21.11.17

quanta hipocrisía


O país passando por uma crise absurda de representação, praticamente a beira de um abismo, controlado por um presidente ilegítimo e descerebrado e vocês preocupados com o Natal. 

Para o que sobrou de lixo nacional não há nenhuma possibilidade de reciclagem. 

Deve ser muito milagre. 
Só pode: só deve ser.


20.11.17

la colmena

Sébastien Faure | 1858 - 1942


Tal es, sin embargo, el Dios que desde tiempos inmemoriales se ha enseñado y que, en nuestros días todavía, se enseña a una multitud de niños en numerosas familias y escuelas. Qué de crímenes han sido cometidos en su nombre!

Qué de ódios, de guerras, de calamidades han sido desencadenadas furiosamente por sus representantes! Este Dios. De cuántos sufrimientos es origen! Cuántos males todavía engendra!

Desde hace siglos, la Religión tiene curvada a la humanidad bajo el temor, incrustada en la superstición, postrada en la resignación. No amanecerá, pues, jamás el día en que, dejando de creer en la justicia eterna, en sus decretos imaginarios, en sus reparaciones problemáticas, los humanos trabajarán, con ardor incansable, por el advenimientos sobre la tierra de una Justicia inmediata, positiva y fraternal? No sonará nunca la hora en que fatigados de los consuelos y de las esperanzas falaces que les sugiere la creencia en un paraíso compensador, los humanos harán de nuestro planeta un Éden de abundancia, de paz y libertad, cuyas puertas estarán abiertas fraternalmente a todos?

Durante demasiado tiempo, el contrato social se ha inspirado en un Dios sin justicia; es ya hora de que se inspire en una justicia sin Dios. Durante demasiado tiempo, las relaciones entre las naciones y los individuos han derivado de un Dios sin filosofía; tiempo es ya de que procedan de una filosofía sin Dios. Desde hace siglos, monarcas, gobernantes, castas y cleros, conductores de pueblos, directores de conciencias, tratan a la humanidad como vil rebaño, bueno tan sólo para ser esquilado, devorado, arrojado a los mataderos. Desde hace siglos, los desheredados soportan pasivamente la miseria y la servidumbre, gracias al espejismo engañoso del cielo y a la visión horrífica del Infierno. Hay que poner fin a este odioso sortilegio, a este abominable engaño.

Oh!, tú que me escuchas, abre los ojos, contempla, observa, comprende. El cielo del que sin cesar te hablan, el cielo con ayuda del cual se intenta insensibilizar tu miseria, anestesiar tu sufrimiento y ahogar la queja que, a pesar de todo, se exhala de tu pecho, es cielo irreal y desierto. Sólo tu infierno está poblado y es positivo.

Basta de lamentaciones: las lamentaciones son vanas. Basta de posternaciones: las posternaciones son estériles. Basta de rezos: los rezos son impotentes.

Yérguete, oh, hombre! Y, en pie, enardecido, rebelado, declara una guerra implacable al dios del que, durante tanto tiempos, se ha impuesto a tus hermanos y a ti mismo la embrutecedora veneración.

Libérate de este tirano imaginario y sacude el yugo de aquellos que pretenden ser sus agentes de negocios en la tierra. Pero no olvides que, una vez hecho este primer gesto de liberación no habrás realizado más que una parte de la tarea que te incumbe.

No olvides que de nada de servirá romper las cadenas que los Dioses imaginarios, celestes y eternos, han forjado contra ti, si no rompes también aquellos que contra ti han forjado los Dioses pasajeros y positivos de la tierra. Estos Dioses merodean en tu torno, buscando la forma de someterte por el hambre a servidumbre eterna. Estos Dioses no son más que hombres como tú. Ricos y Gobernantes, estos Dioses de la tierra la han poblado de innumerables víctimas, de inexpresables tormentos.

Ojalá puedan los condenados de la tierra rebelarse al fin contra estos forajidos y fundar una Ciudad en la que semejantes monstruos no sean ya posibles.

Cuando hayas expulsados a los dioses del cielo y de la tierra; cuando te haya liberado de los Amos de arriba y de los Amos de abajo; cuando hayas realizado este noble gesto de liberación, entonces, y solamente entonces, oh, hermano mío, te habrás evadido de tu inferno y habrás conquistado tu cielo.


17.11.17

adendo



Na Cult de outubro, Marcia Tiburi escreve um texto intitulado: Aula como experiência revolucionária. Título bonito. E há um subtítulo: o esvaziamento da profissão de professor é consequência inevitável da desvalorização do trabalho educacional.

