28.3.17

24.3.17

o que resta da ditadura

Dia Nacional de Luta, 1977

[...]

As perdas e as transformações inimagináveis, produzidas pela violenta cesura que a ditadura efetuou na experiência sociopolítica e cultural em curso no país nas décadas de 1950-1960, não foram de todo assimiladas e elaboradas pela sociedade brasileira, uma vez que o luto social requerido torna-se ainda mais difícil nesta cultura que tende à carnavalização e à autoidentificação pela alegria.


10.3.17

George Orwell: a busca da decência


[...]


A educação proporcionada pelas public schools é em parte um treinamento em preconceito de classe, em parte uma espécie de imposto que as classes médias pagam para entrar em certas profissões. Como solução seria necessária uma grande reforma do sistema educacional visando sua democratização, é um passo que passou a achar para cortar o esnobismo pela raiz seria enviar todas as crianças para o mesmo tipo de escola até os dez, doze anos. Ele gostaria de conciliar da melhor maneira possível o aproveitamento das crianças que se revelassem mais bem dotadas com a possibilidade de oferecer uma chance igual a todas elas. Durante algum tempo no começo da década de 30 Orwell chegou a trabalhar como professor em pequenas private schools e seu conhecimento do assunto levou-o a crer que a maioria dessas escolas particulares devia ser suprimida, pois não passava de empreendimentos comerciais, sem o menor respeito pela educação das crianças. Em um de seus livros, A Clergyman's Daughter, ele retrata o tipo de ensino oferecido nessas arapucas, e muito do que o personagem principal vive é retirado de sua experiência. No livro, as tentativas da professora de dar aulas mais interessantes são frustrada pela diretora da escola e pelos pais dos alunos, pessoas ignorantes a quem era fácil iludir com vernizes de conhecimento. A educação de Orwell, numa escola mais cara, foi semelhante - história era decorar datas e frases célebres, geografia era decorar as capitais  dos condados ingleses. Numa carta a uma amiga, logo após parar de dar aulas, ele se mostra contente por abandonar aquele ensino "abominável".

Ricardo B. Neto


14.2.17

reflexão sobre educação


Na verdade o vestibular é um processo de colonização, se eu não me engano, na Argentina, devido a uma reforma universitária de 1918, não há mais exame eliminatório.

Ninguém liberta o "gênio" decorando fórmulas ou tendo como única motivação para os estudos a aprovação no vestibular.


doc



Chomsky & Cia | 2008

Chomsky & Cia. é um documentário francês de Olivier Azam e Daniel Mermet, lançado em 2008. Ele é dedicado ao conhecimento de Noam Chomsky, um dos pensadores mais influentes da segunda metade do século XX. No filme, baseado em reportagens para o programa de rádio “Là-bas Si J’y Suis”, o filósofo tem seus ideais políticos colocado sob foco. Suas formas de compreender os paradoxos do funcionamento das democracias neoliberais são expostas nesse longa, que traz imagens de arquivo junto de montagens, além de entrevistas com intelectuais.


12.2.17

conflitos de vizinhança


Destaco um fragmento importante do artigo Direito de vizinhança, de Zoraide Sabaini, especialista em Direito do Estado.

O Código Civil Brasileiro outorga: 

O proprietário ou inquilino de um prédio tem o direito de impedir que o mau uso da propriedade vizinha possa prejudicar a segurança, o sossego e a saúde dos que o habitam.

Segundo a teoria clássica, o conflito de vizinhança seria a ruptura do equilíbrio, uma vez que entre dois vizinhos deve haver um uso harmonioso. Sempre que um dos proprietários rompe com esse equilíbrio, iniciando uma atividade que não se ajusta à atividade normal, o dano deve recair sobre o autor da ruptura. Podem ser causas de conflito de vizinhança o mau uso da propriedade, isto é, aquele uso que caracteriza ofensa ao sossego, à saúde e a segurança dos vizinhos, tais como: excesso de barulho produzido por manifestações religiosas no interior do templo causando perturbações aos moradores de prédios vizinhos; ruídos excessivos, algazarras, gritarias, diversões espalhafatosas altas horas da noite; manutenção de animais em local impróprio ou inadequado; construções perigosas ou perniciosas à vizinhança e à coletividade; atividades inconvenientes ou insalubres na região; odores insuportáveis, fumaça ou fuligem, poluição de águas, emanação de gases tóxicos, etc.

Algumas vezes esses incômodos são exacerbados, tornando nocivo para o vizinho o uso do imóvel praticado pelo proprietário mediante a ameaça da segurança e do direito daquele. Dessa maneira, a teoria da propriedade fica em crise, ou seja, impotente para resolver os conflitos de vizinhança.


9.2.17

cabezas de tormenta



De no haber existido anarquistas nuestra imaginación política sería más escuálida, y más miserable aun.
Ferrer

8.2.17

os inimigos íntimos da democracia

[1939 - 2017] 

[...] 

