23.8.16

tabus acerca do magistério


O pathos da escola hoje, a sua seriedade moral, está em que, no âmbito do existente, somente ela pode apontar para a desbarbarização da humanidade, na medida em que se conscientiza disto. Com barbárie não me refiro aos Beatles, embora o culto aos mesmos faça parte dela, mas sim ao extremismo: o preconceito delirante, a opressão, o genocídio e a tortura; não deve haver dúvidas quanto a isto. Na situação mundial vigente, em que ao menos por hora não se vislumbram outras possibilidades mais abrangentes, é preciso contrapor-se à barbárie principalmente na escola.


Theodor W. Adorno | 1965
Trad.: Wolfgang L. Maar


16.8.16

para o livro de Literatura de segundo grau



Não leias odes, meu filho, lê os horários
(dos trens, dos ônibus, dos aviões):
são mais exatos. Abre os mapas náuticos
antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.
Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem
não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Entende da pequena traição,
da salvação suja de todos os dias. Úteis
são as encíclicas para se fazer fogo,
e os manifestos: para a manteiga e sal
dos indefesos. É preciso raiva e paciência
para se soprar nos pulmões do poder
o fino pó mortal, moído
por aqueles, que aprenderam muito,
que são exatos, por ti.

HANS MAGNUS ENZENSBERGER 
Trad.: Kurt Scharf e Armindo Trevisan



13.8.16

dialética da escola-prisão


Eles: robôs

Numa manhã fria de lascar minha aula fora interrompida pela pedagoga que apareceu para fiscalizar os eventuais alunos que não estavam uniformizados. Ela começou a recolher aqueles que vestiam blusas cinzas, vermelhas e verdes ameaçando-lhes que voltariam para casa para uma lição. 

No alto de tamanha arbitrariedade a questionei se não estaria muito frio. Estava um puta frio. Ela me respondeu que apenas recebia ordens. 

A falta de bom senso fabrica essas relações medíocres de poder.



10.8.16

1968: a Comuna estudantil e o assalto ao céu


O maio de 1968 foi, ao mesmo tempo que épico, lírico e garantiu os direitos da subjetividade. Contra o mundo sem sonho, sem poesia - de prosa - o maio se fez.

1968 é o ano matriarcal presente em todos os movimentos que recusam a submissão ao status quo.

Em 68, a palavra liberada expressou todas as esferas da vida - profissional, pessoal e coletiva, ecológica, e sobretudo amorosa: "on ne tombe pas amoureux d'un taux de croissance" (ninguém se apaixona por uma taxa de crescimento), dizia um grafite da Sorbonne.

A experiência democrática de 68 foi o espaço privilegiado de questionamento de todas as figuras do totalitarismo, do exercício de um poder que se funda sobre o terror permanente e a ideologia; esta dominação não se exercendo apenas do exterior mas também do interior da subjetividade forjada para a servidão, contraria à livre faculdade de julgar. Recorde-se que Hannah Arendt, em seu estudo Eichmann em Jerusalém, enfatiza nele não o demônio patológico nazista, mas o homem na sua absoluta incapacidade de pensar por conta própria.

O maio de 68 apontou e destacou, nos bastidores da fachada do conforto e racionalidade, os mitos da vida moderna e sua "multidão" solitária, na qual os indivíduos não pareciam felizes mas vivendo no exterior de si mesmos, sob o domínio das coisas.

O maio de 68, ao questionar a Reforma universitária, o empresariamento da educação, revelava o término de uma sociedade, antes pautada pelas Humanidades, no conhecimento - , e pela qualidade dos serviços públicos, na sociedade. À ideia de educação-formadora do caráter e do cidadão - que cultivava a literatura, a filosofia e as artes, volta-se, agora, clara e integralmente, para a "otimização" do tempo, isto é, a superexploração do trabalho, a ciência e a técnica tornam-se forças produtivas com seu discurso intimidador de autojustificação ideológica.

Olgária Matos



9.8.16

transmission


Fragmento da palestra do pensador frankfurtiano no Instituto de Pesquisas Educacionais de Berlim em 21 de maio de 1965 e transmitido pela rádio de Hessen em 9 de agosto de 1965:

[...]

Seria preciso atentar especialmente até que ponto o conceito de "necessidade da escola" oprime a liberdade intelectual e a formação do espírito. Isto revela na hostilidade em relação aos espírito desenvolvido por parte de muitas administrações escolares, que sistematicamente impedem o trabalho científico dos professores, permanentemente mantendo-os down to earth, desconfiados em relação àqueles que, como afirmam, pretendem ir mais além ou a outra parte. Uma tal hostilidade, dirigida aos próprios professores, facilmente prossegue na relação da escola com alunos.

Theodor W. Adorno
Trad.: Wolfgang L. Maar


6.8.16

problemática sociológica sob a lente de Bauman:


A ética é possível num mundo de consumidores?
Capitalismo parasitário: danos colaterais.
A sociedade individualizada.
Vida: a crédito, em fragmentos, líquida, para o consumo, desperdiçada.
A riqueza de poucos beneficia todos nós?
Cegueira moral sobre educação e juventude.

5.8.16

dialética da escola-prisão


nove

Somente será possível alguma mudança no complexo educacional (na educação formal) quando o último resquício de punição tiver desaparecido das práticas escolares.

Quem se atreve a desmascarar as condutas autoritárias que prejudicam o objetivo educacional?


22.7.16

ciberativismo


A importância do midiativismo e dos cyberpunks numa rede capitalista como o facebook é de fundamental necessidade.

Para quem acha que a internet não tem fronteiras, muito se engana.

Quem pesquisa e faz o trabalho de filtragem percebe como o google e outras redes promovem pré-censuras. Um exemplo cabal são os artigos que analisam o massacre da Praça da Paz Celestial. As informações disponíveis correspondem apenas as interpretações governamentais.

Isso não nos lembra a manipulação de informações destacada no romance 1984?


19.7.16

o mundo está dividido em:


informados
seminformados
desinformados
e os ignorantes.

No entanto, no Brasil é muito pior.