Concordo com grande parte do texto da escritora. Mas há dois pontos que precisam de revisão. O primeiro é que, segundo a filósofa, "professores são trabalhadores como quaisquer outro". Em verdade, não são não. Até porque, se há uma desvalorização do trabalho educacional porque outras profissões não estão nem em risco de serem desvalorizadas? Se os professores fossem trabalhadores como quaisquer outros todas as outras profissões seriam desvalorizadas. Tiburi comete uma generalização que foge do pensamento filosófico. O segundo ponto é quando ela diz que "a dedicação é de corpo e alma". O que se tem aqui é uma visão missionária.

Se os professores soubessem orientar seus pupilos por meio de bibliografias alternativas estaríamos dando um grande salto de qualidade. Penso que essa é a grande atividade de um professor. Saber manipular sua caixa de ferramentas, nesse caso, os livros. Mas muitos professores sequer se preocupam com o aspecto bibliográfico.

No mais, o que se tem são professores que, segundo a pensadora, são "tratados como objetos de um sistema que os utiliza como meios para alcançar objetivos econômicos, políticos e ideológicos".

Já os professores críticos, tornam-se um perigo.


sem mais para o momento


abro aspas

El devenir del siglo después de Mayo del 68 no muestra tanto el resurgimiento del humanismo, la revalorización de la persona o la redefinición de un nuevo individualismo, como el repligue identitario y tribal, egocéntrico y solipsista a la espera de los cambios radicales del mundo. Mayo del 68 fue un crujido sintomático, como el que se percibe en la tectónica de las placas, que anunciaba un desplazamiento de su superficie y una encrucijada para el capitalismo [...]

En cambio, continua o escritor, el capitalismo ha formulado su tipo ideal con la figura, anunciada por Marcuse, del hombre unidimensional, variación sobre el tema del hombre calculable, que propuso Nietzsche. Conocemos su retrato: iletrado, inculto, codicioso, limitado, obediente a las consignas de la tribu, arrogante, seguro de sí mismo, dócil, débil con los fuertes, fuerte con los débiles, simple, previsible, aficionado empedernido a los juegos y los estadios, devoto del dinero y sectario de lo irracional, profeta especializado en banalidades, en ideas mezquinas, tonto, ingenuo, narcisista, egocéntrico, gregario, consumista, consumidor de las mitologías del momento, amoral, carente de memoria, racista, cínico, sexista, misógino, conservador, reaccionario, oportunista y portador, además, de ciertos rasgos de la misma índole que los que definen un fascismo ordinario. Es un socio ideal para desempeñar primero su papel en el vasto teatro del mercado nacional y luego en el mundial. Éste es el sujeto cuyos méritos, valores y talento se nos alaba hoy.

Fecha aspas.


campo conservador


Diante do reacionarismo moral 
misturado com ignorância 
de parte da "nova direita do país",
eu poderia dizer, mas vou desenhar:



15.11.17

völkisch


A amnésia histórica é um fenômeno perigoso, não só porque mina a integridade moral e intelectual, mas também porque prepara o terreno e estabelece as bases para crimes que ainda estão por vir.

O racismo na nossa cultura literária sempre foi uma obscenidade asquerosa. Foi muito mais fácil erradicar a polimielite do que essa horrível praga, que frequentemente se torna mais virulenta em tempos de apuros econômicos.

N. Chomsky


13.11.17

cultura muerta


Eu não sei quanto a vocês, mas estas músicas da massa, por suas cretinices e letras vazias de sentido, já se tornaram insuportáveis.


11.11.17

dialética do esclarecimento


Adorno & Horkheimer



A indústria cultural faz o espectador rir de fatos de que não há nada de que se rir.


O logro [...] não está em que a indústria cultural proponha diversões, mas no fato de que ela estraga o prazer com o envolvimento de seu tino comercial nos clichês ideológicos da cultura em vias de se liquidar a si mesma. [...] A indústria cultural está corrompida, mas não como uma Babilônia do pecado, e sim como catedral do divertimento de alto nível.

[...]

Divertir significa sempre: não ter que pensar nisso, esquecer o sofrimento até mesmo onde ele é mostrado. A impotência é a sua própria base. É na verdade uma fuga, mas não, como afirma, uma fuga da realidade ruim, mas da última ideia de resistência que essa realidade ainda deixa subsistir. A liberação prometida pela diversão é a liberação do pensamento como negação. O descaramento da pergunta retórica: "Mas o que é que as pessoas querem?" consiste em dirigir-se às pessoas como sujeitos pensantes, quando sua missão específica é desacostumá-la da subjetividade. Mesmo quando o público se rebela contra a indústria cultural, essa rebelião é o resultado lógico do desamparo para o qual ela própria o educou.

