25.9.16

dialética da escola-prisão

[Sin dios | 2005]

dez

É inexistente o projeto político pedagógico de leitura como eixo do ensino público.

Mesmo a simples prática de leitura de narrativas.

Observações empíricas de um período de oito anos mostraram que não há bibliotecas atualizadas, mas abandonadas. O local é tão inutilizado que se transforma em depósito caótico de livros. Pilhas encaixotadas. E elas ficam lá, por um bom tempo.

A biblioteca é vista como local de castigo.

Não estamos lendo nem para exercer a cidadania. Tome como exemplo, olhe, escute o nível baixo dos candidatos que encabeçam as pesquisas para as prefeituras? São playboys que fazem "cara de nojinho" pra beber pingado. Outros, como o gordo podre e ladrão, são racistas.

O reflexo da falta de leitura do mundo e da palavra bate na sala e ilumina o mundo. E nessa onda, eu me pergunto: a ignorância está gerando fonte de renda para quem?

Isso e mais um pouco fabricam um tipo de cultura. 
O esgoto do complexo químico deságua.

Vão tomar no cu!


24.9.16

vício privado


sou um 

usuário
da língua


20.9.16

medo e ousadia


Não está na hora dos ativistas anarquistas, trotskistas, altermundialistas, neozapatistas, luditas, e tutti quanti se unirem para uma frente única e radical de transformação da sociedade: a começar pelas escolas?


19.9.16

a máquina da lama

[La mentira | Punkora]


Sinto que a democracia está literalmente em perigo. Pode parecer exagero, mas não é. A democracia está em perigo no momento em que, se você se manifesta contra certos poderes, se se apresenta contra o governo, o que o espera é o ataque de uma máquina que lhe cobre de lama: um ataque que parte de sua vida privada, de fatos minúsculos de sua vida privada, que são usados contra você.

A democracia está em perigo na medida em que você, quando liga o computador para escrever seu artigo, pensa ao mesmo tempo: "Amanhã me atacarão dizendo coisas que não têm nada a ver com a vida pública, nada a ver com um crime cometido". Você não fez nada de mau, mas usarão sua privacidade contra você, obrigando-o a se defender. Então, quer seja prefeito, assessor, médico, jornalista, antes de criticar você reflete um pouco. Quando isso acontece, a liberdade de imprensa começa a se deteriorar, a liberdade de expressão começa a se deteriorar. 

A força da democracia é a multiplicidade. Mas, infelizmente, o instinto que está emergindo no país é o que afirma que somos todos iguais, todos idênticos, todos somos a mesma coisa. É aqui que a máquina da lama vence. convém saber enxergar as diferenças. A diferença é aquilo que a máquina da lama não quer que o espectador, o leitor, o cidadão intua. Uma coisa é a debilidade que todos temos, outra é o crime. Uma coisa é o erro, outra a extorsão. Os políticos podem errar, significa que agem. Mas uma pessoa que erra é bem diferente de uma pessoa corrupta.

É necessário dizer: "Nós somos diferentes". É preciso sublinhar a diferença, não lançar tudo no mesmo caldeirão. Assinalar, por exemplo, que a privacidade é sagrada, é um dos pilares da democracia.

O objetivo da máquina da lama é justamente dizer que é tudo a mesma coisa. E, principalmente, baixe o olhar, não critique, deixe que vença o mais esperto e, se criticar, o que o espera é isto: toda a sua privacidade se tornará pública.

A desinformação visa destruir as vítimas no campo dos amigos, é usada como punição, para obrigá-lo a se defender perante seus familiares, a dizer coisas que nada têm a ver com sua atividade pública. Semeia dúvidas e insinua suspeitas que justamente os amigos devem temer. Seja qual for seu estilo de vida, seja qual for seu trabalho, seja qual for seu pensamento, se você se posiciona contra certos poderes, estes sempre responderão com uma única estratégia: deslegitimá-lo.

Roberto Saviano
Trad.: Joana d'Avila


17.9.16

informação, definições, adjetivos


A guerra midiática durante as manifestações [São Paulo, agosto de 2013 até a Copa do Mundo 2014] foi incessante. Pouco a falar sobre os grandes veículos de comunicação que não tenha sido dito já até a saciedade, porém, um fenômeno, talvez mais imperceptível, mas muito mais transformador, nunca deixou de chamar a minha atenção: em cada um dos protestos, além dos veículos formais, havia cidadãos anônimos com smartphones, reproduzindo via streaming, filmando, fotografando, opinando...

Curioso como muitas pessoas não querem aceitar mais ser consumidores dóceis de informação. Querem produzir, criar. Claro que isto é algo extraordinário, avançar do cidadão-consumo ao cidadão-informação, mas nada é sempre cor-de-rosa. Nas manifestações, o jogo sempre é complexo e a informação pode muito bem servir de base tanto para o diálogo quanto para a neurose.

Frequentemente, depois de cada manifestação, depois do enfrentamento na rua, começava o enfrentamento na rede social e a conclusão do dia era uma histeria midiática aumentando a polarização e o clima de tensão. Cenas de violência de manifestantes e de violência de policiais. Essas cenas resumiam tudo, como se não tivesse existido nada mais durante as horas de cada manifestação. Como se tudo pudesse se vulgarizar, rapidamente, sem tempo para a análise, para a sagacidade, para a diversidade dos fatos. O que é complexo parece cansar na rede.

A internet e especificamente a rede social Facebook exercem um papel fundamental nos protestos. O Facebook não é só a plataforma de convocação, organização e difusão dos eventos, mas atua também como fortalecedora da identidade coletiva Black Bloc. Informações sobre a tática, notícias sobre sua atuação em diversos países, sentimentos, experiências, expectativas pessoais de cada um dos adeptos sobre a situação nas ruas, comentários contra a Polícia Militar... Proximidade, horizontalidade, ampla liberdade de expressão, fatores que disseminam ideias coletivas com rapidez e atuam como estimuladores.

Mas a internet que redemocratiza, onde todos podem ser criadores em vez de meros repetidores, às vezes parece uma selva de sociopatas. Espaço dos lugares-comuns por excelência, onde tudo é trivializado, pouco é debatido. Horas na frente do Facebook e, em vez de questionamentos, só reproduzimos dogmas.

