pequenos grupos, é preciso que a organização da sociedade seja feita de maneira a garantir uma distribuição equitativa de bens. Em princípio, só numa sociedade igualitária os produtos literários poderão circular sem barreiras, e neste domínio a situação é particularmente dramática em países como o Brasil, onde a maioria da população é analfabeta, ou quase, e vive em condições que não permitem a margem de lazer indispensável à leitura. Por isso, numa sociedade estratificada deste tipo a fruição da literatura se estratifica de maneira abrupta e alienante.

Como seria a situação numa sociedade idealmente organizada com base na sonhada igualdade completa, que nunca conhecemos e talvez nunca venhamos a conhecer?

Utopia à parte, é certo que quanto mais igualitária for a sociedade, e quanto mais lazer proporcionar, maior deverá ser a difusão humanizadora das obras literárias, e, portanto, a possibilidade de contribuírem para o amadurecimento de cada um.
Nas sociedades de extrema desigualdade, o esforço dos governos esclarecidos e dos homens de boa vontade tenta remediar na medida do possível a falta de oportunidades culturais. Nesse rumo, a obra mais impressionante que conheço no Brasil foi de Mário de Andrade no breve período em que chefiou o Departamento de Cultura da cidade de São Paulo, de 1935 a 1938. Pela primeira vez entre nós viu-se uma organização da cultura com vista ao público mais amplo possível. Além da remodelação em larga escala da Biblioteca Municipal, foram criados: parques infantis nas zonas populares; bibliotecas ambulantes, em furgões que estacionavam nos diversos bairros; a discoteca pública; os concertos de ampla difusão, baseados na novidade de conjuntos organizados aqui, como quarteto de cordas, trio instrumental, orquestra sinfônica, corais. A partir de então a cultura musical média alcançou públicos maiores e subiu de nível, como demonstram as fichas de consulta da Discoteca Pública Municipal e os programas de eventos, pelos quais se observa diminuição do gosto até então quase exclusivo pela ópera e o solo de piano, com incremento concomitante do gosto pela música de câmara e a sinfônica. E tudo isso concebido como atividade destinada a todo o povo, não apenas aos grupos restritos de amadores.

O problema da desigualdade social e econômica, está o problema da intercomunicação dos níveis culturais. Nas sociedades que procuram estabelecer regimes igualitários, o pressuposto é que todos devem ter a possibilidade de passar dos níveis populares para os níveis eruditos como consequência norma da transformação de estrutura, prevendo-se a elevação sensível da capacidade de cada um graças à aquisição cada vez maior de conhecimentos e experiências. Nas sociedades que mantêm a desigualdade como norma, e é o caso da nossa, podem ocorrer movimentos e medidas, de caráter públicos ou privado, para diminuir o abismo entre os níveis e fazer chegar ao povo produtos eruditos.

As classes dominantes são frequentemente desprovidas de percepção e interesse real pela arte e a literatura ao seu dispor, e muitos dos seus segmentos as fruem por mero esnobismo, porque este ou aquele autor está na moda, porque dá prestígio gostar deste ou daquele pintor.

O que há mesmo é espoliação, privação de bens espirituais que fazem falta e deveriam estar ao alcance como um direito.

Antonio Candido | 1988


23.6.17

formação continuada


A geral não estuda daí nós temos de ouvir certas aberrações no espaço de conhecimento: 

A aluna, pensando que o tema levantado é sobre ela: Se eu sofrer um estupro, professor, ia ter mesmo assim a criança. Ela não pode pagar os pecados dos outros. 

No intervalo, chega a professora, com a ideia de que para ser uma boa profissional basta ser mãe: Ah, eu não vejo problema algum em rezar nas escolas. 

E quando a pedagoga casca grossa solta esta: Quanto mais leio mais irritada eu fico. 

Imagina se o livro virasse uma casa de bonecas. 


22.6.17

formação continuada




Lembro de uma vez que fui chamado na direção de uma escola (bonitinha mas ordinária) para ser interrogado o do por que eu não descia à quadra de esportes para cantar o Hino Nacional.

Estávamos passando por um golpe jurídico e midiático e o corpo que administrava a escola estava preocupado com certas, vamos chamar assim, artificialidades.

A direção e o corpo docente não se preocupavam com a bibliografia dos alunos e eu estava a ser questionado pelo simples fato de não presenciar o Hino Nacional.

Pensei isso e falei: vocês estão de brincadeira?

À pedagoga que não levantava a cabeça da ata como se o caderno de capa preta fosse sagrado, perguntei:

- Vocês irão ensinar os adolescentes a cantar outros hinos, como o da Internacional?

A pedagoga que não levantava a cabeça do livro, engasgou, tossiu e ficou perdida:

- Como? A Internacional de futebol?