14.7.16

a trilogia dos dólares


MDC | John Wayne Was a Nazi 

A trilogia dos dólares, de Sergio Leone: "Por um punhado de dólares"; "Por uns dólares a mais" e "Três homens em conflito ou O bom, o mau e o feio" 

O neoliberalismo é o "modelo" econômico mais perverso que o capitalismo já ofereceu à humanidade. Tal qual o mito da caverna de Platão, o capital no século XXI nos arremessa para um mundo de aparente prosperidade, sustentado por um consumo sombrio e pela obscuridade da exploração. Os instrumentos que projetam as sombras na caverna são os arautos da nova economia: jornalistas, economistas, sociólogos, filósofos, cientistas políticos e políticos profissionais. Gente interesseira e interessada. Gente que ganha a vida em manter dominados e explorados obedientes e aprisionados na escuridão da caverna, sem perceber que eles próprios não são a luz em si, mas apenas instrumentos de projeções sombrias. Seres tão dominados quanto aqueles que vivem no interior mais profundo da caverna. Apenas um pouco menos explorados. Até que chega o dia em que a casa cai. E são sumariamente descartados. Para os que tentam sair da caverna, uma esperança de luz. Uma ponta de sol. Mas tão logo regressam para reencontrar seus antigos companheiros de caverna, e tentam convencê-los de que há uma luz alternativa a esse mundo de trevas do capital financeiro e da ideologia neoliberal, no qual são prisioneiros, passam a ser tratados como arruaceiros e são imediatamente excluídos, julgados e condenados. Pelo mercado e pela sociedade. Por dominantes e dominados. Condenados à obsolescência. Condenados à irrelevância. Condenados à inviabilidade. Descobrem, na própria pele, que na sociedade de hoje tudo é escuridão. Frieza. Cálculo. Cinismo. Na caverna não há prisioneiros ou libertos. Apenas cavernas escuras. As cavernas somos nós. Deixamos escapar toda a luz do mundo e nos deixamos aprisionar por tão pouco. Por um punhado de dólares. Vivemos em conflito. Ridicularizamos o bom. Admiramos o mau. E nos tornamos os feios. Por uns dólares a mais. 

Ulisses F.


10.7.16

analfabeto secundário

Mafalda | Quino 


Termos relacionados: indústria cultural, lazer, distinção cultural, público. 

Indivíduo alfabetizado com um grau de informação que pode variar do mais baixo ao mais especializado, capaz de decodificar informação visual e de servir-se de terminais eletrônicos, familiarizado, em suma, com as condições de existência num grande centro urbano contemporâneo, mas desprovido de uma visão cultural mais ampla de sua própria vida e do contexto social. É o produto de uma economia que não tem mais problemas de produção e sim de vendas, que não mais necessita de reservas de mão-de-obra pouco ou nada qualificadas e analfabetas, mas de consumidores qualificados a movimentar-se pela parafernália contemporânea. Caracteriza-se o analfabeto secundário por ter sua atenção desviada por trivialidades (os pseudos-eventos criados pela televisão, como as novelas, competições esportivas, etc.), orientar-se por uma sucessão de entretenimentos vazios e receber informações políticas sob a forma de comunicação espetacularizada. Próprio dos períodos em que o povo se transforma em público, o analfabeto secundário é contemporâneo de uma época cuja cultura perdeu quase todo o traço distintivo e deixou de ser prioridade pública. O analfabeto secundário não se encontra apenas nas camadas mais desfavorecidas da população: longe disso, integra também, em proporção amplamente majoritária, os quadros da elite econômica e política. Sua mídia ideal é a televisão. 

Teixeira Coelho



8.7.16

história da indústria e do trabalho no brasil

[...]

Na grande indústria têxtil, violências sexuais contra meninas e mulheres por parte de mestres e contramestres eram denunciadas rotineiramente na imprensa operária. As prepotências e agressões físicas dos chefes e mestres contra menores eram a norma também no caso da indústria de vidros, de pequeno e médio porte. Um retrato em detalhe das miseráveis condições de trabalho no setor de vidreiros foi feito por um antigo operário do ramo, o memorialista Jacob Penteado. Além da violência física contra os menores, eram comuns as punições, o alcoolismo e doenças como tuberculose e sífilis. Inexistia qualquer higiene nos locais de trabalho. As águas eram insalubres e a temperatura da fornalha chegava a um grau insuportável, dentro de um barracão de zinco sem janelas e nem ventilação. O ar era totalmente poluído pela poeira de vidro, além dos cacos espalhados pelo chão. O autor comparou o interior de uma fábrica de vidro a um dos "círculos do inferno".


7.7.16

o escritor e o estado

Nuits Debout | 2016

Os escritores se encontram, não por "dever do ofício", mas por sua própria condição social, do lado da barricada em que se luta por uma forma política real de Estado democrático e pela revolução democrática permanente.

Florestan Fernandes

3.7.16

de la musique


Dead Kennedys | 1987


Numa sexta-feira passada um colega de trabalho que nunca mais vi me perguntou, ao passar pela sala vazia, depois da última aula, qual era a "minha banda favorita". Olhei para ele, ao erguer a cabeça do livro de chamada, como se eu tivesse cara de fã de algum grupo de rock da industria cultural a ter pôster dentro do quarto e tudo tudinho. Achei atípica essa curiosidade. A pergunta veio de supetão, da porta da sala, mas talvez o bóton que estava na "lapela" da blusa, me denunciasse. E ele quisesse puxar conversa.

Para contrapor outro peso musical do punk, o colega invisível me disse que preferia The Clash. Poxa, eram duas forças em um gênero só. Para caminhar na conversa, continuei:

- Qual escolher, Fernando? Dead Kennedys e The Clash são duas bandas completas. Foram dois grupos importantíssimos para a identidade punk. Rapazes que, por meio da música, criaram uma filosofia de vida, uma potência sonora, um sentido de questionar e expressar suas existências. Se considerarmos letra à consciência de classe as duas juntas deixaram um pensamento consistente, memorialístico e internacional. 

Para dar fôlego à palestra, continuei listando palavras-chaves em uma coluna para tratar o gênero em tipos:

a) Músicos contestatários
b) Cultura punk
c) Vida inteligente no planeta

O colega de profissão ri. Rimos. Levanto da mesa para desenhar no quadro. Traço uma trajetória a partir do marco inicial de 68. Retomo como referências Berurier Noir e Crass. Aproximo de outras realidades possíveis. Contextos. A cena em questão é musical, porém, também intelectual. Bandas que durante o processo artístico e politico formaram gerações. 

Fizeram do cotidiano banal, fortuna crítica. 



2.7.16

apontamentos para a teoria crítica da sociedade


O difundido fenômeno da delinquência política e religiosa é indicativo do estado atual da família deseducada pela televisão.