Esther Solano


chopin na cadeira elétrica


[La krudeza no muere | 2013]

Abre aspas

A dinâmica da acumulação leva inexoravelmente ao colapso da biosfera e ao desaparecimento das condições orgânicas da vida humana. Portanto, devemos criar uma sociedade ecológica, em ruptura com o capitalismo, não apenas porque ela é desejável, mas porque é tragicamente necessária.

Fecha aspas


15.9.16

indivíduo e coletivo


[...]

O capitalismo ao transformar em mercadoria todas as sequências da atividade humana, fraciona, "fragmenta" o indivíduo: "Cada uma das suas relações humanas com o mundo, ver, ouvir, cheirar, degustar, sentir, pensar, intuir, perceber, querer, ser ativo, amar, enfim todos os órgãos da sua individualidade" foram alienados pela lei do lucro. Mais tarde, em 1867, em O capital, Karl Marx aprofundou mais essa ideia e opõe o ser do homem completo ao ter do homem "fragmentado" pela alienação capitalista. Este último é cindido pela divisão do trabalho, é despossuído de sua produção pela leio do valor: pelo trabalho, os assalariados transformam matérias-primas em mercadorias, e assim dão a elas um valor suplementar, valor que só retorna muito parcialmente aos produtores em forma de salários. O indivíduo, encurralado entre a dupla natureza do trabalho e os circuitos do capital, é sistematicamente separado de uma parte de si mesmos, de seu tempo social, de sua produção, de seu trabalho: de uma atividade que lhe é própria na origem. O capitalismo não é individualista, ele oprime o indivíduo.


Olivier B.
Michael L.


14.9.16

por uma arte revolucionária independente


Para a criação intelectual, a Revolução deve, desde o começo, estabelecer e assegurar um regime anarquista de liberdade individual. Nenhuma autoridade, nenhuma coação, nem o menor traço de comando!

Breton y Trotski


12.9.16

as causas psicológicas do nazismo

[1912-1973]

O sadomasoquista moral se traduz numa vontade doentia de poder e dominação, ligada a uma ânsia, igualmente doentia, de submissão e autodiminuição. [...] O sadomasoquista moral só sente bem dentro de uma hierarquia rigorosa, em que sempre há alguém por cima e alguém por baixo dele - posição exata da pequena e da media burguesia.

Entre os múltiplos caminhos de evasão do isolamento e da liberdade oferece-se o do sadomasoquismo como meio de fuga inconsciente para as massas. O sadismo é a tentativa inconsciente do indivíduo de sobrepor-se à solidão e ao sentimento da sua extrema pequenez pelo engrandecimento da própria pessoa a tal ponto que domina e, por assim dizer, engole um ou outros indivíduos. Desta maneira, incorporando outros, ele se sente, inconscientemente, valorizado e fortificado. O impulso masoquístico, ao contrário, é a expressão inconsciente de uma tentativa de aniquilação do próprio "eu", que, assim, pela sujeição a um poder superior, espera libertar-se do isolamento doloroso. Os dois fenômenos são sintomas de um só estado de fraqueza e insegurança. O sadista, embora parecendo "homem forte", é no íntimo um fraco, pois sua vontade de poder é um sinal da sua essencial dependência daqueles que domina. Longe de ser autônomo, capaz de realizações positivas, é ele, ao contrário, nas suas formas excessivas, uma pessoa mórbida, escravizada, apta apenas para ações destrutivas. Esta fraqueza ressalta pelo fato de ele ser igualmente dominado por instintos de submissão.

O futuro da democracia, sistema dentro do qual a liberdade poder-se-á realizar relativamente de maneira melhor, depende da sua capacidade de criar condições econômicas-sociais e o ambiente espiritual que possibilitem a educação de indivíduos relativamente autônomos, seguros de si mesmos num estado de segurança geral em que não podem desenvolver-se o medo, a angústia, a preocupação constante, a solidão insuportável para o espírito médio; a futura democracia depende da sua capacidade de criar condições nas quais possam desenvolver-se indivíduos que não sejam autômatos que sucumbam a qualquer campanha de propaganda, mas que saibam raciocinar com discernimento; que sintam seus próprios sentimentos e não os que poderes anônimos sugerem; que tenham emoções genuínas e não as que convém a patriotas espertos; que ajam de acordo com seus próprios desejos humanos, dentro dos limites sociais e não obedecendo a desejos de alguns que puxam as cordas. Se Sócrates disse "conhece-te a ti mesmo!", devemos dizer hoje: "seja você mesmo! Não seja o que outros querem que você seja!"

Anatol Rosenfeld


31.8.16

sonho pirata ou realidade 2.0?


“Jolly Roger” usada por Stede Bonnet. 
Bandeira dos anarquistas russos 
1918 - 1920

Compartilhar, colaborar 
e se comunicar livremente...

Localizada em um paraíso tropical e habitada por gente amiga, Libertália era também perfeita por estar próxima as principais rotas marítimas. Para Daniel Defoe (1724), Libertália foi a maior expressão da Utopia pirata por uma terra livre. [...] Lá não havia lugar de privilégios de nobreza, inquisição religiosa, exploração colonial ou comerciantes de escravos. Era o único local onde se ostentava em terra firme a bandeira preto e branca, conhecida como "jolly roger" - cuja origem vem do francês jolie rouge ("bela vermelha"). Seu uso significava a disposição de uma embarcação lutar até a morte.

[...]

Libertália foi a origem de uma série de ataques a navios negreiros. Estes eram saqueados e tinham seus cativos libertados.

[...]

O reduto tornou-se um símbolo do humanismo comunitarista pirata.
Uma terra onde todos são livres. Onde não há exploradores ou explorados; nem senhores, nem escravos; nem proprietários, nem servos. Onde sequer há nacionalidades e fronteiras de qualquer espécie. Onde o dinheiro não é centro da vida, mas sim a solidariedade e o bem estar comum.

[...]

Em tempos de regimes absolutistas, dominação colonial, escravidão, inquisição - tudo ao mesmo tempo, os barcos piratas podiam ser considerados ilhas de democracia em meio a um oceano de tirania.

[...]

A estratégia pirata consistia em explorar as fraquezas do sistema organizado de roubo, baseado em uma política colonial, onde uma monarquia ávida por riquezas, cercada por uma nobreza corrupta contrastava com o povo miserável.

[...]

Os barcos piratas eram uma ameaça a todo o sistema de exploração colonial: à manutenção das colônias, ao comércio marítimo, aos navios negreiros e a própria estrutura social vigente, baseada na divisão de classes, nacionalidades e raças.