A vice-diretora ficava olhando o celular a espera de alguma mensagem de um possível seu senhor e superior. Ela não sabia o que estava fazendo ali.

Aliás, se teve uma coisa muito interessante de analisar (aí entra uma variedade de "agentes" da educação) é o que os outros funcionários sempre tinham como resposta pronta: estavam recebendo ordens.

Saí muito impaciente diante de mais uma postura de assédio da pseudo direção da escolinha que ia se acumulando. Os outros professores calavam-se como se estivessem carregando uma submissão secular nas costas. Resignados e impotentes.

Nesta escola, eu comecei a perceber que os funcionários se qualificavam para ver quem conseguia ser o mais punitivo.


21.6.17

dez fragmentos sobre a literatura contemporânea no brasil e na argentina ou de como os patetas sempre adoram o discurso do poder




Ressalto que até hoje, 45 anos depois do golpe, até onde sei, não existe nenhum romance de peso que analise a vida de caserna brasileira. Não vá alguém dizer que nossos militares não se prestam à sátira: as recentes declarações de um deles, de patente elevadíssima, chamando atenção para o perigo de que os índios que moram na reserva Raposa Serra do Sol representam para a unidade nacional são um prato cheio para nossos ficcionistas, mas aposto que ninguém vai aproveitar. Aqui, citando ainda os romances argentinos Villa, de Luis Gusman, e Duas vezes junho, de Martín Kohan, chamo a atenção para uma diferença entre as duas literaturas em questão: na Argentina, um esforço para criticar as instituições. No Brasil, as instituições continuam intocáveis, talvez com exceção da corrupção policial.

Os argentinos [...] não aguardaram as memórias para fazer ficção. A literatura no Brasil, porém, simplesmente esqueceu a ditadura militar, deixando-a relegada a poucos textos, no mais das vezes de fôlego estético reduzido. Ao contrário, o que surgiu aqui foi a recriação ficcional da chamada violência urbana, uma espécie de assombração das classes médias e altas e um problema real para as classes baixas. [...] A história, por sua vez, via entre nós a confirmação de que nem os militares e nem a força policial deveriam ser julgados pelos abusos, até porque são eles que garantem a continuidade da paranoia com relação à violência, repito que apenas um artifício para esconder a mais selvagem opressão econômica. [...] Os anos 1990 na Argentina foram outros: militares torturadores começaram a ser levados à justiça. A literatura por lá, no entanto, vem repetindo desde aquela época: é pouco, somos historicamente alienados.

... ao negar um lugar político inevitável, os nossos autores estão na verdade tentando esconder o seu conservadorismo.

Um dado curioso: a crítica literária profissional acata a produção literária da periferia, mas não se pronuncia com o mesmo entusiasmo sobre a falta de acesso dessa mesma periferia às instituições de ensino gratuito.

Sabemos que os países que levaram seu aparelho repressivo à justiça tiveram seus índices de violência posteriormente diminuídos.

Nicolas Sarkozy adoraria a nova geração de escritores brasileiros.

... a literatura brasileira contemporânea abandonou qualquer inquietação séria quanto ao seu país e praticamente assumiu o pacto com o discurso do poder econômico e político.

A dificuldade que nossos autores enfrentam para enxergar o próprio tempo tem óbvias consequências conservadoras, já que nos atrasa estética e historicamente.

Em resumo, a literatura brasileira abandona o sentido de negatividade e de resistência ao senso comum e, ao contrário, se alia a ele. Como as classes média e alta estão desde a redemocratização preocupadas com o próximo e hipotético sequestro, a bala perdida, o assalto e sei lá mais qual item do seu álbum de paranoia, não é interessante para a literatura brasileira contemporânea discutir o que nos resta da ditadura, muito menos pedir punição pelos seus crimes. Até porque a instituição que naquela época torturava comunistas, agora tortura qualquer um que vai para em suas mãos. Então, para essas mesmas classes, bem como para a nossa literatura, não convém incomodar essas pessoas.

Se criarmos uma linguagem contra a impunidade, com certeza fortaleceremos as condições para que a justiça formal finalmente cumpra suas obrigações.

... os anos de ditadura não foram, de fato, tratados como deveriam.

E, para voltar de vez ao meu início, concluo com uma pergunta feita por Salinas Fortes, no final de Retrato calado: "E tudo ficará na mesma? Os mesmos senhores de sempre continuarão tranquilos, comandando como se nada tivesse acontecido?". O dia em que a ficção brasileira puder responder "não, os torturadores estão presos", nossa literatura voltará a ser digna de artistas que, em sua época, desafiaram todo tipo de poder, como para terminar por cima, Graciliano Ramos e Machado de Assis.