Diante do poder econômico desmesurado dos indivíduos ou dos grupos de indivíduos que dispõem de capitais imensos, muitas vezes o poder político se revela fraco demais. Nos Estados Unidos, em nome da liberdade ilimitada de expressão, a Corte Suprema autorizou o financiamento dos candidatos às eleições pelas empresas; concretamente, isso significa que aqueles que têm mais dinheiro podem impor os candidatos de sua escolha. O presidente do país, seguramente um dos homens mais poderosos do planeta, precisou renunciar a promover uma reforma equitativa dos seguros de saúde, a regulamentar as atividades dos bancos, a diminuir os danos ecológicos causados pelo modo de vida de seus concidadãos... Ora, não é livre o homem doente que não tem os meios para se tratar, o homem posto na rua porque não consegue pagar sue empréstimo bancário. Chega-se então ao paradoxo de que a liberdade individual, em cujo nome é rejeitada qualquer intervenção do Estado, fica impedida pela irrestrita liberdade concedida ao mercado e às empresas. 

[...] 

Em abril de 2010, explode uma plataforma da empresa BP no golfo do México, provocando a maior maré negra na história dos Estados Unidos; descobre-se nessa ocasião que a comissão governamental que concede as licenças de perfuração e controla as companhias petrolíferas se compõe essencialmente de antigos empregados dessas mesmas companhias! A liberdade ilimitada dos agentes econômicos não garante, é o mínimo que se pode dizer, a proteção ao meio ambiente, que no entanto é um bem comum. Deixadas sem controle,a s companhias petrolíferas escolhem materiais de construção baratos e portanto não muito confiáveis. Não é de espantar: não sendo indivíduos dotados de uma consciência, as empresas não sentem nenhum remorso por se deixarem guiar unicamente pela busca do lucro. A limitação desse apetite só pode provir de uma instância externa à lógica econômica. 

[...] 

Fukushima se produziu depois de um terremoto e do tsunami que o acompanhou. Ora, essa central fora construída em um determinado lugar - à beira-mar, numa zona altamente sísmica, não longe das grandes cidades - por mais comodidade e, em última análise, porque essa solução era a mais rentável para aqueles que asseguravam sua exploração. A explosão não foi efeito de uma catástrofe natural, mas do conluio entre operadores privados e burocratas governamentais. A extração do gás de xisto rende muito àqueles que a praticam; eles preferem comprar os responsáveis políticos e indenizar os habitantes, em vez de pensar nos efeitos a longo prazo de sua ação. O mesmo ocorre quanto aos outros abusos tecnológicos: o que motiva o uso imediato e imoderado das novas tecnologias não é a aspiração ao conhecimento, mas o desejo de enriquecer, sem preocupar-se com as consequências sobre os outros seres humanos, presentes ou vindouros. E não é somente a cupidez que faz agir assim: os responsáveis por essas escolhas são igualmente ofuscados pela vertigem do poder, pelo orgulho que extraem do fato de controlar as alavancas de uma tal potência, e portanto de decidir sobre o futuro de uma população numerosa. 


Tzvetan Todorov 
Trad.:Joana Melo


7.2.17

Que Pagui Pujol!


Que Pagui Pujol! Es un relato visceral y trepidante, con nombre y apellidos y de alto contenido combativo. Una crónica llena de referencias musicales y localizada en espacios míticos de la capital catalana, muchos de ellos desaparecidos y borrados de la memoria oficial, de una ciudad en constante lucha por mantener prendida la llama de la resistencia. Un collage narrativo que combina la investigación histórica y autobiográfica, con un minucioso esfuerzo por retratar la Barcelona de la década de los 80 desde una òptica punk, a partir de fotografias, carteles y octavillas, fanzines y recortes de prensa. El protagonista del libro es el propio autor: un Joni D adolescente y punk que nos conduce desde la irreverente escena musical alternativa y las primeras okupaciones, hasta las movilizaciones autónomas en contra de la OTAN y el servicio militar, pasando por las primeras coordinaciones con punks de Madrid, Euskal herria. La historia de diez años que empieza con las primeras emisiones de las radios libres, y acaba con el nacimiento de diversos proyectos autogestionados vinculados a los movimientos sociales Barceloneses. Un trabajo militante y resistente que nos muestra el peso y la significación de las contraculturas urbanas, al tiempo que cuestiona la estrategia de la amnesia orquestada durante la Transición.


um chamado à luta criptográfica


[...]

Antes de tudo, lembre-se de que os Estados são sistemas através dos quais fluem as forças repressoras. Facções de um Estado podem competir entre si por apoio, levando ao fenômeno da democracia aparente, mas por trás dessa fachada se encontram, nos Estados, a sistemática aplicação - e fuga - da violência. Posse de terras, propriedades, arrendamentos, dividendos, tributações, multas impostas por decisão judicial, censura, direitos autorais e marcas registradas, tudo isso se faz cumprir por meio da ameaça de aplicação da violência por parte do Estado.
Em geral nem chegamos a nos conscientizar de quão próximos estamos da violência, porque todos nós fazemos concessões para evitá-la. Como marinheiros a favor do vento, raramente percebemos que, abaixo da superfície visível do nosso mundo, se esconde uma grande escuridão.

[...]