As famílias, sem bagagem cultural, não cumprem função instrutivas e educativas. Os filhos não são mais educados mas adestrados para a adequação social conforme a demanda e a oferta da sociedade do consumo.

O que nós temos em termos de "família do bem" são relações cegas presas às relações de poder. A figura do pai representa o autoritarismo e a figura da mãe representa a superproteção. O núcleo dessa célula mater pode ser sintetizada: temer e amar.


30.6.16

a antimetamorfose


Eu percebi, a partir de algumas espécimes da sociedade, que o álcool e a indústria cultural transformam o cérebro em caroço. Sabe caroço de abacate? Então. 

Depois da criatura encaroçada, ela perde a noção de tempo e espaço. Não tem mais paciência, é deseducada, suja, não consegue elaborar análises ou desenvolver pensamentos sólidos. Torna-se um turrão. Um sujeito pronto para o sistema do entretenimento.


24.6.16

você não pode ser neutro num trem em movimento: uma historia pessoal dos nossos tempos



Howard Zinn | 1994 | Trad.: Nils Skare

Quando eu me tornei professor não podia simplesmente deixar fora da sala de aula minhas próprias experiências. Eu sempre me pergunto como muitos professores conseguem passar um ano com grupos de estudantes e nunca revelar quem eles são, que tipo de vida eles levaram, de onde suas ideias vêm, no que eles acreditam, ou no que eles querem para sim, para seus estudantes e para o mundo.

O simples fato deste acobertamento existir, não nos ensina algo terrível – que você pode separar o estudo da literatura, história, filosofia, política, artes, de sua própria vida, de suas mais profundas concepções de certo e errado?

Nas minhas aulas nunca escondi minhas visões políticas: meu ódio pela guerra e o militarismo, minha raiva perante a diferença racial, minha crença num socialismo democrático, numa distribuição racional e justa da riqueza do mundo. Sempre deixei claro meu desdém por qualquer tipo de arrogância, seja por parte das nações poderosas em relação às mais fracas, do governo sobre seus cidadãos, de empregadores sobre empregados, ou por parte de qualquer um, da Esquerda ou da Direita, que acha que possui o monopólio da verdade.

Esta mistura de ativismo e ensino, está insistência em que a educação não pode ser neutra sobre as questões cruciais de nosso tempo, este movimento “da sala de aula para as lutas fora dela” realizado por professores que esperam que seus alunos façam o mesmo, sempre assustou os guardiões da educação tradicional. Eles preferem que a educação sirva apenas para preparar a nova geração a tomar seu devido lugar na velha ordem, mas não a questionar essa ordem.

[...]

Nunca acreditei que estivesse impondo minha visão em um quadro em branco, em mentes inocentes. Meus estudantes tiveram um longo período de doutrinação política antes de chegarem a minha classe – na família, na escola, na mídia. Num mercado há tanto tempo dominado pela ortodoxia, eu queria apenas oferecer menus “produtos” em meio aos outros, deixando os estudantes fazerem suas próprias escolhas.

Os milhares de jovens em minhas classes ao longo dos anos me deram esperança para o futuro. Durante os anos 70 e 80, todos pareciam se queixar de quão “ignorante” e “passiva” era a atual geração de estudantes. Mas ao ouvi-los, ao ler os trabalhos e artigos que escreviam, bem como os relatórios de atividades comunitárias exercidas como parte de suas tarefas, fiquei impressionado com a sensibilidade deles frente à injustiça, com a disposição que mostravam em fazer parte de uma boa causa, com o potencial deles para o mundo.
O ativismo estudantil da década de 80 foi pequeno em escala, mas nesta época não havia nenhum grande movimento nacional ao qual se juntar, e havia fortes pressões econômicas de todos os lados para “se dar bem”, “ter sucesso”, e juntar-se ao mundo dos profissionais prósperos. Ainda assim, muitos jovens ansiavam por algo mais, e eu não desesperei. Lembro de como a década de 50 observadores desdenhosos falavam da “geração silenciosa” como um fato inquestionável, e então, explodindo essa noção, vieram os anos 60.

[...]

Eu penso nos pobres de hoje, tantos deles morando nos “guetos não-brancos”, muitas vezes vivendo a apenas quadras de riquezas fabulosas! Eu penso na hipocrisia dos líderes políticos, no controle da informação através do engano, através da omissão. E de como, por todo o mundo, governos têm desempenhado um papel, preponderante no incentivo ao ódio nacional e étnico.

[...]

Nós somos tão esmagados pelo presente, pela corrente de imagens e “histórias”nos afogando todo dia, que não é de se admirar quando perdemos a esperança.

[...]

Eu sempre fico com raiva quando escuto a voz dos arrogantes e afluentes: “Nós temos um sistema maravilhoso; se você trabalhar duro você vai conseguir".

[...]

A educação é mais rica e viva quando ela confronta a realidade dos conflitos morais do mundo.

[...]

Ser crítico do governo é um elemento essencial numa sociedade democrática.

[...]

O maior perigo [...] a obediência civil, a submissão da consciência individual à autoridade do governo. Tal obediência levava aos horrores que nós víamos nos estados totalitários, e em estados liberais levava à aceitação da guerra quando quer que o assim chamado governo democrático decidisse.

[...]

Já estive sentado em dúzias de tribunais, ocasionalmente como réu, mas geralmente como testemunha no julgamento de alguém. Eu aprendi bastante. O tribunal é um caso ilustrativo do fato de que embora nossa sociedade seja liberal e democrática num sentido amplo e vago, suas partes móveis, suas câmaras menores - salas de aulas, lugares de trabalho, comitês corporativos, cadeias, barracas militares - são flagrantemente não-democráticas, dominadas por uma pessoa em comando ou uma pequena elite do poder.

Em tribunais os juízes possuem poder absoluto sobre os procedimentos. Eles decidem que provas serão permitidas, que testemunhas poderão testemunhar, que perguntas poderão ser feitas. Além disso, o juiz é, na maioria das vezes, alguém designado politicamente ou então eleito através de um partido político, e quase sempre é um homem branco relativamente rico, cujo pano de fundo é de privilégio e cujas ideias são moderadamente conservadoras ou moderadamente liberais.


19.6.16

psicogeografia


II

Não custa nada pensar, mas que tipo de cidade você deseja: uma cidade como espaço de intervenção ou uma cidade para a delinquência organizada, i.e., a cidade como espaço de corrupção?