[...]

Na era da estatística, as massas estão muito escaldadas para se identificar com o milionário na tela, mas muito embrutecidas para se desviar um milímetro sequer da lei do grande número.

[...]

A indústria cultural realizou maldosamente o homem como ser genérico.

[...]

As reportagens detalhadas sobre as viagens tão brilhantes e tão modestas do feliz ganhador do concurso organizado pela revista - de preferência uma datilógrafa que provavelmente ganhou o concurso graças a suas relações com as sumidades locais - refletem a impotência de todos. Eles não passam de um simples material, a tal ponto que os que dispõem deles podem elevar um deles aos céus para depois jogá-lo fora: que ele fique mofando com seus direitos e seu trabalho. A indústria só se interessa pelos homens como clientes e empregados e, de fato, reduziu a humanidade inteira, bem como cada um de seus elementos, a essa fórmula exaustiva. Conforme o aspecto determinante em cada caso, a ideologia dá ênfase ao planejamento ou ao acaso, à técnica ou à vida, à civilização ou à natureza. Enquanto empregados, eles são lembrados da organização racional e exortados a se inserir nela com bom senso. Enquanto clientes, verão o cinema e a imprensa demonstrar-lhes, com base em acontecimentos da vida privada das pessoas, a liberdade de escolha, que é o encanto do incompreendido. Objetos é que continuarão a ser em ambos os casos.

Quanto menos promessas a indústria cultural tem de fazer, quanto menos ela consegue dar uma explicação da vida como algo dotado de sentido, mais vazia torna-se necessariamente a ideologia que ela difunde. Mesmo os ideais abstratos da harmonia e da bondade da sociedade são demasiado concretos na era da propaganda universal. Pois as abstrações são justamente o que aprendemos a identificar como propaganda. A linguagem que apela apenas à verdade desperta tão somente a impaciência de chegar logo ao objetivo comercial que ela na realidade persegue. A palavra que não é simples meio para algum fim parece destituída de sentido, e as outras parecem simples ficção, inverdade. Os juízos de valor são percebidos ou como publicidade ou como conversa fiada. A ideologia assim reduzida a um discurso vago e descompromissado nem por isso se torna mais transparente e, tampouco, mais fraca. Justamente sua vagueza, a aversão quase científica a fixar-se em qualquer coisa que não se deixe verificar, funciona como instrumento da dominação. [...] A indústria cultural tem a tendência de se transformar num conjunto de proposições protocolares e, por isso mesmo, no profeta irrefutável da ordem existente. [...] A ideologia fica cindida entre a fotografia de uma vida estupidamente monótona e a mentira nua e crua sobre o seu sentido, que não chega a ser proferida, é verdade, mas, apenas sugerida, e inculcada nas pessoas.

[...]

o pão com que a indústria cultural alimenta os homens continua a ser a pedra da estereotipia.

[...]

Ninguém tem que se responsabilizar oficialmente pelo que pensa. Em compensação, cada um se vê desde cedo num sistema de igrejas; clubes, associações profissionais e outros relacionamentos, que representam o mais sensível instrumento de controle social.

[...]

Na verdade, faz parte do planejamento irracional dessa sociedade reproduzir sofrivelmente tão somente as vidas de seus fiéis.

[...]

O cinema torna-se efetivamente uma instituição de aperfeiçoamento moral. As massas desmoralizadas por uma vida submetida à coerção do sistema, e cujo único sinal de civilização são comportamentos inculcados à força e deixando transparecer sempre sua fúria e rebeldia latentes, devem ser compelidas à ordem pelo espetáculo de uma vida inexorável e da conduta exemplar das pessoas concernidas. A cultura sempre contribuiu para domar os instintos revolucionários, e não apenas os bárbaros. A cultura industrializada faz algo a mais. Ela exercita o indivíduo no preenchimento da condição sob a qual ele está autorizado a levar essa vida inexorável. O indivíduo deve aproveitar seu fastio universal como uma força instintiva para se abandonar ao poder coletivo de que está enfastiado. [...] A sociedade é uma sociedade de desesperados e, por isso mesmo, a presa de bandidos.