[...]

Por suas tendência antiautoritárias, a mera existência dos piratas representava um risco às autoridades. Qualquer igualitarismo ou ideologia libertária era incompatível com regimes monárquicos, elites rurais, senhores de escravos, exploração mercantilista e colonial. E essa forma de vida contrariava a moral e costumes da época.

[...]

Pirata significa também que está "fora do lugar". Identifica os que se opõem à sociedade em suas práticas sociais, especialmente no campo da cultura, da arte, da política e da informação.

[...]

Os piratas de hoje não aceitam o bloqueio ao fluxo da informação, controles sobre os meios de comunicação e ataques à privacidade e direitos fundamentais sob a escusa de garantir a "segurança". Também não aceitam que a infraestrutura de informação e comunicação se preste ao monitoramento e ao vigilantismo, ao mesmo tempo em que o Estado esteja sob o controle de pessoas que defendam com unhas e dentes o segredo. A manipulação de informação e a concentração de poder pelas corporações também é o contrário ao espírito libertário pirata.

Jorge Machado



25.8.16

cuidar la cabeza

167 cascos + 97 libros - 7,5 x 4,3 mts | 2016

La obra, y sus elementos, simbolizan la rebelión popular del año 69 en la Ciudad de Córdoba conocida como El Cordobazo. El artista resalta de dicho momento histórico, la unión entre el movimiento estudiantil y el movimiento obrero. Algo inédito y fundamental de tal movilización. La relación del artista con la calle y la intervención artística de la misma, tiene sus orígenes en que varios integrantes de su familia participaron del “Cordobazo”. Esto, según Tec, hizo que su forma de hacer arte tome la calle como espacio central en su obra. 

El estallido social de 2001 en Argentina, encontró a Tec viviendo en Buenos Aires, hecho que marcó la dirección en su proyección artística. La búsqueda del material bibliográfico de la época fue muy difícil debido a que muchos de estos libros tuvieron que ser ocultos, quemados o hasta inclusive enterrados. Son los libros prohibidos, los libros sobrevivientes de nuestra tragedia. Todos los libros que conforman la obra fueron editados antes del año 1969.

Dejamos aqui nuestro profundo deseo de que nunca mas nada ni nadie nos persiga por lo que leemos, escribimos o pensamos.

Los pueblos que olvidan su historia están condenados a repetirla.


23.8.16

tabus acerca do magistério


O pathos da escola hoje, a sua seriedade moral, está em que, no âmbito do existente, somente ela pode apontar para a desbarbarização da humanidade, na medida em que se conscientiza disto. Com barbárie não me refiro aos Beatles, embora o culto aos mesmos faça parte dela, mas sim ao extremismo: o preconceito delirante, a opressão, o genocídio e a tortura; não deve haver dúvidas quanto a isto. Na situação mundial vigente, em que ao menos por hora não se vislumbram outras possibilidades mais abrangentes, é preciso contrapor-se à barbárie principalmente na escola.


Theodor W. Adorno | 1965
Trad.: Wolfgang L. Maar


16.8.16

para o livro de Literatura de segundo grau



Não leias odes, meu filho, lê os horários
(dos trens, dos ônibus, dos aviões):
são mais exatos. Abre os mapas náuticos
antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.
Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem
não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Entende da pequena traição,
da salvação suja de todos os dias. Úteis
são as encíclicas para se fazer fogo,
e os manifestos: para a manteiga e sal
dos indefesos. É preciso raiva e paciência
para se soprar nos pulmões do poder
o fino pó mortal, moído
por aqueles, que aprenderam muito,
que são exatos, por ti.

HANS MAGNUS ENZENSBERGER 
Trad.: Kurt Scharf e Armindo Trevisan



13.8.16

dialética da escola-prisão


Eles: robôs

Numa manhã fria de lascar minha aula fora interrompida pela pedagoga que apareceu para fiscalizar os eventuais alunos que não estavam uniformizados. Ela começou a recolher aqueles que vestiam blusas cinzas, vermelhas e verdes ameaçando-lhes que voltariam para casa para uma lição. 

No alto de tamanha arbitrariedade a questionei se não estaria muito frio. Estava um puta frio. Ela me respondeu que apenas recebia ordens. 

A falta de bom senso fabrica essas relações medíocres de poder.



10.8.16

1968: a Comuna estudantil e o assalto ao céu


O maio de 1968 foi, ao mesmo tempo que épico, lírico e garantiu os direitos da subjetividade. Contra o mundo sem sonho, sem poesia - de prosa - o maio se fez.

1968 é o ano matriarcal presente em todos os movimentos que recusam a submissão ao status quo.

Em 68, a palavra liberada expressou todas as esferas da vida - profissional, pessoal e coletiva, ecológica, e sobretudo amorosa: "on ne tombe pas amoureux d'un taux de croissance" (ninguém se apaixona por uma taxa de crescimento), dizia um grafite da Sorbonne.

A experiência democrática de 68 foi o espaço privilegiado de questionamento de todas as figuras do totalitarismo, do exercício de um poder que se funda sobre o terror permanente e a ideologia; esta dominação não se exercendo apenas do exterior mas também do interior da subjetividade forjada para a servidão, contraria à livre faculdade de julgar. Recorde-se que Hannah Arendt, em seu estudo Eichmann em Jerusalém, enfatiza nele não o demônio patológico nazista, mas o homem na sua absoluta incapacidade de pensar por conta própria.

O maio de 68 apontou e destacou, nos bastidores da fachada do conforto e racionalidade, os mitos da vida moderna e sua "multidão" solitária, na qual os indivíduos não pareciam felizes mas vivendo no exterior de si mesmos, sob o domínio das coisas.

O maio de 68, ao questionar a Reforma universitária, o empresariamento da educação, revelava o término de uma sociedade, antes pautada pelas Humanidades, no conhecimento - , e pela qualidade dos serviços públicos, na sociedade. À ideia de educação-formadora do caráter e do cidadão - que cultivava a literatura, a filosofia e as artes, volta-se, agora, clara e integralmente, para a "otimização" do tempo, isto é, a superexploração do trabalho, a ciência e a técnica tornam-se forças produtivas com seu discurso intimidador de autojustificação ideológica.