O novo mundo da internet, abstraído do velho mundo dos átomos concretos, sonhava com a independência. No entanto, os Estados e seus aliados se adiantaram para tomar o controle do nosso novo mundo - controlando suas bases físicas. O Estado, tal qual um exército ao redor de um poço de petróleo ou um agente alfandegário forçando o pagamento de suborno na fronteira, logo aprenderia a alavancar seu domínio sobre o espaço físico para assumir o controle do nosso reino platônico. O Estado impediria nossa tão sonhada independência e, imiscuindo-se pelos cabos de fibra óptica, pelas estações terrestres e pelos satélites, iria ainda mais longe, interceptando em massa o fluxo de informações do nosso novo mundo - a sua própria essência -, ao mesmo tempo que todos os relacionamentos humanos, econômicos e políticos o receberiam de braços abertos. O Estado se agarraria como uma sanguessuga às veias e artérias das nossas sociedades, engolindo sofregadamente todo relacionamento expresso ou comunicado, toda página lida na internet, todo e-mail enviado e todo pensamento buscado no Google, armazenando esse conhecimento, bilhões de interceptações por dia, um poder inimaginável, para sempre, em enormes depósitos ultrassecretos. E passaria a minerar incontáveis vezes esse tesouro, o produto intelectual privado coletivo da humanidade, com algoritmos de busca de padrões cada vez mais sofisticados, enriquecendo o tesouro e maximizando o desequilíbrio de poder entre os interceptores e um mundo inteiro de interceptados. E, então, o Estado ainda refletiria o que aprendeu de volta ao mundo físico, para iniciar guerras, programar drones, manipular comitês das Nações Unidas e acordos comerciais e realizar favores à sua ampla rede de indústrias, insiders e capangas conectados.


Julian Assange


3.2.17

abre aspas


…o carro tornou a cidade grande inabitável. Tornou-a fedorenta, barulhenta asfixiante, empoeirada, congestionada, tão congestionada que ninguém mais quer sair de tardinha.


André Gorz


2.2.17

censura sofisticada



Podemos pensar na censura como uma pirâmide. É só a ponta dela que aparece na areia, e isso é proposital. A ponta é pública - calúnias, assassinatos de jornalistas, câmeras sendo apreendidas pelos militares e assim por diante -, é uma censura publicamente declarada. Mas esse é o menor componente. Abaixo da ponta, na camada seguinte, estão todas as pessoas que não querem estar na ponta, que se envolvem na autocensura para não acabar lá. Na camada subsequente estão todas as formas de aliciamento econômico ou clientelista que são direcionadas às pessoas para que elas escrevam sobre isso ou aquilo. A próxima camada é a da economia pura - sobre a qual vale economicamente a pena escrever.

Julian Assange


1.2.17

pensamento livre



Vamos retomar uma pergunta básica. O que quer dizer pensamento livre?

O pensamento livre não aceita dogmas da religião tradicional. De qualquer religião. Ou seja, livre-pensador é aquele que não aceita nenhuma ortodoxia herdada, que não se submete a nenhum tipo de controle externo. 

Um homem ou uma mulher, por exemplo, que não acredita em deus, é chamado de livre-pensador.


31.1.17

chopin na cadeira elétrica



Peggio Punx (1981-1992) foi uma banda de hardcore italiana simpatizante da corrente de extrema esquerda denominada Autonomia Operaria.


29.1.17

o cosmopolitismo do pobre


[...]

O maior drama do analfabetismo no Brasil é o de ter ele servido de adubo para a mídia eletrônica do entretenimento, com o consequente desenraizamento cultural da imprensa escrita. O brasileiro aprendeu a escutar rádio e a ver televisão; poucos sabem ou querem ler. Essa afirmativa desconcertante não recobre apenas a camada dos desprivilegiados, ela virou consenso nacional a partir da ditadura militar de 1964. 

[...]

O escritor brasileiro tem a visão da Arte como forma de conhecimento, tão legítima quanto as formas de conhecimento de que se sentem únicas possuidoras as ciências exatas e as ciências sociais e humanas. Ele tem também a visão da Política como exercício da arte que busca o bom e o justo governo dos povos, dela dissociando a demagogia dos governantes, o populismo dos líderes carismáticos e a força militar dos que buscam a ordem pública a ferro e a fogo. 

Silviano Santiago


28.1.17

un' intesa perfetta


[Assalti Frontali]


[...]

O gosto pelos livros e certa introspecção me tornavam um pouco diferente dos amigos de escola e da vizinhança, mas não a ponto de não jogar bola, entrar nas brincadeiras, conversar sobre sexo, meter-me em uma ou outra briga, ir a festas. Mas não me lembro de ter conversado sobre minhas leituras de poesia, a não ser quando já estava na faculdade.

Um retrato | Sérgio Sant'Anna


27.1.17

macaframa



Diretor: Colin Arlen e Colby Elrick | 2010

Documentário sobre a “Fixed gear culture” em San Francisco, California.

Os poderes estabelecidos preferem estradas às ruas porque uma estrada movimentada é nada mais que uma prisão com celas móveis. Um motorista pode deixar a estrada, mas não pode influenciar outros que ajam da mesma forma. Seria como um cadáver começar uma insurreição em um cemitério. Um carro é um acidente procurando algum lugar para acontecer, e quanto mais pessoas têm carros, mas parecidos os lugares se tornam, assim menos significativa se torna sua "liberdade de movimento".
Mr. Social Control


18.1.17

gott ist tot

Via P.M.
Não sou ladrão 
pra fazer 

propaganda 

de Jesus Cristo.