[...] Todos tornaram-se empregados e, na civilização dos empregados, desapareceu a dignidade (aliás duvidosa) do pai. O comportamento do indivíduo com relação ao crime organizado - seja no negócios, na profissão ou no partido, seja antes ou depois da admissão -, a gesticulação do Führer diante da massa, do homem enamorado diante da mulher cortejada, assumem traços peculiarmente masoquistas. A postura que todos são forçados a assumir, para comprovar continuamente sua aptidão moral e integrar essa sociedade, faz lembrar aqueles rapazinhos que, ao serem recebidos na tribo sob as pancadas dos sacerdotes, movem-se em círculos com um sorriso estereotipado nos lábios. A vida no capitalismo tardio é um contínuo rito de iniciação. Todos têm de mostrar que se identificam integralmente com o poder de quem não cessam de receber pancadas. [...] A voz do eunuco do crooner a cantar no rádio, o galã bonitão que, ao cortejar a herdeira, cai dentro da piscina vestido de smoking, são modelos para as pessoas que devem se transformar naquilo que o sistema, triturando-as, força-as a ser. [...] Mas o milagre da integração, o permanente ato de graça da autoridade em acolher o desamparado, forçado a engolir sua renitência, tudo isso significa o fascismo.

[...]

Na indústria, o indivíduo é ilusório não apenas por causa da padronização do modo de produção. Ele só é tolerado na medida em que sua identidade incondicional com o universal está fora de questão. [...] As particularidades do eu são mercadorias monopolizadas e socialmente condicionadas, que se fazem passar por algo de natural. [...] A pseudoindividualidade é um pressuposto para compreender e tirar da tragédia sua virulência: é só porque os indivíduos não são mais indivíduos, mas sim meras encruzilhadas das tendências do universal, que é possível reintegrá-los totalmente na universalidade. A cultura de massas revela assim o caráter fictício que a forma do indivíduo sempre exibiu na era da burguesia, e seu único erro é vangloriar-se por essa duvidosa harmonia do universal e do particular. [...] Todo personagem burguês exprimia, apesar de seu desvio e graças justamente a ele, a mesma coisa: a dureza da sociedade competitiva. O indivíduo, sobre o qual a sociedade se apoiava, trazia em si mesmo sua mácula; em sua aparente liberdade, ele era o produto de sua aparelhagem econômica e social. O poder recorria às relações de poder dominantes quando solicitava o juízo das pessoas a elas submetidas. Ao mesmo tempo, a sociedade burguesa também desenvolveu, em seu processo, o indivíduo. Contra a vontade de seus senhores, a técnica transformou os homens de crianças em pessoas. Mas cada um desses progressos da individuação se fez à custa da individualidade em cujo nome tinha lugar, e deles nada sobrou senão a decisão de perseguir apenas os fins privados. O burguês cuja vida se divide entre o negócio e a vida privada, cuja vida privada se divide entre a esfera da representação e a intimidade, cuja intimidade se divide entre a comunidade mal humorada do casamento e o amargo consolo de estar completamente sozinho, rompido consigo e com todos, já é virtualmente o nazista que ao mesmo tempo se deixa entusiasmar e se põe a praguejar, ou o habitante das grandes cidades de hoje, que só pode conceber a amizade como social contact, como o contrato social de pessoas que não se tocam intimamente.

[...]

O Führer ordena de maneira mais moderna e sem maior cerimônia tanto o holocausto quanto a compra de bugigangas.

[...]

Na indústria cultural, desparecem tanto a crítica quanto o respeito: a primeira transforma-se na produção mecânica de laudos periciais, o segundo é herdado pelo culto desmemoriado da personalidade.


[...] o sistema de prêmios já se sedimentou no comportamento dos consumidores. Na medida em que a cultura se apresenta como um brinde, cujas vantagens privadas e sociais no entanto estão fora de questão, sua recepção converte-se no aproveitamento de chances. Os consumidores se esforçam por medo de perder alguma coisa. O quê - não está claro, de qualquer modo só tem chance quem não se exclui. O fascismo, porém, espera reorganizar os recebedores de dádivas, treinados pela indústria cultural, nos batalhões regulares de sua clientela compulsiva.


ditadura Vargas incinerou em praça pública 1.640 livros de Jorge Amado

1912-2001


Em novembro de 1937, militares baianos queimaram, a mando de Getúlio Vargas, centenas de livros de Jorge Amado onde hoje é a Praça Cayru, na Avenida Contorno

Jorge Ramos 
Especial para o CORREIO

Perplexas, centenas de pessoas se aglomeraram em frente à Escola de Aprendizes de Marinheiros, em Salvador, no fim da tarde daquela sexta-feira - 19 de novembro de 1937 - para assistir a um espetáculo inusitado. Em frente ao que hoje é a sede do Segundo Distrito Naval, na Avenida Contorno, uma grande fogueira de livros ardia, grossos rolos de fumaça escureciam o céu e um forte cheiro de papel queimado se espalhava pelas imediações da parte baixa do Elevador Lacerda e atingia até mesmo a parte alta, a Praça Municipal, a Rua Chile e a Praça da Sé.