Olgária Matos



9.8.16

transmission


Fragmento da palestra do pensador frankfurtiano no Instituto de Pesquisas Educacionais de Berlim em 21 de maio de 1965 e transmitido pela rádio de Hessen em 9 de agosto de 1965:

[...]

Seria preciso atentar especialmente até que ponto o conceito de "necessidade da escola" oprime a liberdade intelectual e a formação do espírito. Isto revela na hostilidade em relação aos espírito desenvolvido por parte de muitas administrações escolares, que sistematicamente impedem o trabalho científico dos professores, permanentemente mantendo-os down to earth, desconfiados em relação àqueles que, como afirmam, pretendem ir mais além ou a outra parte. Uma tal hostilidade, dirigida aos próprios professores, facilmente prossegue na relação da escola com alunos.

Theodor W. Adorno
Trad.: Wolfgang L. Maar


6.8.16

problemática sociológica sob a lente de Bauman:


A ética é possível num mundo de consumidores?
Capitalismo parasitário: danos colaterais.
A sociedade individualizada.
Vida: a crédito, em fragmentos, líquida, para o consumo, desperdiçada.
A riqueza de poucos beneficia todos nós?
Cegueira moral sobre educação e juventude.

5.8.16

dialética da escola-prisão


nove

Somente será possível alguma mudança no complexo educacional (na educação formal) quando o último resquício de punição tiver desaparecido das práticas escolares.

Quem se atreve a desmascarar as condutas autoritárias que prejudicam o objetivo educacional?


22.7.16

ciberativismo


A importância do midiativismo e dos cyberpunks numa rede capitalista como o facebook é de fundamental necessidade.

Para quem acha que a internet não tem fronteiras, muito se engana.

Quem pesquisa e faz o trabalho de filtragem percebe como o google e outras redes promovem pré-censuras. Um exemplo cabal são os artigos que analisam o massacre da Praça da Paz Celestial. As informações disponíveis correspondem apenas as interpretações governamentais.

Isso não nos lembra a manipulação de informações destacada no romance 1984?


19.7.16

o mundo está dividido em:


informados
seminformados
desinformados
e os ignorantes.

No entanto, no Brasil é muito pior.


14.7.16

a trilogia dos dólares


MDC | John Wayne Was a Nazi 

A trilogia dos dólares, de Sergio Leone: "Por um punhado de dólares"; "Por uns dólares a mais" e "Três homens em conflito ou O bom, o mau e o feio" 

O neoliberalismo é o "modelo" econômico mais perverso que o capitalismo já ofereceu à humanidade. Tal qual o mito da caverna de Platão, o capital no século XXI nos arremessa para um mundo de aparente prosperidade, sustentado por um consumo sombrio e pela obscuridade da exploração. Os instrumentos que projetam as sombras na caverna são os arautos da nova economia: jornalistas, economistas, sociólogos, filósofos, cientistas políticos e políticos profissionais. Gente interesseira e interessada. Gente que ganha a vida em manter dominados e explorados obedientes e aprisionados na escuridão da caverna, sem perceber que eles próprios não são a luz em si, mas apenas instrumentos de projeções sombrias. Seres tão dominados quanto aqueles que vivem no interior mais profundo da caverna. Apenas um pouco menos explorados. Até que chega o dia em que a casa cai. E são sumariamente descartados. Para os que tentam sair da caverna, uma esperança de luz. Uma ponta de sol. Mas tão logo regressam para reencontrar seus antigos companheiros de caverna, e tentam convencê-los de que há uma luz alternativa a esse mundo de trevas do capital financeiro e da ideologia neoliberal, no qual são prisioneiros, passam a ser tratados como arruaceiros e são imediatamente excluídos, julgados e condenados. Pelo mercado e pela sociedade. Por dominantes e dominados. Condenados à obsolescência. Condenados à irrelevância. Condenados à inviabilidade. Descobrem, na própria pele, que na sociedade de hoje tudo é escuridão. Frieza. Cálculo. Cinismo. Na caverna não há prisioneiros ou libertos. Apenas cavernas escuras. As cavernas somos nós. Deixamos escapar toda a luz do mundo e nos deixamos aprisionar por tão pouco. Por um punhado de dólares. Vivemos em conflito. Ridicularizamos o bom. Admiramos o mau. E nos tornamos os feios. Por uns dólares a mais. 

Ulisses F.


10.7.16

analfabeto secundário

Mafalda | Quino 


Termos relacionados: indústria cultural, lazer, distinção cultural, público. 

Indivíduo alfabetizado com um grau de informação que pode variar do mais baixo ao mais especializado, capaz de decodificar informação visual e de servir-se de terminais eletrônicos, familiarizado, em suma, com as condições de existência num grande centro urbano contemporâneo, mas desprovido de uma visão cultural mais ampla de sua própria vida e do contexto social. É o produto de uma economia que não tem mais problemas de produção e sim de vendas, que não mais necessita de reservas de mão-de-obra pouco ou nada qualificadas e analfabetas, mas de consumidores qualificados a movimentar-se pela parafernália contemporânea. Caracteriza-se o analfabeto secundário por ter sua atenção desviada por trivialidades (os pseudos-eventos criados pela televisão, como as novelas, competições esportivas, etc.), orientar-se por uma sucessão de entretenimentos vazios e receber informações políticas sob a forma de comunicação espetacularizada. Próprio dos períodos em que o povo se transforma em público, o analfabeto secundário é contemporâneo de uma época cuja cultura perdeu quase todo o traço distintivo e deixou de ser prioridade pública. O analfabeto secundário não se encontra apenas nas camadas mais desfavorecidas da população: longe disso, integra também, em proporção amplamente majoritária, os quadros da elite econômica e política. Sua mídia ideal é a televisão. 

Teixeira Coelho



8.7.16

história da indústria e do trabalho no brasil

[...]

Na grande indústria têxtil, violências sexuais contra meninas e mulheres por parte de mestres e contramestres eram denunciadas rotineiramente na imprensa operária. As prepotências e agressões físicas dos chefes e mestres contra menores eram a norma também no caso da indústria de vidros, de pequeno e médio porte. Um retrato em detalhe das miseráveis condições de trabalho no setor de vidreiros foi feito por um antigo operário do ramo, o memorialista Jacob Penteado. Além da violência física contra os menores, eram comuns as punições, o alcoolismo e doenças como tuberculose e sífilis. Inexistia qualquer higiene nos locais de trabalho. As águas eram insalubres e a temperatura da fornalha chegava a um grau insuportável, dentro de um barracão de zinco sem janelas e nem ventilação. O ar era totalmente poluído pela poeira de vidro, além dos cacos espalhados pelo chão. O autor comparou o interior de uma fábrica de vidro a um dos "círculos do inferno".