R. L.


16.6.17

brasil colônia


A intenção religiosa é destruir o cérebros dos pensadores livres. É destruir qualquer sensatez. É claramente um mecanismo de manter o país na estrutura de colonia. Não questionar, não duvidar e não pensar, mas sujar os cérebros de quem não tem nada a ver com a doutrina.


15.6.17

brasil colônia


A televisão transformou a corrupção e o fascismo em objetos de consumo para a classe média idiotizada.


8.6.17

cibercultura

G. Deleuze
... o cibernauta não age passivamente àquilo que se desenrola sob seus olhos. Ele é ativo, pois, diferentemente da televisão, é ele que deve buscar a informação. 

7.6.17

sociedade sem escolas



[...]

Os administradores educacionais de hoje estão empenhados em controlar professores e alunos para satisfazer outros: membros do conselho diretor, legislaturas e executivos de empresas. [...] Muitas pessoas atualmente atraídas para o magistério são profundamente autoritárias e não têm competência para assumir esta tarefa.


Ivan Illich


6.6.17

entre operários

(DIÁLOGO)

- Então, agora que somos livres, explica-me por que, além de seres anarquista, tu és também comunista e ateu... Quero que me digas tudo: pois que, francamente, também eu começo a perceber que vós anarquistas tendes muita razão, como resulta claramente dos jornais que me deste para ler. Não posso, porém, compreender por que não se pode ser anarquista sendo católico ou crente em Deus... Explica-me, então, isto que tu chamas "contradição".

- Antes de tudo; faze-me rir quando dizes: "agora que somos livres"- Livres? Porque o patrão da fábrica concede às bestas de carga, que somos nós, apenas pouco minutos para irmos comer um prato de comida no hotel? Comida é modo de dizer, pois que nem mesmo os cães deveriam comer semelhante substância composta de gêneros deteriorados, por ironia chamados alimentícios, e por remate malcozidos e condimentados com banha apócrifa, vinagre tingido com anilina e azeite fedorento; ingredientes que nos estragam o estômago e depauperam o organismo já exausto pelo excessivo trabalho... Ah! não! nós não somos livres... somos escravos ou cousa pior! Meu caro, a escravidão mudou de nome mas não de fato; e tu podes convencer-te de que és livre... de fazer-te explorar pelos patrões... ou senão - de morrer de fome.

- Tens razão, exprimi-me mal; mas, por favor, dize-me quanto te pedi, pois que desejo instruir-me nessas ideias que tu dizes hão de emancipar-nos.

- Com muito prazer procurarei dar-te alguma explicação. Deves saber que nós anarquistas somos também comunistas e ateus; isto é, não acreditamos nem em Deus do céu - nem em Deus da terra; e sim somente na nossa existência aplicada ao trabalho útil de todos os homens em benefício de todos, que é o ato mais sublime, mais social: a solidariedade - que posta em prática com a atuação dos verdadeiros princípios anárquicos seria a felicidade de todo o gênero humano.

Em suma, para não irmos mais longe, em governo - ou melhor, em política - somos anarquistas; em propriedade - isto é, em economia - comunistas; em religião, ateus.

- Isto mesmo é que desejo que tu me expliques...

- É quanto vou fazer...

Somos anarquistas porque queremos que cada homem (e dizendo homem incluímos também a mulher, pois que nós queremos a igualdade para todos, homens e mulheres) pense com a sua cabeça, obre segundo a sua vontade, e que ninguém se imponha nem tampouco suporte imposições de parte do outro. Em poucas palavras: não queremos governo, porque quem diz governo diz autoridade, tirania, despotismo, exploração, etc. Assim, para explicar-me melhor, devo dizer que não combatemos o imperador A ou o rei B, ou o presidente C, ou o ministro X - mas sim combatemos o princípio da autoridade encarnado no sistema, isto é, na forma de governo; pois que, como diz um rifão: o barril não pode dar senão o vinho que o contém. Assim, para nós, o governo sob qualquer forma exteriorizado - seja ainda encapotado à socialista - é a "fraude"! E o princípio de autoridade é antinatural - é contra a razão, a justiça e a natureza...

Somos comunistas, porque o princípio da propriedade como hoje existe - a propriedade individual - permite a um homem explorar outro homem. Prova: tu és pobre, o teu patrão - ou melhor, o patrão da fábrica, pois que nem os cavalos nem os cães deviam ter patrão e muito menos os homens do século XX, este deslumbrante século pomposamente chamado de luz e de progresso - o patrão da fábrica onde tu trabalha é rico. Mas por que é rico? Porque ele, protegido pelas leis por ele mesmo feitas, se apropria do trabalho dos miseráveis que, constrangidos pela fome, se fazem explorar. Por que és pobre?... porque, não possuindo os meios de trabalho, não podes trabalhar livremente por tua conta ou associado com os outros trabalhadores da tua profissão, e és constrangido por isso a vender, por um miserável prato de feijão, a tua força de trabalho! E vê a contradição: tu que trabalhas e produzes és pobre; o patrão que não trabalha e não produz é rico! E depois acredita nos livros, na Economia Política - o evangelho burguês - que dizem que a riqueza é fruto do trabalho!