Não era um incêndio comum, mas a queima de 1.827 livros considerados “propagandistas do credo vermelho”, como eram chamados pelos militares que, nos dias anteriores, tinham percorrido as livrarias da cidade e apreendido quantos exemplares encontraram. Entre os livros que viraram cinzas naquela tórrida tarde primaveril em Salvador, 1.694 - mais de 90% - eram de autoria de um jovem jornalista e escritor baiano: Jorge Amado.

Os militares baianos cumpriam ordens do interventor recém-nomeado para a Bahia, o coronel Antônio Fernandes Dantas, comandante da VI Região Militar. O episódio gerou curiosamente uma ata, que foi publicada quase um mês depois da fogueira literária pelo jornal Estado da Bahia, de propriedade dos Diários Associados, do magnata da imprensa Assis Chateubriand. O documento (veja reprodução ao lado) serve para demonstrar o quanto havia de intolerância e forte tensão naqueles anos que antecederam a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Sob a lupa da repressão estavam os ideais do jovem Jorge.

Oprimidos

Então com 25 anos, ele já conquistara notoriedade como autor de uma temática fortemente social, de romances considerados “proletários”. Jorge Amado expunha as mazelas do capitalismo, a exploração do trabalho pelo capital e a luta de classes, dissecados em meio a uma saborosa prosa de feição modernista, nas quais exaltava, ao mesmo tempo, a sensualidade do povo baiano, suas crenças e tradições, o folclore e a cultura popular.

Jorge Amado começava a se destacar internacionalmente com a tradução de seus livros, inicialmente para países da América Latina. E era, justamente por isso, um dos mais visados entre os intelectuais brasileiros. Esquerdista, 
ele já tinha sido preso no ano anterior pela polícia política de Getúlio Vargas, na repressão que se seguiu à Intentona Comunista, levante militar promovido pelo proscrito Partido Comunista Brasileiro (PCB) no Rio de Janeiro, antecedido por iguais sedições em Natal e Recife, movimentos revoltosos duramente reprimidos.

Colegas

Além dos militantes comunistas, passaram a ser perseguidos na época muitos jornalistas e escritores, poetas e artistas engajados na oposição a Getúlio Vargas, fossem ou não filiados ao PCB. Exemplo de José Lins do Rego, escritor paraibano que não era comunista, e até nutria simpatias pelo integralismo, mas teve vários de seus livros, como Menino de Engenho, arrastados para a fogueira.

Além de Jorge Amado, foram presos naquele ano o líder do PCB, Luiz Carlos Prestes, e a mulher dele, Olga Benário, o militar Agildo Barata, o jornalista Aparício Torelly (o “Barão de Itararé”), o advogado Hermes Lima e o escritor Graciliano Ramos, que retratou magistralmente a saga que vivera no clássico Memórias do Cárcere, onde está uma frase lapidar, que simboliza o eterno conflito entre a liberdade intelectual e o poder discricionário: “Começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social”.

Censura

A perseguição às obras de Jorge Amado não era novidade. Desde cedo ele sentiu a mão pesada da censura. Cacau, lançado em 1933, esteve ameaçado de não ter a publicação autorizada pelo governo Vargas. Liberado graças a intervenções de amigos, vendeu em um mês dois mil exemplares, fato que catapultou o autor para a fama. A sua ficção, tida como subversiva, lhe rendeu processos, a prisão e, mais tarde, o exílio.

Estava preso quando da publicação de Mar Morto, em 1936. Novamente detido em 1937, poucos dias antes da instalação da ditadura do Estado Novo, foi na prisão que soube da queima de seus livros em praça pública, entre os quais o recém-lançado Capitães da Areia, que retrata o submundo em que viviam os hoje chamados meninos de rua.

Exatos nove dias antes da incineração, o presidente Getúlio Vargas dera um golpe de Estado: fechou o Congresso Nacional, assembleias legislativas e câmaras municipais em todo o país. Extinguiu também todos os partidos políticos, nomeou interventores para substituir os governadores eleitos, instituiu a censura à imprensa e ordenou a prisão de “elementos comunistas”.

Era a ditadura do Estado Novo, que outorgou uma nova Constituição, de cunho marcadamente fascista, e pôs o Brasil em Estado de Guerra, com a supressão de direitos civis e liberdades democráticas, perseguindo ferozmente quem professasse a ideologia comunista. Ou apenas simpatizasse e até mesmo tivesse publicado algo que pudesse ser entendido como de tendência esquerdista. E foi assim que a literatura de Jorge virou fogueira em praça pública.