14.1.17

noite


O mundo continua
ruidoso.

Incomunicável
como um deus de plástico.


13.1.17

por um mundo novo, sem capitalismo


Entrevista com MICHAEL LÖWY, cientista e escritor radicado na França desde a década de 1960 e onde atualmente é diretor de pesquisas do Centro Nacional da Pesquisa Científica, que aborda semelhanças – e dessemelhanças – entre Marx e Weber e o ecossocialismo para conter a catástrofe humana e ambiental do capitalismo.

[...]
... acho que é importante tomar a fábrica, porque as condições em que ela vive faz ela produzir outra coisa. Porque o capitalista que produz carro, nunca vai deixar de produzir carro, que polui. Então, se houvesse um trabalhador com consciência ecológica, ele vai poder tomar essa fábrica e decidir produzir bicicleta, por exemplo. Então, eu acho que é essa coisa: uma fábrica a gente quer fechar porque só produz porcaria; outra, a gente quer reorganizar para produzir outra coisa e outras são fábricas que não existem, que a gente vai criar. 


11.1.17

deus é brasileiro

[dahmer]

Em tempo de carnaval, que apenas serve para vender mais cerveja e fomentar a existência alcoolizada como se fosse natural e benéfica, não esqueçamos: o alcoolismo é uma doença.



surplus







realidade suburbana


O seu vizinho fuma crack?
E a sua vizinha: derrete o cérebro na wap?


10.1.17

por que existe a literatura e não o nada


[...]

Como na arte, a literatura opera com base em prólogos, na iminência, quando o social é acontecimento mais do que estrutura, onde escrever e ler apresentam um status diferente dos atos sociais corriqueiros. É um modo de fazer que trabalha na zona do indeciso, do irresoluto, daquilo que ainda é possível.

Há arte e literatura onde não se afirma categoricamente aquilo que é e onde também não se assiste ao simples desapossamento do nada. O artístico e o literário existem enquanto aquilo que é aparece com o nada e onde o nada se mostra com o que pode ser. Fazer arte ou escrever é algo que acontece quando se evitam declarações absolutas e também quando o criador não se abandona totalmente à vertigem do nada. Chega-se a ser artista e escritor aprendendo a tratar com o que é, como se pudesse não ser, e com o que não é, como se pudesse vir a ser. Como ator social, o escritor é aquele que não pertence inteiramente à sua etnia, nação ou língua, transita entre pertencimentos frágeis, vive em seu entorno como estrangeiro, fala, mas duvida do que diz.

A cena da literatura não é a realidade social estruturada, empiricamente observável, nem a do nada que antecede o real. Mas essa experiência do iminente, em que ocorre o acontecimento literário, rastreável também na arte e na literatura de outras épocas, mostra mudanças históricas. O ato de escrever é um movimento aparentemente solitário, mas que pode ser enunciado como dificuldade de sobrevivência em certas ocasiões, luta pela significação em outras, vertigem diante do que desaparece.

Néstor G. Canclini


9.1.17

27.12.16

na sala de aula


A turma cheia, trina alunos. Segundo dia de aula. Nem bem começo a leitura de um texto sobre a sociolinguística, bem didático, Lucas interrompe, educadamente a aula, ao levantar a mão. Paro a leitura, sem terminar o primeiro parágrafo, e pergunto:

- Dúvidas?

Lucas mexe no boné e olha para um colega ao lado. Ri com certo ar de capetinha e volta-se para mim:

- Fêssor, cê é ateu.

Minha intenção era falar só sobre sociolinguística e literatura. Não entendi a questão fora de contexto. Mas para sair logo dessa, respondi:

- Sou 80% ateu, 10% cético e 10% agnóstico.

A turma em uníssono solta um imenso tooooooooooooma! 
Nessa, já era a aula.


26.12.16

a mídia em transe

[Stencil | CWB | 2016]
[...]

Em certo sentido, a mídia fortalece a pessoa que se tornou irreal e lhe fornece uma espécie de prova de existência. Isso é uma consequência daquela abnegação patológica diagnosticada por Hannah Arendt. Todo cidadão meio maluco pode alimentar a esperança de se ver estampado na primeira página do New York Times com uma garrafa de cerveja em uma das mãos, enquanto a outra está levantada para a saudação a Hitler. E nos noticiários de televisão ele pode maravilhar-se com sua obra do dia anterior: casas em chamas, cadáveres mutilados, audiências oficiais de emergência e reuniões de Estado para a discussão da crise.

H. M. E.
Trad.: Marcos B. Lacerda


25.12.16

razões adicionais para os poetas mentirem


Porque o momento / no qual a palavra feliz / é pronunciada, / jamais é o momento feliz. / Porque quem morre de sede / não pronuncia sua sede. / Porque na boca da classe operária / não existe a palavra classe operária. / Porque quem desespera / não tem vontade de dizer: / "Sou um desesperado". / Porque o orgasmo e orgasmo / não são conciliáveis. / Porque o moribundo em vez de alegar: / "Estou morrendo"/ só deixa perceber um ruído surdo / que não compreendemos. / Porque são os vivos / que chateiam os mortos / com suas notícias catastróficas. / Porque as palavras chegam tarde demais, / ou cedo demais. / Porque, portanto, é sempre um outro, / sempre um outro / quem fala por aí / e porque aquele / do qual se fala / se cala.