14.6.16

noites em claro


[Je n'invente rien, je redécouvre]

A resistência francesa há mais de três meses é a vida em pleno estado de coragem.

A resistência francesa e o bloco anarquista são a vida em pleno estado de coragem.

A vanguarda.

A resistência francesa e as noites em claro são a vida em pleno estado de coragem.

A resistência francesa e as ocupações são a vida em pleno estado de coragem.

A resistência francesa contra o pseudo governo de esquerda é a vida em pleno estado de coragem.

A resistência francesa:

refinarias paradas
greves
barricadas.

Bandeiras libertárias son alzadas.

Acampamentos.
Coletivos.
Bibliotecas revolucionárias.

Pensadores livres
Contestadores radicais
Tipógrafos da anarquia

A resistência francesa anticapitalista é a vida em pleno estado de coragem.


11.6.16

o vaticano ama adolf hitler


[...]

Os fatos, então: a Igreja católica aprova o rearmamento da Alemanha, contrariando o tratado de Versalhes, certamente, mas também uma parte dos ensinamentos de Jesus, especialmente os que celebram a paz, a doçura, o amor ao próximo; a Igreja católica assina um acordo com Hitler desde a chegada do chanceler ao caso, em 1933; a Igreja católica silencia sobre o boicote aos comerciantes judeus, cala-se quando da proclamação das leis raciais em Nuremberg em 1935, mantém-se em silêncio por ocasião da Noite dos cristais em 1938; a Igreja católica fornece seu fichário de arquivos genealógicos aos nazistas, que sabem assim quem é cristão, portanto não-judeu; a Igreja católica alega em contrapartida o "segredo pastoral" para não comunicar o nome dos judeus convertidos à religião de Cristo ou casados com um ou uma deles; a Igreja católica sustenta, apóia o regimen oustachi pró-nazista de Ante Palevic na Croácia; a Igreja católica dá sua absolvição ao regime colaboracionista de Vichy em 1940; a Igreja católica, embora sabendo da política de extermínio instaurada desde 1942, não a condena, nem privadamente nem publicamente, e nunca ordena a nenhum padre ou bispo que ataque o regime criminoso diante dos fiéis.

[...]

a Igreja católica, por intermédio da pessoa do cardeal Bertram, ordena uma missa de Réquiem em memória de Adolf Hitler.

Michel Onfray


10.6.16

filosofia da linguagem


A burguesia, por meio de suas falas logocêntricas, falocêntricas e "transcendentais", suas fantasias televisivas, não propõe resolver nada. A burguesia - no invólucro de classe média - cuja consciência bancária alimenta a sua psiquê, não consegue solucionar os problemas da ideologia.

O que a burguesia deseja manter são apenas as relações de aparências sob o status quo vigente. Neste contexto não existe problematização, mas acumulação: alienação.

A ideologia dominante é a face sem caráter.


30.5.16

gregos & baianos


da arte de ler anúncios

[...]

Caberia observar aqui, de passagem, que boa parte do primarismo dos recursos de expressão usados pela publicidade, sobretudo a televisiva, deriva de um empenho de infantilizar o adulto para despertar-lhe o sentido lúdico, sempre tão vivo na criança, e torná-lo assim mais facilmente vulnerável à persuasão. Misturar lição com diversão, remédio com doce, é a mais tradicional das fórmulas pedagógicas, pelo que não estranha serem as crianças as mais diretamente afetadas pelos intervalos comerciais de televisão: cantarolam os jingles e sabem de cor as falas dos atores de muitas de suas historietas ilustrativas.

José Paulo Paes
1985


8.5.16

dialética do estado laico


I 

Nada mais longe do anarquismo que o verticalismo burocrático e cérebro fundamentalista no interior de nossa sociedade. A manutenção dessa estrutura caquética, semelhante a um templo de intolerância, mantem propositalmente a disciplina hierárquica da dominação capitalista.


7.5.16

a caminho de uma ateologia


[...] Os devotos de ontem e de anteontem têm todo o interesse em fazer passar o pior e a negatividade contemporânea por um produto do ateísmo. Persiste a velha ideia do ateu imoral, amoral, sem fé nem lei ética. O lugar-comum para o último ano do colegial segundo o qual "se Deus não existe, então tudo é permitido" - refrão extraído de Os irmãos Karamazov de Dostoiévski - continua produzindo efeitos, e de fato a morte, o ódio e a miséria são associados a indivíduos que invocariam a ausência de Deus para cometer seus crimes. Essa tese equivocada merece ser bem e devidamente desmontada. Pois o inverso me parece mais verdadeiro: "Porque Deus existe, então tudo é permitido...". Eu explico. Três milênios testemunham, dos primeiros textos do Velho Testamento até hoje: a afirmação de um Deus único, violento, ciumento, briguento, intolerante, belicoso gerou mais ódio, sangue, mortes, brutalidade do que paz... A fantasia judaica do povo eleito que legitima o colonialismo, a expropriação, o ódio, a animosidade entre os povos, depois a teocracia autoritária e armada; a referência cristã dos mercadores do Templo ou de um Jesus paulino que afirma vir para trazer a espada, que justifica as Cruzadas, a Inquisição, as guerras religiosas, a Noite de São Bartolomeu, as fogueiras, o Índex, mas também o colonialismo planetário, os etnocídios norte-americanos, o apoio aos fascismos do século XX e a onipotência temporal do Vaticano há séculos nos menores detalhes da vida cotidiana; a reivindicação clara em quase todas as páginas do Corão de um apelo a destruir os infiéis, sua religião, sua cultura, sua civilização mas também os judeus e os cristãos - em nome de um Deus misericordioso! São todas pistas para desvendar a ideia de que, justamente, por causa da existência de Deus tudo é permitido - nele, por ele, em seu nome, sem que os fiéis, nem o clero, nem o populacho, nem as altas esferas tenham o que contestar... 