7.7.16

o escritor e o estado

Nuits Debout | 2016

Os escritores se encontram, não por "dever do ofício", mas por sua própria condição social, do lado da barricada em que se luta por uma forma política real de Estado democrático e pela revolução democrática permanente.

Florestan Fernandes

3.7.16

de la musique


Dead Kennedys | 1987


Numa sexta-feira passada um colega de trabalho que nunca mais vi me perguntou, ao passar pela sala vazia, depois da última aula, qual era a "minha banda favorita". Olhei para ele, ao erguer a cabeça do livro de chamada, como se eu tivesse cara de fã de algum grupo de rock da industria cultural a ter pôster dentro do quarto e tudo tudinho. Achei atípica essa curiosidade. A pergunta veio de supetão, da porta da sala, mas talvez o bóton que estava na "lapela" da blusa, me denunciasse. E ele quisesse puxar conversa.

Para contrapor outro peso musical do punk, o colega invisível me disse que preferia The Clash. Poxa, eram duas forças em um gênero só. Para caminhar na conversa, continuei:

- Qual escolher, Fernando? Dead Kennedys e The Clash são duas bandas completas. Foram dois grupos importantíssimos para a identidade punk. Rapazes que, por meio da música, criaram uma filosofia de vida, uma potência sonora, um sentido de questionar e expressar suas existências. Se considerarmos letra à consciência de classe as duas juntas deixaram um pensamento consistente, memorialístico e internacional. 

Para dar fôlego à palestra, continuei listando palavras-chaves em uma coluna para tratar o gênero em tipos:

a) Músicos contestatários
b) Cultura punk
c) Vida inteligente no planeta

O colega de profissão ri. Rimos. Levanto da mesa para desenhar no quadro. Traço uma trajetória a partir do marco inicial de 68. Retomo como referências Berurier Noir e Crass. Aproximo de outras realidades possíveis. Contextos. A cena em questão é musical, porém, também intelectual. Bandas que durante o processo artístico e politico formaram gerações. 

Fizeram do cotidiano banal, fortuna crítica. 



2.7.16

apontamentos para a teoria crítica da sociedade


O difundido fenômeno da delinquência política e religiosa é indicativo do estado atual da família deseducada pela televisão.

As famílias, sem bagagem cultural, não cumprem função instrutivas e educativas. Os filhos não são mais educados mas adestrados para a adequação social conforme a demanda e a oferta da sociedade do consumo.

O que nós temos em termos de "família do bem" são relações cegas presas às relações de poder. A figura do pai representa o autoritarismo e a figura da mãe representa a superproteção. O núcleo dessa célula mater pode ser sintetizada: temer e amar.


30.6.16

a antimetamorfose


Eu percebi, a partir de algumas espécimes da sociedade, que o álcool e a indústria cultural transformam o cérebro em caroço. Sabe caroço de abacate? Então. 

Depois da criatura encaroçada, ela perde a noção de tempo e espaço. Não tem mais paciência, é deseducada, suja, não consegue elaborar análises ou desenvolver pensamentos sólidos. Torna-se um turrão. Um sujeito pronto para o sistema do entretenimento.


24.6.16

você não pode ser neutro num trem em movimento: uma historia pessoal dos nossos tempos



Howard Zinn | 1994 | Trad.: Nils Skare

Quando eu me tornei professor não podia simplesmente deixar fora da sala de aula minhas próprias experiências. Eu sempre me pergunto como muitos professores conseguem passar um ano com grupos de estudantes e nunca revelar quem eles são, que tipo de vida eles levaram, de onde suas ideias vêm, no que eles acreditam, ou no que eles querem para sim, para seus estudantes e para o mundo.

O simples fato deste acobertamento existir, não nos ensina algo terrível – que você pode separar o estudo da literatura, história, filosofia, política, artes, de sua própria vida, de suas mais profundas concepções de certo e errado?

Nas minhas aulas nunca escondi minhas visões políticas: meu ódio pela guerra e o militarismo, minha raiva perante a diferença racial, minha crença num socialismo democrático, numa distribuição racional e justa da riqueza do mundo. Sempre deixei claro meu desdém por qualquer tipo de arrogância, seja por parte das nações poderosas em relação às mais fracas, do governo sobre seus cidadãos, de empregadores sobre empregados, ou por parte de qualquer um, da Esquerda ou da Direita, que acha que possui o monopólio da verdade.

Esta mistura de ativismo e ensino, está insistência em que a educação não pode ser neutra sobre as questões cruciais de nosso tempo, este movimento “da sala de aula para as lutas fora dela” realizado por professores que esperam que seus alunos façam o mesmo, sempre assustou os guardiões da educação tradicional. Eles preferem que a educação sirva apenas para preparar a nova geração a tomar seu devido lugar na velha ordem, mas não a questionar essa ordem.

[...]

Nunca acreditei que estivesse impondo minha visão em um quadro em branco, em mentes inocentes. Meus estudantes tiveram um longo período de doutrinação política antes de chegarem a minha classe – na família, na escola, na mídia. Num mercado há tanto tempo dominado pela ortodoxia, eu queria apenas oferecer menus “produtos” em meio aos outros, deixando os estudantes fazerem suas próprias escolhas.

Os milhares de jovens em minhas classes ao longo dos anos me deram esperança para o futuro. Durante os anos 70 e 80, todos pareciam se queixar de quão “ignorante” e “passiva” era a atual geração de estudantes. Mas ao ouvi-los, ao ler os trabalhos e artigos que escreviam, bem como os relatórios de atividades comunitárias exercidas como parte de suas tarefas, fiquei impressionado com a sensibilidade deles frente à injustiça, com a disposição que mostravam em fazer parte de uma boa causa, com o potencial deles para o mundo.
O ativismo estudantil da década de 80 foi pequeno em escala, mas nesta época não havia nenhum grande movimento nacional ao qual se juntar, e havia fortes pressões econômicas de todos os lados para “se dar bem”, “ter sucesso”, e juntar-se ao mundo dos profissionais prósperos. Ainda assim, muitos jovens ansiavam por algo mais, e eu não desesperei. Lembro de como a década de 50 observadores desdenhosos falavam da “geração silenciosa” como um fato inquestionável, e então, explodindo essa noção, vieram os anos 60.