24.12.16

urgência das ruas



Suplantar o capitalismo em prol de uma visão de sociedade ecológica, comunista e libertária. 

Radicalize, construindo a resistência. 

Precisamos reconhecer de que o sistema capitalista global, baseado na exploração das pessoas e do planeta para o lucro de poucos é a raiz de nossos problemas sociais e ecológicos. 



19.12.16

a educação é elemento de domesticação e não de libertação



[...]

"Entendo por pedagogia burocrática um sistema onde os meios de controle tornam-se fins, e os fins são esquecidos. Então, o Diário de Classe do Professor e o registro de faltas e notas são mais importantes que o curso ministrado ao aluno. Da mesma maneira que o 'professor-polícia' controla o aluno, o 'diretor-polícia' controla o professor que, por sua vez, na esfera estadual, é escravo do delegado de ensino. [...] A pedagogia burocrática se caracteriza também por procurar, além de um controle totalitário de todos sobre todos, o conformismo em relação ao ensino recebido e transformar a avaliação e nota como novo 'fetiche'. [...] [A pedagogia burocrática] reproduz, no plano da escola, as determinações socioeconômicas, ela transforma o pobre num desgraçado escolar, pune-o diretamente com a reprovação e indiretamente tornando-o um evadido escolar [...]. A pedagogia burocrática, ao acentuar o conformismo, o espírito acrítico do aluno, forma a futura mão de obra dócil, que nada reivindicará nas empresas ou no Estado, forma os 'servos' do capital que docilmente contribuirão para sua reprodução ampliada." 

Maurício Tragtenberg



17.12.16

todo ouvido


A partir de um prefácio de Arundhati Roy

Busco compreender o mundo de outra maneira.
Encosto o ouvido no chão
e procuro:

o genocídio não divulgado
a guerra civil não televisionada
o golpe militar escondido.

É o meu destino não acreditar em tudo que leio no jornal.



16.12.16

existencialismo


dois

Desde quando a existência alcoolizada passou a significar vida ativa? Fenômeno curioso esse.


os bruzundangas


um

Suborno ali, suborno acolá: o verdadeiro jogo de dissimulações, o verdadeiro contrato social da República dos Bruzundangas.


15.12.16

democracia canalha


"O medo inibe o protesto e o silêncio facilita a entrega do aparelho burocrático a operadores políticos corruptos."


14.12.16

por que existe a literatura e não o nada


[...]

Um futuro indeciso, narrativas sem desenlace. Escrever com base na iminência, no que ainda não é, não significa se abstrair do social. É aparecer em um lugar onde o mundo pode ser pensado como algo que poderia ser de outro modo. A literatura não se situa em um nada a-histórico, mas nessa enunciação poética que desafia a prosa mutável do mundo.

Ao falar do que poderia ser de outra maneira, a escrita literária faz política. Conta como os deuses fugiram e como regressaram nas onipotências das empresas, na milagrosa irradiação das máfias.


Quando Holderlin escrevia, a pergunta era como viver na época dos deuses que se foram e do deus que ainda não chega; no tempo de Dostoieviski, a interrogação foi se, não havendo deus, tudo está permitido. Hoje, quando a disputa pelo todo ocorre entre os equivalentes profanos das deidades, que são o totalitarismo financeiro dos bancos, os rituais vazios com que o servem os políticos, sua transculturação em grupos criminosos e as revelações sempre parciais da espionagem, na literatura nos perguntamos se é possível atuar com outro sentido: ser escritor e leitor é o modo incerto com que deciframos o que poderia significar ser cidadão. Não reduzo a política à literatura, nem digo que esta vai nos emancipar. Escrever e ler são, apenas, ações com que tentamos fazer que o poder aniquilador e atordoante dos atuais deuses seja só uma intriga. Sem fim predefinido.

Néstor G. Canclini
Trad.: Larissa F. Locoselli


13.12.16

razões de estado


O Estado é a autoridade, a dominação e o poder organizados das classes proprietárias sobre as massas [...] a negação mais flagrante, mais cínica e mais completa da humanidade. Ele abala a solidariedade universal entre todos os seres humanos da Terra e associa alguns deles unicamente para a finalidade de destruir, dominar e escravizar todos os demais. [...] Essa negação flagrante da humanidade, que constitui a própria essência do Estado, é, do ponto de vista do Estado, seu dever supremo e sua maior virtude. [...] Assim, ofender, oprimir, despojar, pilhar, assassinar ou escravizar o semelhante é comumente considerado crime. Na vida pública, por outro lado, do ponto de vista do patriotismo, quando essas coisas são feitas para maior glória do Estado, para a preservação ou a ampliação de seu poder, tudo se transforma em dever e virtude. Isso explica porque toda a história dos Estado antigos e modernos é meramente uma série de crimes revoltantes; por que reis e ministros, passados e presentes, de todas as épocas e todos os países - estadistas, diplomatas, burocratas e militares -, se julgados pelo prisma da simples moralidade e da justiça humana, seriam cem vezes, mil vezes merecedores de condenação a trabalhos forçados ou à forca. Não há horror, crueldade, sacrilégio ou perjúrio, não há impostura, transação infame, ladroagem cínica, pilhagem descarada ou traição vergonhosa que não tenham sido ou não sejam diariamente perpetrados por representantes dos Estados, sem qualquer outro pretexto que não estas palavras elásticas, muito convenientes, mas tão terríveis: "por razões de Estado."