10.11.17

dialética do esclarecimento


Sequestraram o cérebro do espectador 
e não deram notícia.

Proibiram a atividade intelectual
pra vender um condicionamento
com design de quatro rodas.


9.11.17

Inconvenientes en los servicios públicos




Vea lo que pasa cuando se confía en los cronopios. Apenas lo habían nombrado Director General de Radiodifusión, este cronopio llamó a unos traductores de la calle San Martín y les hizo traducir todos los textos, avisos y canciones al rumano, lengua no muy popular en la Argentina.

A las ocho de la mañana los famas empezaron a encender sus receptores, deseosos de escuchar los boletines así como los anuncios del Geniol y del Aceite Cocinero que es de todos el primero.

Y los escucharon, pero en rumano, de modo que solamente entendían la marca del producto. Profundamente asombrados, los famas sacudían los receptores pero todo seguía en rumano, hasta el tango Esta noche me emborracho, y el teléfono de la Dirección General de Radiodifusión estaba atendido por una señorita que contestaba, con lo cual se fomentabaa una confusión padre.

Enterado de esto el Superior Gobierno mandó fusilar al cronopio que así mancillaba las tradiciones de la patria. Por desgracia el pelotón estaba formado por cronopios conscriptos, que en vez de tirar sobre el ex Director General lo hicieron sobre la muchedumbre congregada en la Plaza de Mayo, con tan buena puntería que bajaron a seis oficiales de marina y a un farmacéutico. Acudió un pelotón de famas, el cronopio fue debidamente fusilado, y en su reemplazo se designó a un distinguido autor de canciones folklóricas y de un ensayo sobre la materia gris. Este fama restableció el idioma nacional en la radiotelefonía, pero pasó que los famas habían perdido la confianza y casi no encendían los receptores. Muchos famas, pesimistas por naturaleza, habían comprado diccionarios y manuales de rumano, así como vidas del rey Carol y de la señora Lupescu. El rumano se puso de moda a pesar de la cólera del Superior Gobierno, y a la tumba del cronopio iban furtivamente delegaciones que dejaban caer sus lágrimas y sus tarjetas donde proliferaban nombres conocidos un Bucarest, ciudad de filatelistas y atentados.


Julio Cortázar
Mayo de 1962


8.11.17

poema


La exaltación de dios
y la divinización del hombre
no han producido realmente otra cosa
que alienación y sometimiento,
empobrecimento,
menoscabo de los indivíduos,
su sacrifício en los altares
de leviatanes multiplicados.

os limites da utopia



Distopias infestam os relatórios oficiais.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas [IPCC, na sigla em inglês] demanda uma redução nas emissões em um terço para que se evite o desastre absoluto. A KPMG, na ladainha blindada de powerpointês corporativo, vê o mesmo horizonte. A NASA participa de um relatório alertando que o colapso civilizatório sistêmico “dificilmente será evitado”.

Podemos discutir as versões da mensagem, mas não seu conteúdo: o fim de todas as coisas está aí, à vista de todos.

O fedor e a cacofonia de cidades envenenadas, lúgubres bunkers subterrâneos, paisagens cinzentas… A degradação é a má consciência da melhora, a rejeição da distopia é parte integral da tradição utópica. Nós ansiamos e alertamos, nossos melhores e piores sonhos lado a lado contra o presente.

Se vacilarmos, teremos uma Terra ressecada, fria, quente, e morta. Se acertarmos? Existem pré-sonhos equivalentes a vidas inteiras de Novos Édens, de le Guin, Piercey, e vários outros, remontando à visão que Lactâncio, quase dois milênios atrás em Instituições Divinas, chamou de “Mundo Renovado”:

“a terra se abrirá em riquezas, oferecendo livremente os mais abundantes frutos; mel verterá das montanhas rochosas; córregos de vinho fluirão, assim como rios de leite; em suma, o mundo em si e toda a natureza regozijar-se-ão, vendo-se resgatados e libertos do domínio do mal e da impiedade, da culpa e do erro.”

Para Lactâncio, assim como para todas as utopias, não se trata apenas do mundo, mas da humanidade. O mundo regozijar-se-á porque finalmente seremos capazes de habitá-lo, livres do mal e da impiedade e da culpa e do erro com os quais o arrasamos. A relação entre a humanidade e o que agora chamamos “meio ambiente” será curada.

Mas uma tradição tão rica não preveniu que incontáveis ambientalismos falhassem, não apenas em suas tentativas de mudar o mundo, mas de mudar a agenda de mudança do mundo.