[...]

Eu penso nos pobres de hoje, tantos deles morando nos “guetos não-brancos”, muitas vezes vivendo a apenas quadras de riquezas fabulosas! Eu penso na hipocrisia dos líderes políticos, no controle da informação através do engano, através da omissão. E de como, por todo o mundo, governos têm desempenhado um papel, preponderante no incentivo ao ódio nacional e étnico.

[...]

Nós somos tão esmagados pelo presente, pela corrente de imagens e “histórias”nos afogando todo dia, que não é de se admirar quando perdemos a esperança.

[...]

Eu sempre fico com raiva quando escuto a voz dos arrogantes e afluentes: “Nós temos um sistema maravilhoso; se você trabalhar duro você vai conseguir".

[...]

A educação é mais rica e viva quando ela confronta a realidade dos conflitos morais do mundo.

[...]

Ser crítico do governo é um elemento essencial numa sociedade democrática.

[...]

O maior perigo [...] a obediência civil, a submissão da consciência individual à autoridade do governo. Tal obediência levava aos horrores que nós víamos nos estados totalitários, e em estados liberais levava à aceitação da guerra quando quer que o assim chamado governo democrático decidisse.

[...]

Já estive sentado em dúzias de tribunais, ocasionalmente como réu, mas geralmente como testemunha no julgamento de alguém. Eu aprendi bastante. O tribunal é um caso ilustrativo do fato de que embora nossa sociedade seja liberal e democrática num sentido amplo e vago, suas partes móveis, suas câmaras menores - salas de aulas, lugares de trabalho, comitês corporativos, cadeias, barracas militares - são flagrantemente não-democráticas, dominadas por uma pessoa em comando ou uma pequena elite do poder.

Em tribunais os juízes possuem poder absoluto sobre os procedimentos. Eles decidem que provas serão permitidas, que testemunhas poderão testemunhar, que perguntas poderão ser feitas. Além disso, o juiz é, na maioria das vezes, alguém designado politicamente ou então eleito através de um partido político, e quase sempre é um homem branco relativamente rico, cujo pano de fundo é de privilégio e cujas ideias são moderadamente conservadoras ou moderadamente liberais.


19.6.16

psicogeografia


II

Não custa nada pensar, mas que tipo de cidade você deseja: uma cidade como espaço de intervenção ou uma cidade para a delinquência organizada, i.e., a cidade como espaço de corrupção?


14.6.16

noites em claro


[Je n'invente rien, je redécouvre]

A resistência francesa há mais de três meses é a vida em pleno estado de coragem.

A resistência francesa e o bloco anarquista são a vida em pleno estado de coragem.

A vanguarda.

A resistência francesa e as noites em claro são a vida em pleno estado de coragem.

A resistência francesa e as ocupações são a vida em pleno estado de coragem.

A resistência francesa contra o pseudo governo de esquerda é a vida em pleno estado de coragem.

A resistência francesa:

refinarias paradas
greves
barricadas.

Bandeiras libertárias son alzadas.

Acampamentos.
Coletivos.
Bibliotecas revolucionárias.

Pensadores livres
Contestadores radicais
Tipógrafos da anarquia

A resistência francesa anticapitalista é a vida em pleno estado de coragem.


11.6.16

o vaticano ama adolf hitler


[...]

Os fatos, então: a Igreja católica aprova o rearmamento da Alemanha, contrariando o tratado de Versalhes, certamente, mas também uma parte dos ensinamentos de Jesus, especialmente os que celebram a paz, a doçura, o amor ao próximo; a Igreja católica assina um acordo com Hitler desde a chegada do chanceler ao caso, em 1933; a Igreja católica silencia sobre o boicote aos comerciantes judeus, cala-se quando da proclamação das leis raciais em Nuremberg em 1935, mantém-se em silêncio por ocasião da Noite dos cristais em 1938; a Igreja católica fornece seu fichário de arquivos genealógicos aos nazistas, que sabem assim quem é cristão, portanto não-judeu; a Igreja católica alega em contrapartida o "segredo pastoral" para não comunicar o nome dos judeus convertidos à religião de Cristo ou casados com um ou uma deles; a Igreja católica sustenta, apóia o regimen oustachi pró-nazista de Ante Palevic na Croácia; a Igreja católica dá sua absolvição ao regime colaboracionista de Vichy em 1940; a Igreja católica, embora sabendo da política de extermínio instaurada desde 1942, não a condena, nem privadamente nem publicamente, e nunca ordena a nenhum padre ou bispo que ataque o regime criminoso diante dos fiéis.

[...]

a Igreja católica, por intermédio da pessoa do cardeal Bertram, ordena uma missa de Réquiem em memória de Adolf Hitler.

Michel Onfray


10.6.16

filosofia da linguagem


A burguesia, por meio de suas falas logocêntricas, falocêntricas e "transcendentais", suas fantasias televisivas, não propõe resolver nada. A burguesia - no invólucro de classe média - cuja consciência bancária alimenta a sua psiquê, não consegue solucionar os problemas da ideologia.

O que a burguesia deseja manter são apenas as relações de aparências sob o status quo vigente. Neste contexto não existe problematização, mas acumulação: alienação.

A ideologia dominante é a face sem caráter.


30.5.16

gregos & baianos


da arte de ler anúncios

[...]

Caberia observar aqui, de passagem, que boa parte do primarismo dos recursos de expressão usados pela publicidade, sobretudo a televisiva, deriva de um empenho de infantilizar o adulto para despertar-lhe o sentido lúdico, sempre tão vivo na criança, e torná-lo assim mais facilmente vulnerável à persuasão. Misturar lição com diversão, remédio com doce, é a mais tradicional das fórmulas pedagógicas, pelo que não estranha serem as crianças as mais diretamente afetadas pelos intervalos comerciais de televisão: cantarolam os jingles e sabem de cor as falas dos atores de muitas de suas historietas ilustrativas.

José Paulo Paes
1985


8.5.16

dialética do estado laico


I 

Nada mais longe do anarquismo que o verticalismo burocrático e cérebro fundamentalista no interior de nossa sociedade. A manutenção dessa estrutura caquética, semelhante a um templo de intolerância, mantem propositalmente a disciplina hierárquica da dominação capitalista.