Mikhail Bakunin


9.12.16

mais arte menos estampa


Arte callejero | CWB | 2016

Meu amigo me conta que vai fazer grafite. Eu apoio, se há intervenção urbana que admiro é a pintura artística no concreto. Pergunto se já tem ideia sobre o que vai criar. Ele responde que se inscreveu em uma oficina para pegar manhas e macetes da técnica, só então pensará no tema.

Provoco: não tem nada em mente? “Ah, até tenho...” O quê? “Algo que trabalhe com cores berrantes e escuras...” Tá, mas as cores darão o sopro de vida para que tipo de ideia? “Sei lá, talvez minha assinatura”. Assinatura? “É, estilizada; manja?”

Claro que manjo! Tanto que retruco: mas e a arte? “Arte?” Sim, a vitamina que perturba e faz pensar. A alma de uma produção estética está justamente neste ingrediente vital. O belo pelo belo é tão banal quanto amar alguém apenas pela cor dos olhos. É preciso ter algo a mais, e o grafite tem tudo para ter.

“Mas tem grafites que são verdadeiras obras de arte!” Não duvido! No entanto, a arte não está apenas na técnica. Pode-se reproduzir a anatomia em minúcias; e daí? Arregalar os olhos e soltar monossílabos de admiração não é o mesmo que se sentir constrangido e incitado a interrogar a si e o mundo ao redor.

Meu amigo argumenta que anima a vida dos transeuntes. Balanço a cabeça em concordância. Inclusive, posso até aplaudir girafas, guaxinins e demais formas cheias de cor e efeito, mas quando viro as costas e dobro a esquina, elas não me acompanham nem me seguem. Permanecem lá, cuidando de suas vidas estáticas enquanto cuido da minha.

A atividade do grafite está no DNA da expressão humana. Os homens das cavernas já faziam grafite, certo? Ilustrando suas crônicas pelas paredes rochosas. Aliás, o ancestral do artista é o sujeito que registrava a vida em imagens enquanto era imperativo lutar pela sobrevivência imediata. Saltando para os tempos modernos, enxergo os muralistas mexicanos como precursores da composição pictórica de painéis em espaços públicos. E os grafiteiros atuais teriam plena condição de adentrar nesta tradição. Quisera eu transitar pelas ruas e me deparar com a tragicidade emblemática de um Orozco, ou a ironia fina de denúncia social à la Diego Riviera.

Meu amigo argumenta que o grafite tem linguagem própria. Claro que sim! E digo mais: o grafite tem o poder que outras artes não têm, pois está onde o povo precisa passar. É uma tela a céu aberto. Mas não me venha com o papo de que “de terror basta a vida”. Há maneiras de abordar um tema sério sem sisudez. Além do mais, trazer à luz um problema significa enxergar melhor este problema e ter a sensação de que não estamos sozinhos.

Deu pra entender? Não precisa responder, basta pensar.

Paulino Júnior


8.12.16

sociedade sem escolas



Que clima de confiança pode existir em um ambiente em que a calúnia reacionária é matéria de desempenho e de carreirismo para os aparelhos ideológicos? A educação formal é adversário do anarquismo e do socialismo. Ou seja, essa educação é inimiga da inteligência.

A escola tradicional com seus carrascos está fazendo uma audaciosa aposta na burrice. O que era natural na criança, como a curiosidade, é assassinado nos estabelecimentos de (des) educação.


Aluno agride professor, professor agride aluno, diretores assediam educadores e todos estão girando, acotovelando-se, competindo para saber quem é mais burro, vigiando os passos, aparelhando as falas.

A escola é um lugar horrível!

A escola é tão ruim e continua sendo tão ruim que não se permite sequer a livre circulação. Não temos professores, temos carcereiros.

Na escola não há clima propício à aprendizagem. Os funcionários, são, em sua grande maioria, aparelhos ideológicos.

Pseudo educador tem de deixar a escola e frequentar outro espaço, como por exemplo, igreja evangélica.

Paus no cu!

E como cantam os punks:

Abre aspas
Nas escolas onde a cultura é inútil, nos ensinam apenas a sentar e calar a boca, para sermos massacrados pelo discurso reacionário de professores marionetes comandados pelos estado.
Fecha aspas


7.12.16

sociedade sem escolas


dois

A educação integral não significa passar oito horas em um colégio sob tutela de pedagogos autoritários. É outra coisa: é ocupar-se de sua própria educação para, em princípio, fundar uma sociedade livre e igualitária.

A verdadeira educação deve ser livre, não coercitiva.