Michel Onfray 
Trad.: Monica Stahel


6.5.16

chopin na cadeira elétrica


Uart Punk | 1981

Anarchia in Italia

Rivoglio la mia libertà / Questa società me l'ha tolta / Questa società che mi uccide ogni giorno / nel posto di lavoro, nei quartieri / nei ghetti, nella famiglia, nella scuola / Rivoglio la mia libertà / Quello che voglio è / Anarchia In Italia / Loro ci odiano, siamo rifiutati / ma noi sappiamo cosa vogliamo / e sappiamo come averlo / Anarchia In Italia / Disobbedire sempre e dovunque / è questo il nostro messaggio: / sabotaggio. / Possiamo Liberarci. / Anarchia In Italia. / Rifiuta ogni ideologia / Rifiuta le etichette / Dimostra che il punk non morirà mai / Anarchia in Italia.


3.5.16

traité d'athéologie



[...]

Constatei quanto os homens fabulam para evitar olhar o real de frente. A criação de além-mundo não seria muito grave se seu preço não fosse tão alto: o esquecimento do real, portanto a condenável negligência do único mundo que existe. Enquanto crença indispõe com a imanência, portanto com o eu, o ateísmo reconcilia com a terra, outro nome da vida.

[...]

Meu ateísmo se ativa quando a crença privada torna-se assunto público e em nome de uma patologia mental pessoal organiza-se também para os outros o mundo que convém. Pois da angústia existencial pessoal à gestão do corpo e da alma dos outros há um mundo no qual se ativam, emboscados, os aproveitadores dessa miséria espiritual e mental. Desviar a pulsão de morte que os aflige para a totalidade do mundo não salva o atormentado e não muda em nada sua miséria, mas contamina o universo. Querendo evitar a negatividade, ele a estende à sua volta, depois gera uma epidemia mental.

[...]

O império patológico da pulsão de morte não se cura com uma difusão caótica e mágica, mas com um trabalho filosófico consigo mesmo. [...] O ateísmo não é uma terapia mas uma saúde mental recuperada.

Michel Onfray | 2007
Trad.: Monica Stahel


2.5.16

por que sou um destino

Subhumans | 1983

A noção de "Deus" foi inventada como antítese da vida - nela se resume, numa unidade aterradora, tudo o que é nocivo, venenoso, caluniador, todo o ódio da vida. A noção de "além", de "mundo verdadeiro" só foi inventada para depreciar o único mundo que há - a fim de não mais conservar para nossa realidade terrestre nenhum objetivo, nenhuma razão, nenhuma tarefa! A noção de "alma", de "espírito" e, no fim das contas, mesmo de "alma imortal", foi inventada para desprezar o corpo, para torná-lo doente - "sagrado" -, para conferir todas as coisas que merecem seriedade na vida - as questões de alimentação, de moradia, de regime intelectual, os cuidados aos doentes, a limpeza, o clima - a mais aterradora indiferença! Em vez de saúde, "a salvação da alma" - isto é, uma loucura circular que vai das convulsões da penitência à histeria da redenção! A noção de "pecado" foi inventada ao mesmo tempo que o instrumento da tortura que a completa; a noção de "livre-arbítrio", para confundir os instintos, para fazer da desconfiança com relação aos instintos uma segunda natureza.

Nietzsche


30.4.16

homovidens


I

Os sitcoms Friends, Seinfeld, That ‘70s Show e The Fresh Prince of Bel-Air, para ficarmos apenas nesses quatro exemplos, são tão cheios de clichês, são tão insossos que necessitam de risadas mecânicas para funcionar. Fora disso, nós temos o telespectador nada emancipado.


28.4.16

un llamado al Ateísmo Militante



O bule celeste

Bertrand Russell


Muitos ortodoxos falam como se fosse obrigação dos céticos contraprovar dogmas consagrados, e não dos dogmáticos comprová-los. Isso, é claro, um equívoco. Se eu sugerisse que entre a Terra e Marte há um bule de chá chinês rodando em torno do Sol numa órbita elíptica, ninguém seria capaz de contraprovar minha afirmação, desde que eu tenha tido o cuidado de acrescentar que o bule é pequeno demais para ser revelado até pelos nossos telescópios mais potentes. Mas, se eu prosseguisse dizendo que, como minha afirmação não pode ser contraprovada, é uma presunção intolerável por parte da razão humana duvidar dela, imediatamente achariam que eu estava falando maluquices. Se, porém, a existência do bule tivesse sido declarada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todos os domingos e instilada na cabeça das crianças na escola, a hesitação em acreditar em sua existência se tornaria um traço de excentricidade e garantiria ao questionador o atendimento por psiquiatras numa era esclarecida ou por um inquisidor em eras anteriores. 


27.4.16

Consumismo versus igualitarismo


O consumo, imposto atualmente à população, é ditado pelo sistema de produção. Controlando os meios de comunicação de massa, esse sistema pode impor uma forma predeterminada de comportamento aos consumidores potenciais - isto é, pode distorcer seu perfil de demanda. Não se pode, portanto, falar de livre escolha.

As firmas que controlam a produção controlam também o consumo, que é uma função de renda e do crédito. Dessa maneira, subir na escala de consumo torna-se, paradoxalmente, um dos objetivos da "expectativa de ascensão", esse novo tipo de ethos imposto ao cidadão comum por aqueles que acumulam cada vez mais, "supranacionalmente", os benefícios do trabalho de todos.

Defender o "consumismo" pode ser uma hábil manobra política ou uma forma de oportunismo sofisticado, com o qual provavelmente se pode conquistar o povo e ganhar o poder, sem contudo mudar fundamentalmente a estrutura do poder - isto é, sem colocar o povo no poder. Como Paulo Freire (1968, p. 61) salientou de forma tão sagaz o problema da pobreza não é uma questão de integrar a população pobre em uma estrutura opressiva, a fim de que possa tornar-se mais parecido com o opressor, mas, sim, de transformar essa estrutura, de maneira que cada indivíduo seja o que é.

Milton Santos | 1978


26.4.16

chopin na cadeira elétrica


Fugazi | 1991


Outro elemento muito bacana do punk: não há frescura de rock star.


25.4.16

chopin na cadeira elétrica


Dead Kennedys | 1984


O bacana do punk rock é isto, rapaz: a liberdade de subir ao palco, fazer a dancinha e mergulhar na piscina humana.


15.4.16

ditadura do automóvel em um planeta poluído

[Singer]

Jean Paul Sartre, em uma de suas peças de teatro, termina enunciando que o inferno são os outros. Porém, os outros agora têm carro. Eles estão com as máquinas assassinas, barulhentas, poluidoras e destruidoras dos espaços urbanos.


14.4.16

minduim


O mundo dos Peanuts é um microcosmo, uma pequena comédia humana para todos os bolsos.