7.5.16

a caminho de uma ateologia


[...] Os devotos de ontem e de anteontem têm todo o interesse em fazer passar o pior e a negatividade contemporânea por um produto do ateísmo. Persiste a velha ideia do ateu imoral, amoral, sem fé nem lei ética. O lugar-comum para o último ano do colegial segundo o qual "se Deus não existe, então tudo é permitido" - refrão extraído de Os irmãos Karamazov de Dostoiévski - continua produzindo efeitos, e de fato a morte, o ódio e a miséria são associados a indivíduos que invocariam a ausência de Deus para cometer seus crimes. Essa tese equivocada merece ser bem e devidamente desmontada. Pois o inverso me parece mais verdadeiro: "Porque Deus existe, então tudo é permitido...". Eu explico. Três milênios testemunham, dos primeiros textos do Velho Testamento até hoje: a afirmação de um Deus único, violento, ciumento, briguento, intolerante, belicoso gerou mais ódio, sangue, mortes, brutalidade do que paz... A fantasia judaica do povo eleito que legitima o colonialismo, a expropriação, o ódio, a animosidade entre os povos, depois a teocracia autoritária e armada; a referência cristã dos mercadores do Templo ou de um Jesus paulino que afirma vir para trazer a espada, que justifica as Cruzadas, a Inquisição, as guerras religiosas, a Noite de São Bartolomeu, as fogueiras, o Índex, mas também o colonialismo planetário, os etnocídios norte-americanos, o apoio aos fascismos do século XX e a onipotência temporal do Vaticano há séculos nos menores detalhes da vida cotidiana; a reivindicação clara em quase todas as páginas do Corão de um apelo a destruir os infiéis, sua religião, sua cultura, sua civilização mas também os judeus e os cristãos - em nome de um Deus misericordioso! São todas pistas para desvendar a ideia de que, justamente, por causa da existência de Deus tudo é permitido - nele, por ele, em seu nome, sem que os fiéis, nem o clero, nem o populacho, nem as altas esferas tenham o que contestar... 

Michel Onfray 
Trad.: Monica Stahel


6.5.16

chopin na cadeira elétrica


Uart Punk | 1981

Anarchia in Italia

Rivoglio la mia libertà / Questa società me l'ha tolta / Questa società che mi uccide ogni giorno / nel posto di lavoro, nei quartieri / nei ghetti, nella famiglia, nella scuola / Rivoglio la mia libertà / Quello che voglio è / Anarchia In Italia / Loro ci odiano, siamo rifiutati / ma noi sappiamo cosa vogliamo / e sappiamo come averlo / Anarchia In Italia / Disobbedire sempre e dovunque / è questo il nostro messaggio: / sabotaggio. / Possiamo Liberarci. / Anarchia In Italia. / Rifiuta ogni ideologia / Rifiuta le etichette / Dimostra che il punk non morirà mai / Anarchia in Italia.


3.5.16

traité d'athéologie



[...]

Constatei quanto os homens fabulam para evitar olhar o real de frente. A criação de além-mundo não seria muito grave se seu preço não fosse tão alto: o esquecimento do real, portanto a condenável negligência do único mundo que existe. Enquanto crença indispõe com a imanência, portanto com o eu, o ateísmo reconcilia com a terra, outro nome da vida.

[...]

Meu ateísmo se ativa quando a crença privada torna-se assunto público e em nome de uma patologia mental pessoal organiza-se também para os outros o mundo que convém. Pois da angústia existencial pessoal à gestão do corpo e da alma dos outros há um mundo no qual se ativam, emboscados, os aproveitadores dessa miséria espiritual e mental. Desviar a pulsão de morte que os aflige para a totalidade do mundo não salva o atormentado e não muda em nada sua miséria, mas contamina o universo. Querendo evitar a negatividade, ele a estende à sua volta, depois gera uma epidemia mental.

[...]

O império patológico da pulsão de morte não se cura com uma difusão caótica e mágica, mas com um trabalho filosófico consigo mesmo. [...] O ateísmo não é uma terapia mas uma saúde mental recuperada.

Michel Onfray | 2007
Trad.: Monica Stahel


2.5.16

por que sou um destino

Subhumans | 1983

A noção de "Deus" foi inventada como antítese da vida - nela se resume, numa unidade aterradora, tudo o que é nocivo, venenoso, caluniador, todo o ódio da vida. A noção de "além", de "mundo verdadeiro" só foi inventada para depreciar o único mundo que há - a fim de não mais conservar para nossa realidade terrestre nenhum objetivo, nenhuma razão, nenhuma tarefa! A noção de "alma", de "espírito" e, no fim das contas, mesmo de "alma imortal", foi inventada para desprezar o corpo, para torná-lo doente - "sagrado" -, para conferir todas as coisas que merecem seriedade na vida - as questões de alimentação, de moradia, de regime intelectual, os cuidados aos doentes, a limpeza, o clima - a mais aterradora indiferença! Em vez de saúde, "a salvação da alma" - isto é, uma loucura circular que vai das convulsões da penitência à histeria da redenção! A noção de "pecado" foi inventada ao mesmo tempo que o instrumento da tortura que a completa; a noção de "livre-arbítrio", para confundir os instintos, para fazer da desconfiança com relação aos instintos uma segunda natureza.

Nietzsche


30.4.16

homovidens


I

Os sitcoms Friends, Seinfeld, That ‘70s Show e The Fresh Prince of Bel-Air, para ficarmos apenas nesses quatro exemplos, são tão cheios de clichês, são tão insossos que necessitam de risadas mecânicas para funcionar. Fora disso, nós temos o telespectador nada emancipado.


28.4.16

un llamado al Ateísmo Militante



O bule celeste

Bertrand Russell


Muitos ortodoxos falam como se fosse obrigação dos céticos contraprovar dogmas consagrados, e não dos dogmáticos comprová-los. Isso, é claro, um equívoco. Se eu sugerisse que entre a Terra e Marte há um bule de chá chinês rodando em torno do Sol numa órbita elíptica, ninguém seria capaz de contraprovar minha afirmação, desde que eu tenha tido o cuidado de acrescentar que o bule é pequeno demais para ser revelado até pelos nossos telescópios mais potentes. Mas, se eu prosseguisse dizendo que, como minha afirmação não pode ser contraprovada, é uma presunção intolerável por parte da razão humana duvidar dela, imediatamente achariam que eu estava falando maluquices. Se, porém, a existência do bule tivesse sido declarada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todos os domingos e instilada na cabeça das crianças na escola, a hesitação em acreditar em sua existência se tornaria um traço de excentricidade e garantiria ao questionador o atendimento por psiquiatras numa era esclarecida ou por um inquisidor em eras anteriores. 