6.12.16

sociedade sem escolas


um

Estudar tendo como única motivação ser aprovado em vestibular trata-se de condicionamento cultural praticado por demagogos à serviço do establishment. As pseudos aulas de gramática, a falta da prática de leitura, a desinformação de professores formam, sistematicamente, a juventude para a passividade. Gerações e mais gerações.

O vestibular está a serviço de excluir, censurar, marginalizar a parcela da juventude mais radical. Assim servem os concursos para os ativistas de esquerda.

Não se instrui para a criação.



5.12.16

drug me


Quem reduz a cultura punk à existência alcoolizada é um ignorante. Desconhece a música de protesto, a filosofia anarquista, o princípio de autonomia do faça você mesmo, a história da contrainformação por meio do fanzine, o ciberativismo, a educação libertária e a camaradagem.

Reduzir o punk à existência alcoolizada faz parte daquilo que conhecemos como preguiça mental. Desconhecer o movimento alternativo e relacioná-lo às bandas que mais lembram programas de televisão como Hermes e Renato mostra total falta de leitura da cultura.

E eu nem vou pedir desculpas pela sinceridade.


3.12.16

forjando a cultura da classe operária


[...]

Não foi uma contribuição europeia que promoveu o movimento trabalhista americano, bem pelo contrário. Mas, quero dizer, essas eram simplesmente reações naturais: não se precisava ter nenhum preparo para entender essas coisas, não era preciso ter lido Marx, nem nada assim. É só que é degradante ter de seguir ordens e ver-se preso a um lugar onde se trabalha como escravo durante doze horas e então ir para um dormitório onde vigiam seu comportamento moral e assim por diante – que é como a coisa era. As pessoas simplesmente encaravam isso como algo degradante. 

Era a mesma coisa com os artesãos, pessoas que trabalhavam por conta própria e então estavam sendo forçadas a trabalhar nas fábricas – elas queriam poder dirigir suas próprias vidas, isto é, sapateiros contratavam pessoas a fim de ler para eles – e isso não significava ler Stephen King, ou algo do gênero, significava ler para valer. Essas eram pessoas que tinham bibliotecas, e elas queriam viver suas vidas, queriam controlar o próprio trabalho, mas estavam sendo forçadas a trabalhar em fábricas de sapatos em lugares como Lowell, onde sequer eram tratados como animais, mas como máquinas. E isso era degradante e humilhante – e elas lutaram contra isso. E, aliás, estavam lutando contra esse sistema de coisas não tanto porque ele reduzisse seu nível econômico, o que não acontecia (na verdade, provavelmente o estava elevando) – era porque ele lhes estava tirando o poder das mãos e subordinando-as a outras pessoas e transformando-as em meras ferramentas de produção. E isso elas não queriam. 

Na verdade, se vocês quiserem ler algo realmente interessante, um livro que eu sugeriria é o primeiro que foi escrito sobre a história do trabalhismo – o primeiro mesmo, eu acho. Saiu em 1924 e acaba de ser reeditado em Chicago: chama-se The Industrial Worker, de Norman Ware, e consta principalmente de excertos da imprensa trabalhista independente dos Estados unidos de meados do século XIX. Vejam, havia uma grande imprensa trabalhista independente nos Estados Unidos nessa época – era mais ou menos na escala da imprensa capitalista, na verdade – e era dirigida pelas chamadas “operárias” ou por artesãos. E é extremamente interessante de se ler. 

Em pleno século XIX, os trabalhadores nos Estados Unidos estavam lutando contra a imposição do que descreviam como “degradação”, “opressão”, “escravidão do salário”, ‘privar-nos de nossos direitos elementares”, tudo que hoje chamamos de capitalismo moderno (que é na verdade o capitalismo de Estado) foi combatido por eles durante um século inteiro – e muito encarniçadamente; essa foi uma luta extremamente dura. E estavam lutando por “republicanismo trabalhista” – vocês sabem: “Vamos voltar ao tempo em que éramos gente livre.” “Trabalho” significa apenas “gente”, afinal de contas. 

E, de fato, eles estavam lutando também contra a imposição do sistema de educação pública em massa – e com muita razão, porque entendiam exatamente o que isso significava: uma técnica para arrancar à força a independência da cabeça dos agricultores e transformá-los em operários fabris dóceis e obedientes. Foi por isso que, no final de contas, a educação pública foi instituída nos Estados Unidos, para início de conversa: para atender às necessidades da indústria emergente. Vejam, parte do processo de tentar desenvolver uma força de trabalho degradada e obediente era tornar os operários burros e passivos, e a educação em massa era um dos meios pelos quais isso era alcançado. E, é claro, havia também um esforço muito mais amplo para destruir a cultura intelectual independente da classe operária, que havia se desenvolvido, e que ia do total uso da força até técnicas mais sutis, como propaganda e campanhas de relações públicas. 