- Sim... do trabalho alheio...

- Bravo! Assim mesmo: a riqueza é o fruto do trabalho... alheio. E é isto que nós não queremos, por isso que somos comunistas, isto é, queremos que a propriedade seja comum. Que todos trabalhem e que todos possam gozar dos produtos do trabalho comum, e que não suceda, como agora, que só uma parte da humanidade seja condenada a um trabalho forçado, enquanto uma minoria privilegiada apodrece no ócio e na abundância, quando milhões de seres sofrem todos os martírios de uma miséria sem nome.

- É verdade, é injusto, é infame tudo isso, e considero-me partidário vosso nesse ponto; não sei porém por que não concordais com a religião...

- Outra vez com a religião? Tu tens uma ideia fixa sobre esse ponto,e compadeço-me de ti porque o teu cérebro, se não foi completamente atrofiado pelos padres, católicos ou protestantes, não tardará muito a sê-lo, se tu continuares a frequentar as igrejas.

Posto isto, digo-te: somos ateus porque cremos que as religiões pervertem os espíritos, tornando o homem um dócil instrumento passivo neste mundo, deixando-se explorar, mandar, e dominar só porque os padres dizem que Deus criou o mundo assim, e, portanto, é crime revoltar-se contra a vontade de Deus. Resultado: suportar com resignação todos os sofrimentos neste mundo para depois de mortos... Deus nos acolher no céu! Mas tu poderias perguntar-te: quem voltou depois de morto para nos dizer que tudo isto é verdade? Entretanto, nós sofremos o inferno nesta vida, e os ricos gozam o paraíso neste vale de lágrimas vivendo no luxo e na abundância. Caro amigo, deixa de ser ingênuo até o ponto de acreditar em tolices.

- Sim, mas tu não admites que exista Deus?

- Como deveria admiti-lo, quando ele não se deixa ver? Tu és muito curioso quando falas: admitir não é provar que uma coisa existe. Mas admitindo mesmo que esse teu Deus exista: então, é ele bom ou mau? Se é bom, por que permite tantas injustiças? Se as permite, então é um Deus mau? Reflete bem, meu amigo, como é absurdo tudo isto, e depois contradize-me, se tens razões. Não quero aqui entrar em particularidades para demonstrar-te o absurdo da existência de um Deus que só existe na mente dos insensatos e dos interessados, para que estes possam com mais facilidades explorar aqueles. Falta-me o tempo para isso, e melhor poderás fazê-lo tu mesmo, pois que te darei a ler um livrinho que explica largamente este assunto. Só te digo que olhes a tua triste posição e a de tantos milhões de operários consumidos nos sofrimentos penosos do trabalho escravo e nas garras de uma miséria eterna - eles, suas famílias e seus filhinhos - e compare-a com o fausto dos ricos; e depois dize-me se isto é justo, e se o teu Deus que fecha os olhos não é cúmplice interessado em tais iniquidades.

Em suma, por isto, nós não cremos em Deus, nem no filho, nem no espírito santo, nem na... mãe que os pariu todos!... Compreendeste?...

- Compreendi, sim, e com muito prazer vou ler esse livro que tu me prometes para melhor esclarecer o meu cérebro sobre um assunto tão importante... 

- Pois bem, agora não temos mais tempo para conversar porque a máquina já deu sinal para os carneiros irem deixar-se tosquiar pelo patrão. Outra vez, te explicarei o que é a anarquia, ou melhor, a sociedade futura... Até outro dia, pois.

- Até logo...

Guglielmo Marroco
O amigo do Povo, SP, ano I, n. 6
21 de junho de 1902


4.6.17

mil platôs


[...]

Proust dizia: "as obras-primas são escritas em um tipo de língua estrangeira". É a mesma coisa que gaguejar, mas estando gago da linguagem e não simplesmente da fala. Ser um estrangeiro, mas em sua própria língua, e não simplesmente como alguém que fala uma outra língua, diferente da sua. Ser bilíngue, multilíngue, mas em uma só e mesma língua, sem nem mesmo dialeto ou patuá. Ser um bastardo, um mestiço, mas por purificação da raça. É aí que o estilo cria língua. É aí que toda língua devém secreta, e entretanto não tem nada a esconder, ao invés de talhar um subsistema secreto da língua. Só se alcança esse resultado através de sobriedade, subtração criadora. A variação contínua tem apenas linhas ascéticas, um pouco de erva e água pura.

Gilles Deleuze
Trad.: Ana L. e Lúcia C.


3.6.17