27.4.16

Consumismo versus igualitarismo


O consumo, imposto atualmente à população, é ditado pelo sistema de produção. Controlando os meios de comunicação de massa, esse sistema pode impor uma forma predeterminada de comportamento aos consumidores potenciais - isto é, pode distorcer seu perfil de demanda. Não se pode, portanto, falar de livre escolha.

As firmas que controlam a produção controlam também o consumo, que é uma função de renda e do crédito. Dessa maneira, subir na escala de consumo torna-se, paradoxalmente, um dos objetivos da "expectativa de ascensão", esse novo tipo de ethos imposto ao cidadão comum por aqueles que acumulam cada vez mais, "supranacionalmente", os benefícios do trabalho de todos.

Defender o "consumismo" pode ser uma hábil manobra política ou uma forma de oportunismo sofisticado, com o qual provavelmente se pode conquistar o povo e ganhar o poder, sem contudo mudar fundamentalmente a estrutura do poder - isto é, sem colocar o povo no poder. Como Paulo Freire (1968, p. 61) salientou de forma tão sagaz o problema da pobreza não é uma questão de integrar a população pobre em uma estrutura opressiva, a fim de que possa tornar-se mais parecido com o opressor, mas, sim, de transformar essa estrutura, de maneira que cada indivíduo seja o que é.

Milton Santos | 1978


26.4.16

chopin na cadeira elétrica


Fugazi | 1991


Outro elemento muito bacana do punk: não há frescura de rock star.


25.4.16

chopin na cadeira elétrica


Dead Kennedys | 1984


O bacana do punk rock é isto, rapaz: a liberdade de subir ao palco, fazer a dancinha e mergulhar na piscina humana.


15.4.16

ditadura do automóvel em um planeta poluído

[Singer]

Jean Paul Sartre, em uma de suas peças de teatro, termina enunciando que o inferno são os outros. Porém, os outros agora têm carro. Eles estão com as máquinas assassinas, barulhentas, poluidoras e destruidoras dos espaços urbanos.


14.4.16

minduim


O mundo dos Peanuts é um microcosmo, uma pequena comédia humana para todos os bolsos.

No meio, está Minduim: ingênuo, cabeçudo, sempre inábil e, portanto, votado ao insucesso. Necessitado até à neurose de comunicação e "popularidade", e recebendo em troca, das meninas matriarcais e sabichonas que o rodeiam, o desprezo, as alusões à sua cara de lua-cheia, as acusações de burrice, as pequenas maldades que ferem profundamente. Minduim, impávido, procura ternura e afirmação em toda parte: no baseball, na construção de "papagaios", nas relações com seu cão Xereta, nos contatos de jogo com as meninas. Fracassa sempre. Sua solidão torna-se abissal, seu complexo de inferioridade, esmagador (colorido pela suspeita contínua que também atinge o leitor, de que Minduim não tenha nenhum complexo de inferioridade, mas seja realmente inferior. Pior: é absolutamente normal. É como todos. Por isso, caminha sempre à beira do suicídio ou, na melhor das hipóteses, do colapso: porque busca a salvação segundo fórmulas comodamente propostas pela sociedade em que vive (a arte de fazer amigos, como tornar-se um solicitador animador de reuniões sociais, como conseguir cultura em quatro aulas, a busca da felicidade, como agradar às meninas... obviamente, o Doutor Kinsey, Dale Carnegie e Lin Yutang o arruinaram). Mas como o faz com absoluta pureza de coração, e nenhuma velhacaria, a sociedade está pronta a rejeitá-lo na figura de Lucy, matriarcal, pérfida, segura de si, empresária de lucro certo, pronta a comerciar uma prosopopéia falsa de fio a pavio, mas de indubitável efeito (são as duas aulas de ciências naturais ao irmãozinho Linus, uma mixórdia de idiotices que dão náuseas a Minduim - "I can't stand it", não posso aguentar isso, geme o desgraçado, mas com que armas se pode deter a má-fé impecável, quando se tem a desventura de ser puro de coração?...)

Umberto Eco
Trad.: Pérola de Carvalho


10.4.16

shabat


[...]

A Segunda Guerra Mundial dizimou nossa comunidade judaica em Criclkewood, e a comunidade da Inglaterra como um todo perderia milhares de pessoas nos anos pós-guerra. Muitos judeus, inclusive primos meus, emigraram para Israel; outros foram para Austrália, Canadá ou Estados Unidos; meu irmão mais velho, Marcus, foi para a Austrália em 1950. Muitos dos que permaneceram assimilaram-se e adotaram formas de judaísmo diluídas, atenuadas. Nossa sinagoga, que lotava quando eu era criança, foi se esvaziando anos após ano.

Recitei minha parte do bar mitsvá em 1946 para uma sinagoga relativamente cheia onde estavam várias dezenas dos meus parentes, mas para mim este foi o fim da prática judaica formal. Não passei a seguir as obrigações rituais de um judeu adulto - orar todos os dias, pôr os tefilin antes da oração matinal - e gradualmente me tornei mais indiferente às crenças e aos hábitos dos meus pais, embora não houvesse nenhum momento de ruptura até meus dezoito anos. Foi quando meu pai, ao indagar sobre meus sentimentos sexuais, me impeliu a admitir que eu gostava de rapazes.

"É só uma sensação, nunca 'fiz' nada", eu disse, e acrescentei: "não conte para mamãe: ela não aceitaria".

Ele contou, e na manhã seguinte ela desceu com uma expressão horrorizada e gritou para mim: "Você é uma abominação. Quisera que você nunca tivesse nascido". (Sem dúvida ela estava pensando no versículo do Levítico que diz: "O homem que se deita com outro homem como se fosse uma mulher, ambos cometeram uma abominação, deverão morrer, e o seu sangue cairá sobre eles".

Nunca mais se falou no assunto, mas suas palavras duras me fizeram odiar a capacidade da religião para a intolerância e a crueldade.

Oliver Sacks
Trad.: Laura T. Motta
2015