Nós que queremos outra Terra, uma Terra melhor, nos orgulhamos (o que é compreensível) por manter alternativas vivas nesta época que pune o mero pensamento de mudança. Nós precisamos de utopias. Isso é dado por certo no ativismo. Se uma alternativa a este mundo é inconcebível, como poderíamos mudá-lo?

Mas a utopia tem seus limites, a utopia pode ser tóxica.

O desespero custa caro, é certo. Mas também devemos nos perguntar quanto pagamos pela esperança.

Em 1985 o governo municipal de Los Angeles anunciou a construção de um incinerador na região centro-sul da cidade, um ano depois de a autoridade de administração de lixo da Califórnia ter pago meio milhão de dólares em dinheiro público à firma de consultoria Cerrell Associates para decidir onde construir tão controversa instalação. O Relatório Cerrell é um manual, um guia listando as características do “perfil de menor resistência”. Mire nos menos escolarizados, ele aconselha. Nos idosos. “Comunidades de um estrato socioeconômico médio e superior”, ele recomenda, “não devem estar dentro dos raios de uma a cinco milhas do local sugerido”.

Mire nos pobres.

Não surpreende que essa seja a estratégia. O que espanta é que eles a admitam. A vontade é de responder: “Vocês sabem que a gente está ouvindo, né?”

No caso a comunidade local resistiu, e com sucesso. Mas os chamados “Big Green” – os maiores grupos de ativismo ecológico, como Sierra Club, Friends of the Earth, Natural Resources Defense Council, Wilderness Society, e outros – recusaram o convite para se juntar à campanha. Segundo eles, não se tratava de uma questão ambiental, mas de “saúde comunitária”.

As falácias do Big Green. Partindo de heurísticas como rural e urbano, natural e social, fica fácil se tornar cúmplice (ou pior) de injustiça ambiental, de racismo, quando deparado com o poder opressor. Esse utopianismo urbofóbico simplista pode agregar desde os mais nostálgicos conservadores buscando refúgio em uma área de conservação até os mais extrópicos pós-hippies de alguma eco-startup.

Para Lactâncio, caberia a Deus restaurar a natureza ferida. Mas vivemos em uma era (de certa forma) mais secular. Nem todo mundo deixa de lado o messianismo: alguns o incorporam em uma nova, e novamente vazia, totalidade.

Em 1968, Stewart Brand abriu o primeiro “Whole Earth Catalog” com uma imagem do Planeta Azul, a Espaçonave Terra, um bote salva-vidas que todos nós dividimos. Ao lado da imagem, o texto: “Nós somos como Deuses, e é melhor ficarmos bons nisso”.

Aqui, diz a imagem, há uma bela totalidade: Gaia. Aqui, dizem as palavras, está o sujeito ecológico: “nós”. Que obviamente deixa sem resposta a famosa pergunta de Tonto ao Cavaleiro Solitário: “Nós quem, cara pálida?”

Diante da escala do que se aproxima, há um moralismo vulgar e perverso, um conjunto de boas maneiras ecológicas que é autolimitador. “Qualquer coisa”, diz o argumento, “é melhor do que nada”. Daí as soluções que buscam atrair as empresas, em busca de uma racionalidade econômica que leve em conta fatores ecológicos. O capitalismo, de acordo com o eminente ambientalista britânico Jonathan Porritt, é o único jogo a ser jogado.

E as empresas se adaptam, de acordo com suas prioridades. Apesar de manterem seus detratores do aquecimento global de estimação, as empresas de petróleo têm Divisões de Mudança Climática – menos para evitar as mudanças do que para planejar como continuar lucrando por meio delas. Companhias crescem em direção a territórios recentemente monetizados. Daí o breve boom dos biocombustíveis, e a suposta solução para os problemas do planeta levando à aceleração do desmatamento e a protestos por comida, antes que a indústria e o mercado entrem em declínio. A mão invisível supostamente limpa sua própria sujeira com o Comércio Internacional de Emissões de Carbono. Oportunidades e incentivos para acordos escusos e estimativas inflacionadas aumentam incessantemente, assim como as emissões. O mercado de carbono da UE continua inútil. Novos instrumentos financeiros se proliferam: derivativos climáticos que fazem o caos lucrativo. Os chamados “créditos da catástrofe” mudam de mãos em vastas quantias, porque a vergonha está entre as perdas aceitáveis no capitalismo.