E esses esforços na verdade se conservavam até os dias de hoje. Então, sindicatos trabalhistas foram praticamente liquidados nos Estados Unidos, em parte por uma enorme quantidade de propaganda empresarial, que ia do cinema e quase tudo, e passando por vários outros meios também. Mas o processo todo levou muito tempo – tenho idade suficiente para me lembrar de como era a cultura da classe operária nos Estados Unidos: ainda existia um alto nível dela quando eu estava crescendo, no final dos anos 1930. Levou muito tempo para arrancá-la da cabeça dos operários e transformá-los em ferramentas passivas; levou muito tempo para fazer as pessoas aceitarem que esse tipo de exploração é a única alternativa, e então era melhor simplesmente esquecerem sobre seus direitos e dizerem; “Está bem, sou um degradado.” 

Então, a primeira coisa que tem de acontecer, eu acho, é termos de recuperar parte dessa antiga compreensão. Isto é, tudo começa com mudanças culturais. Temos que desmantelar esse negócio todo culturalmente: temos que mudar a mente das pessoas, seu espírito e ajuda-las a recuperar o que era de entendimento comum em um período mais civilizado, como um século atrás nos galpões das fábricas de Lowell. Se esse tipo de entendimento podia ser natural entre uma grande parte da população em geral no século XIX, pode voltar a ser natural agora. E é algo em que temos realmente de trabalhar hoje.

Noam Chomsky
Tradução: Eduardo F. Alves


2.12.16

até quando?


Hoje me levantei,
fui trabalhar em mais dois desenhos
terminei a leitura de um artigo de Carlos Fico
jantei e me preparo para dormir.

No entanto, Rafael Braga
passou outro dia preso injustamente.



30.11.16

intelectuais e mudança social




The real nazis run your schools
Dead Kennedys

[...]

A verdadeira educação significa conseguir fazer as pessoas pensarem por si próprias - e este é um negócio complicado de se saber como fazer bem, mas que claramente exige que, seja o que for a que você esteja visando, tem de alguma forma capturar o interesse das pessoas e fazer com que elas queiram pensar, buscar e explorar.

As escolas premiam disciplina e obediência, e castigam a independência da mente. Se calha de você ser um pouco inovador, ou talvez você tenha se esquecido de ir à escola um certo dia, porque estava lendo um livro, ou algo assim, isso é uma tragédia, é um crime - porque você não deve pensar, deve obedecer e simplesmente continuar percorrendo as matérias do modo que for exigido.

E, de fato, a maioria das pessoas que conseguem passar pelo sistema de educação e chegam às universidades de elite conseguem isso porque mostraram-se dispostas a obedecer a um monte de ordens idiotas durante anos a fio - foi assim que eu consegui, por exemplo. É o seguinte: se algum professor idiota lhe diz "Faça isto", que você sabe ser algo que não faz o menor sentido, mas você obedece e faz, e então você passa para o degrau seguinte, e então obedece à ordem seguinte, e finalmente você consegue chegar ao fim, e eles lhe dão créditos: uma parcela horrível da educação é assim, desde o comecinho. Algumas pessoas seguem em frente com isso, porque eles calculam: "Tudo bem, farei qualquer coisa idiota que esse bundão mandar, porque eu quero seguir adiante"; outros o fazem porque simplesmente internalizaram os valores - mas depois de algum tempo essas duas coisas tendem a se confundir um pouco. Mas você faz, senão está fora: faça perguntas demais e vai se meter em encrenca.
Noam Chomsky

Trad.: Eduardo F. Alves


29.11.16

microfísica do poder


I

Eu nunca precisei de preceitos religiosos e metafísicos para existir. Quem me diz o contrário tem em mente o controle e a submissão.


26.11.16

Bonaventure


e nossos amigos de Oléron

[...]

Bonaventure, belo nome para um percurso educativo, estava situada na ilha de Oléron, uma singular escola em uma pequena ilha que funcionou de setembro de 1993 a junho de 2001 com, em média, uma dúzia de crianças por ano, ou seja, uma frequentação de 50 a 60 crianças. Era uma associação amparada na lei de 1901, que escolarizava as crianças de 3 a 11 anos, do maternal à entrada no colégio.

Ela era definida como uma experiência de educação 

para e pela liberdade, igualdade, apoio mútuo, autogestão e cidadania [...] brandindo alto e luminosa a bandeira da laicidade, da gratuidade, de um financiamento social, da propriedade coletiva, da igualdade de salários.
Hugues Lenoir


24.11.16

acts of literature


Jacques Derrida
Trad.: Marileide Dias

[...]

O que chamamos de literatura pressupõe que seja dada licença ao escritor para dizer tudo o que queira ou tudo o que possa, permanecendo, ao mesmo tempo, protegido de toda censura, seja religiosa ou política.

[...]

Nossa tarefa talvez seja indagar por que tantas obras e sistemas de pensamento poderosos deste século têm sido o lugar de "mensagens" filosóficas, ideológicas e políticas que são às vezes conservadoras (Joyce), às vezes brutal e diabólicamente homicidas, racistas, antissemitas (Pound, Céline), outras vezes equivocadas e instáveis (Artaud, Bataille).


23.11.16

chopin na cadeira elétrica


[Chroma | 2015]
Abre aspas 
O lema dos cyberpunks é: a informação deve ser livre. Desconfie das autoridades, lute contra o poder; coloque barulho no sistema, surfe essa fronteira, faça você mesmo. 
Fecha aspas