No meio, está Minduim: ingênuo, cabeçudo, sempre inábil e, portanto, votado ao insucesso. Necessitado até à neurose de comunicação e "popularidade", e recebendo em troca, das meninas matriarcais e sabichonas que o rodeiam, o desprezo, as alusões à sua cara de lua-cheia, as acusações de burrice, as pequenas maldades que ferem profundamente. Minduim, impávido, procura ternura e afirmação em toda parte: no baseball, na construção de "papagaios", nas relações com seu cão Xereta, nos contatos de jogo com as meninas. Fracassa sempre. Sua solidão torna-se abissal, seu complexo de inferioridade, esmagador (colorido pela suspeita contínua que também atinge o leitor, de que Minduim não tenha nenhum complexo de inferioridade, mas seja realmente inferior. Pior: é absolutamente normal. É como todos. Por isso, caminha sempre à beira do suicídio ou, na melhor das hipóteses, do colapso: porque busca a salvação segundo fórmulas comodamente propostas pela sociedade em que vive (a arte de fazer amigos, como tornar-se um solicitador animador de reuniões sociais, como conseguir cultura em quatro aulas, a busca da felicidade, como agradar às meninas... obviamente, o Doutor Kinsey, Dale Carnegie e Lin Yutang o arruinaram). Mas como o faz com absoluta pureza de coração, e nenhuma velhacaria, a sociedade está pronta a rejeitá-lo na figura de Lucy, matriarcal, pérfida, segura de si, empresária de lucro certo, pronta a comerciar uma prosopopéia falsa de fio a pavio, mas de indubitável efeito (são as duas aulas de ciências naturais ao irmãozinho Linus, uma mixórdia de idiotices que dão náuseas a Minduim - "I can't stand it", não posso aguentar isso, geme o desgraçado, mas com que armas se pode deter a má-fé impecável, quando se tem a desventura de ser puro de coração?...)

Umberto Eco
Trad.: Pérola de Carvalho


10.4.16

shabat


[...]

A Segunda Guerra Mundial dizimou nossa comunidade judaica em Criclkewood, e a comunidade da Inglaterra como um todo perderia milhares de pessoas nos anos pós-guerra. Muitos judeus, inclusive primos meus, emigraram para Israel; outros foram para Austrália, Canadá ou Estados Unidos; meu irmão mais velho, Marcus, foi para a Austrália em 1950. Muitos dos que permaneceram assimilaram-se e adotaram formas de judaísmo diluídas, atenuadas. Nossa sinagoga, que lotava quando eu era criança, foi se esvaziando anos após ano.

Recitei minha parte do bar mitsvá em 1946 para uma sinagoga relativamente cheia onde estavam várias dezenas dos meus parentes, mas para mim este foi o fim da prática judaica formal. Não passei a seguir as obrigações rituais de um judeu adulto - orar todos os dias, pôr os tefilin antes da oração matinal - e gradualmente me tornei mais indiferente às crenças e aos hábitos dos meus pais, embora não houvesse nenhum momento de ruptura até meus dezoito anos. Foi quando meu pai, ao indagar sobre meus sentimentos sexuais, me impeliu a admitir que eu gostava de rapazes.

"É só uma sensação, nunca 'fiz' nada", eu disse, e acrescentei: "não conte para mamãe: ela não aceitaria".

Ele contou, e na manhã seguinte ela desceu com uma expressão horrorizada e gritou para mim: "Você é uma abominação. Quisera que você nunca tivesse nascido". (Sem dúvida ela estava pensando no versículo do Levítico que diz: "O homem que se deita com outro homem como se fosse uma mulher, ambos cometeram uma abominação, deverão morrer, e o seu sangue cairá sobre eles".

Nunca mais se falou no assunto, mas suas palavras duras me fizeram odiar a capacidade da religião para a intolerância e a crueldade.

Oliver Sacks
Trad.: Laura T. Motta
2015


9.4.16

deus, um delírio



[¿La raíz de todo mal?: El virus de la fe | Richard Dawkins | 2006]



"Não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas neles?" 


[...] 

Imagine, junto com John Lennon, um mundo sem religião. Imagine o mundo sem ataques suicidas, sem o 11/9, sem o 7/7 londrino, sem as Cruzadas, sem caça às bruxas, sem a Conspiração da Pólvora, sem a partição da Índia, sem as guerras entre israelenses e palestinos, sem massacres sérvios/croatas/muçulmanos, sem a perseguição de judeus como "assassinos de Cristo", sem os "problemas" da Irlanda do Norte, sem "assassinatos em nome da honra", sem evangélicos televisivos de terno brilhante e cabelo bufante tirando dinheiro dos ingênuos ("Deus quer que você doe até doer"). Imagine o mundo sem o Talibã para explodir estátuas antigas, sem decapitações públicas de blasfemos, sem o açoite da pele feminina pelo crime de ter se mostrado em um centímetro. Aliás, meu colega Desmond Morris me informa que a magnífica canção de John Lennon às vezes é executada nos Estados Unidos com a frase "and no religion too" expurgada. Uma versão chegou à afronta de trocá-la por "and one religion too". 


Richard Dawkins 
Trad.: Fernanda Ravagnani 
2007


22.3.16

amor nos tempos de fúria

[Kees Van Dongen | 1877-1968]

[...]

Um homem solitário, morando sozinho e ainda vivendo para os alunos, e Annie não parou de visitá-lo, mas no fim ela teve de esquecer, teve de seguir adiante, com as próprias necessidades, e o professor deu a ela um anel de prata com um escaravelho que ela ainda tinha e ainda usava. E além disse ele deu a Annie muito mais, mostrou a ela que o artista é o inimigo perpétuo do Estado, a mosca na sopa do Estado, o inimigo total de todas as forças organizadas que sobrepujam o indivíduo livre em todos os lugares, o artista como portador de Eros, portador da verdadeira força vital, portador do amor, num mundo aparentemente inclinado a destruir tudo isso, Eros versus civilização, vida contra morte. Sim, nas aulas de gravura você aprendia não apenas litografia em pedra e desenho a ponta-seca, você também aprendia que tinha de usar a arte para dizer algo importante, não apenas um monte de inutilidades minimalistas. Você passava a conhecer a tradição radical dos artistas e muralistas da WPA.

Lawrence Ferlinghetti
Trad.: Rodrigo Breunig


19.3.16

os inimigos íntimos da democracia

[Goya | Los desastres de la guerra]

[...]

Por que é perigoso o projeto de impor o Bem? Supondo-se que se conheça a sua natureza, seria preciso declarar guerra a todos os que não compartilham do mesmo ideal, e eles ameaçam ser numerosos. Como escrevia Charles Péguy no início do século XX: "Na declaração dos Direitos Humanos há o suficiente para fazer guerra a todo mundo, durante a duração de todo o mundo"! Vítimas incontáveis seriam necessárias para alcançar o futuro radioso. Mas a natureza desse ideal também é problemática. Basta dizer "liberdade" para ficarmos todos de acordo? Não sabemos que os tiranos do passado invocavam regularmente a liberdade? Além disso, pode-se clamar, como faz o documento presidencial americano, negligenciando milênios de história humana, que “esses valores de liberdade são justos e verdadeiros para toda pessoa, em toda sociedade”? Somos verdadeiramente a favor de toda liberdade, incondicionalmente, inclusive, como se diz, a da raposa no galinheiro? E o que vem fazer a “livre empresa” entre os valores universais, deve-se travar guerra contra todos os países que praticam uma economia estatizada? Quanto à “democracia” e à igual dignidade de todos os membros do gênero humano que ela implica, será que ainda à estamos praticando quando impedimos os outros povos de escolher por eles mesmos seu destino?

[...]

...uma publicação oficial do governo americano, datada de abril de 2009, revelou a regulamentação inacreditavelmente minuciosa da tortura, formulada nos manuais da CIA e retomada por conta própria pelos responsáveis jurídicos do governo. Pois é esta a novidade: a tortura já não é representada como infração - lamentavelmente mas desculpável - à norma: ela é a própria norma.

[...]

O contágio se espalha bem além do círculo limitado dos torturadores: vários outros grupos de profissionais se envolvem na prática de suplícios. Conselheiros jurídicos do governo se mobilizam para assegurar a impunidade legal de seus colegas e fornecer uma legitimação para seus atos. Regularmente estão presentes psicólogos, psiquiatras, médicos, mulheres (os torturadores são homens, mas o aviltamento sob o olhar das mulheres agrava a humilhação). Enquanto isso, professores universitários produzem as justificações morais, legais ou filosóficas da tortura. A tortura marca de maneira indelével o corpo dos torturados, mas também corrompe a mente dos torturadores. Progressivamente, a sociedade inteira se vê atingida por esse câncer insidioso, esse ataque ao pacto fundamental que liga uns aos outros os cidadãos de cada país democrático, pacto segundo o qual o Estado é o fiador da justiça e do respeito por todo o ser humano. Um Estado que legaliza a tortura não é mais uma democracia.

[...]

Uma das mais poderosas ameaças que pairam sobre nossas democracias, escreve o juiz Serge Portelli, "é a de uma sociedade de segurança absoluta, de tolerância zero, de prevenção radical, de prisão preventiva, de desconfiança sistemática em relação ao estrangeiro, de vigilância e de controle generalizado". Assim é que nos tornamos nosso próprio inimigo, e um dos piores que existem.

[...]

Antes de entoar um hino à glória de uma nova conflagração verdadeiramente melhor do que todas as outras, talvez fosse preferível meditar sobre as lições que Goya extraiu, duzentos anos atrás, de outra guerra conduzida em nome do Bem, aquela dos regimentos napoleônicos que traziam a liberdade e o progresso aos espanhóis. Os massacres cometidos em nome da democracia não são mais fáceis de sofrer do que os causados pela fidelidade a Deus ou Alá, ao Guia ou ao Partido. Uns e outros conduzem aos mesmos desastres da guerra.

Tzvetan Todorov | 2012
Trad.: Joana Angélica


16.3.16

fofuras, precisamos esclarecer duas coisas:


Primeiro, esta onda de denominar os conservadores de coxinhas está ocultando três grandes preconceitos. O machismo, o racismo e a homofobia. Machista, racista e homofóbico estão longe de ter a mesma conotação de coxinha. 

E segundo, esta dicotomia terrorista, esta lógica binária redutora e burra de que existe Deus e o Diabo, o Bem e o Mal, eu superei quando tinha dez anos. Dez anos. 

Era isso o que eu tinha a dizer, ou seja, o óbvio.


15.3.16

dialética da escola-prisão


oito

O educador libertário não pode ficar refém de um sistema educacional que tem como meta resultados. Porque o educador com comprometimento real diante dos alunos enxerga a educação como um processo. Uma longa caminhada cheia de palavras: práticas de leitura e práticas de escrita. E também silêncio. 

Mas o sistema educacional vê o aluno como um número. Quer padronizar o modo de pensar, quer notificá-lo como capaz ou incapaz. 

Medo de ousar na escola parece ser uma regra comum. Mas quem ousa quebrar certos paradigmas normalmente é perseguido e, consequentemente, despedido. 

Do jeito que andam as coisas, é mais fácil vender calcinha ou produtos da avon em horário de aula. Para que pensar na "era da sociedade do consumo". Pensar não compra e precisamos a todo custo comprar para sermos sujeitos. 

Sujeitos etiquetas. 


10.3.16

para dar um fim ao juízo


[1925 - 1995]

[...] 

O combate não é de modo algum a guerra. A guerra é somente o combate-contra, uma vontade de destruição, um juízo de Deus que converte a destruição em algo “justo”. O juízo de Deus está a favor da guerra, e de modo algum do combate. Mesmo quando se apodera de outras forças, a força da guerra começa por mutilá-las, por reduzi-las ao estado mais baixo. Na guerra, a vontade de potência significa apenas que a vontade quer a potência como um máximo de poder ou de dominação. Nietzsche e Lawrence verão nisso o mais baixo grau de vontade de potência, sua doença. Artaud começa evocando a relação de guerra EUA-URSS; Lawrence descreve o imperialismo da morte, dos antigos romanos aos fascistas modernos. É para melhor mostrar que o combate não passa por aí. O combate, ao contrário, é essa poderosa vitalidade não orgânica que completa a força com a força e enriquece aquilo de que se apossa. 

[...] 

O combate não é um juízo de deus, mas a maneira de acabar de vez com deus e com o juízo. Ninguém se desenvolve por juízo, mas por combate que não implica juízo algum. 

[...] 

... a vontade de potência contra um querer-dominar, o combate contra a guerra. 

Gilles Deleuze
Trad.: Peter P. Pelbart 
1997 



8.3.16

dialética da escola-prisão


sete 

Eu ainda não entendo uma coisa. Por que submeter o planejamento anual de minha disciplina (que é referente à minha pesquisa e ao complexo bibliográfico) para um corpo pedagógico que não possui a mesma leitura? Às vezes, sequer tem leitura. 

É como se houvesse uma hierarquia de controle: de vigiar o conteúdo e puni-lo por um viés moral lunático.


6.3.16

psicologia da publicidade


[...]

Hoje se lava tudo em plena rua, pobreza como política, sob uma polvaderia tamanha, provocada pelas politiquices em estouro, que tudo inda sai mais sujo que antes da lavação.

Mário de Andrade | 1932


5.3.16

entrevista



Paul Simonon | 1978
[Entrevista originalmente publicada na edição 7 do fanzine Search & Destroy]

O motivo pelo qual eu gosto tanto de Patti Smith Group é que... Bem, se você comparar a Patti Smith com a Debbie Harry do Blondie, quero dizer - a Debbie Harry é meio que "apenas para rapazes" e como as Runaways... Os caras vão aos shows e ficam meio malucos porque tem uma menina no palco cuja atitude é fazer os homens babarem e coisas assim. Enquanto a Patti Smith é muito mais forte e mais honesta. As Slits também... Elas estão fazendo o que querem fazer. Elas não precisam se preocupar com os homens - elas fazem o que gostam.

Alguém como centopéias gigantes? | Seleção de entrevistas do zine Search & Destroy e da Re/Search Publications. V. Vale | Org: Fabio Massari | Trad.: Alexandre Matias


3.3.16

teoria ou teorias


[...]

Perguntar-me-ão: qual é a sua teoria? Responderei: nenhuma. E é isto que dá medo: gostariam de saber qual é a minha doutrina, a fé que é preciso abraçar ao longo deste livro. Estejam tranquilos, ou ainda mais preocupados. Eu não tenho fé - o protervus é sem fé e sem lei, é o eterno advogado do diabo, ou o diabo em pessoa: Forse tu non pensavi ch'io loico fossi! Como Dante lhe faz dizer, "Talvez não pensasse que eu fosse um lógico" ("Inferno", canto XXVII, v. 122-123) -, nenhuma doutrina, senão a da dúvida hiperbólica diante de todo discurso sobre a literatura. À teoria da literatura, vejo-a como uma atitude analítica e de aporias, uma aprendizagem cética (crítica), um ponto de vista metacrítico visando interrogar, questionar os pressupostos de todas as práticas críticas (em sentido amplo), um "Que sei eu?" perpétuo.

Antoine Compagnon | O demônio da teoria: literatura e senso comum. Trad.: Cleonice P. B. Mourão e Consuelo F. Santiago
UFMG | 2012


2.3.16

dialética da malandragem


No Brasil o charlatanismo virou profissão. 
E muito bem remunerada.


1.3.16

de la musique




Guía para combatir las causas de la infelicidad
Responsables No Inscriptos

Vamos a empezar la historia después de terminar / porque de principio a fin ya no queda qué contar / todos saben bien de qué va todo esto así / no es lo que quieren vender / sino lo que compremos al fin / y al parecer padecer para ser solo para parecer / y lo que sé, lo que ser, enloquecer para volver a adaptarse // Vamos a ordenar cada cosa en su lugar / porque lo que se hace gris es blanco o negro, nada más / qué parte no entender de todo lo que está ahí / no es lo que pueden mostrar / sino lo que creemos al fin / y solo ver solo lo que se quiere ver / y lo que sé... / no es sano estar adaptado a un mundo enfermo y yo / me multiplico por cero y desparezco / no tiene lógica ni explicación / que otra cosa se podía esperar / lo que está al margen es solo por la aclaración / no para ser marginal / vamos a llevar todo esto hasta el final / para no seguir así, negando lo que va a pasar / todos saben bien para dónde va todo esto así / no es la forma de pensar sino lo que hacemos al fin / y otra vez yo no sé a dónde me llevan mis pies / y lo que sé... / no es sano estar adaptado a un mundo enfermo y yo / me multiplico por cero y desparezco / no tiene lógica ni explicación / qué otra cosa se podía esperar / si estoy al margen es solo por la aclaración / para no ser funcional / no tiene lógica la explicación / mucho más no se podía esperar / no tiene caso buscar resolver la ecuación / entre entrar y ya no entrar / entre estar y ya no estar / de querer la paz mundial / la misma pulsión de no contribuir / la misma tragedia individual / el mismo miedo a lo que va a venir / y a lo que no se puede controlar / la misma química para estar bien / la misma euforia servil y normal / el mismo vacío al no conseguir / y la tortura de la oscuridad / la misma duda para estar peor / mismo motivo para festejar / la misma estúpida contradicción / de no querer pero seguir igual / la misma traición para comprender / el mismo sentimiento terminal / la misma señal para interferir / el mismo ruido que sintonizar / la misma negación intencional / el mismo intento de decir que no / la zanahoria que está frente a mí / y la mentira que tiene razón / la misma estafa subliminal / el mismo ego para destruir / la misma causa de infelicidad / la misma guía para no seguir / siempre alguien nos quiere dar una lección de vida / la culpa es de los demás / tus horas erróneas.


28.2.16

blues de la calle beale


[James Baldwin | 1924 - 1987]

[...] 

Andar com problemas produce a veces un efecto raro. No sé se podré explicarlo. Hay días e que nos parece que vivimos como de costumbre, oyendo a los demás, hablando con ellos, trabajando o, por lo menos, viendo que el trabajo queda hecho. Pero la verdad es que en esos días no vemos ni oímos a nadie; y si alguien nos pregunta qué hemos hecho durante el día, tenemos que pensar un rato antes de contestar. Pero al mismo tiempo, y en esos mismos días - esto es lo más difícil de explicar -, vemos a los demás como nunca los hemos visto. Todos brillan como navajas. Quizá sea porque antes de que empezaran nuestros problemas los mirábamos de otro modo. Quizá sea porque ahora nos interesamos mucho más en ellos, y de manera muy distinta, y eso nos los hace ver como extraños. Quizá sea porque estamos asustados, confundidos, y ya no sabemos con quién podemos contar en el futuro para que nos ayude. 

Trad.: Enrique Pezzoni