Cidadãos se inquietam com seu próprio lixo – que todos deveríamos minimizar, sem dúvidas. Mas no Reino Unido apenas dez por cento do lixo tem origem domiciliar. Lembre-se que a ideia de remoção adequada do lixo é uma invenção da indústria de embalagens norteamericana, em 1953, em resposta a uma proibição local a garrafas descartáveis. O manto de culpa atomizada e privatizada sob o qual somos encorajados a trabalhar é ardil deliberado.

Numa escala maior, as mais conciliatórias organizações ambientalistas ofuscam o nexo entre degradação ecológica, capitalismo e imperialismo, do qual são parte. Em 2013 a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos deu seu “Prêmio de Liderança Climática Nacional”, por “enfrentar o desafio da mudança climática com pragmatismo, sensatez, e soluções de baixo custo”, para a Raytheon.

Ainda não foi definido se os drones da Raytheon serão gravados com o símbolo do prêmio, para que seu compromisso com a sustentabilidade esteja visível enquanto eles fazem chover morte sobre vilas afegãs.

A serviço do lucro, até o plantio de árvores para reduzir emissões pode se tornar violência. Muito pior do que um mero fracasso, o plano de redução de emissões através de reflorestamento da ONU – conhecido pela sigla REDD, em inglês – legitima a monocultura e a acumulação de terras, em nome do planeta, para que as corporações continuem a poluir. Em Uganda, 22.000 agricultores foram despejados em nome da “New Forests Company”, com o apoio da ONU. E caso precisemos de uma metáfora menos sutil, o projeto de ação climática em Guaraqueçaba, no Brasil, financiado pela Chevron, General Motors e American Electric Power, remove o povo Guarani de sua própria floresta empregando uma guarda armada chamada de “Força Verde”.

Ambientalismo por desapropriação, ou, nos termos da Rede Ambiental Indígena, colonialismo de carbono.

E as ações da indústria pesada sobem. O relatório do IPCC deixa os mercados financeiros intocados: o valor que tais mercados atribuem às reservas de petróleo, carvão e gás natural ignoram as metas internacionais de acordo com as quais tais reservas não apenas ainda estão no solo, mas lá devem permanecer. A bolha do carbono proclama que a escolha é entre uma catástrofe climática ou mais uma catástrofe financeira.

Ou, claro, as duas.

Esqueça qualquer totalidade humana espúria: há uma outra realidade moderna muito real e perigosa em posição de liderança, com a qual muitos ambientalismos falharam em lidar. Nas palavras de Jason Moore, “Wall Street é uma maneira de organizar a Natureza”.

O próprio termo “Antropoceno”, que acena com a ideia de seres humanos como os responsáveis pela mudança ecológica, engana com seu “nós” implícito. Afinal, seja no desmatamento do que é hoje o Reino Unido, na extinção da megafauna na América do Norte, ou em inúmeros outros exemplos, o Homo sapiens, anthropos, sempre influenciou seu -ceno, a ecologia da qual é elemento constituinte, mudando o mundo. A mudança que fez desses efeitos relativamente locais eventos planetários, definindo uma época digna de um novo termo geocronológico, também não foi o nascimento (por milagre, em várias versões) da indústria pesada, mas uma mudança na economia política de como nos organizamos, com um ciclo acelerado de lucro e acumulação.

Que é justamente a razão de Moore insistir que esta época de catástrofe potencial não é o “Antropoceno”, mas o “Capitalceno”.

Utopias são necessárias. Mas são insuficientes, e podem, em algumas formas, ser parte da ideologia do sistema, a totalidade ruim que nos organiza, aquece os céus, e condena milhões à peonagem em depósitos de lixo.

A utopia da “união” é uma mentira. Justiça ambiental significa reconhecer que não somos todos simplesmente passageiros do mesmo planeta. Não há um “nós” sem que haja um “eles”. Não estamos todos juntos.

O que significa combater o fato de que as multas por derramamentos tóxicos em áreas predominantemente de população branca são cinco vezes maiores do que em áreas habitadas por minorias. Significa não apenas fornecer meios de vida para as pessoas que sobrevivem revirando dejetos tóxicos, mas também se revoltar contra o imperialismo do lixo que os coloca ali, contra o neoliberalismo que cria uma competição entre países pobres pelo lixo dos ricos.

Significa se opor diretamente ao poder militar e à violência. Os assassinatos de ativistas ambientais e pelo direito à terra triplicou entre 2002 e 2012. Justiça ambiental significa acusar a Shell não apenas por transformar a região da Ogonilândia, na Nigéria, em uma fossa alucinógena, paisagem de um Ragnarok petroquímico, mas também por armar o estado nigeriano por décadas, durante e após o regime de Sani Abacha.

Comércio de armas, ditaduras e assassinato são políticas ambientais.

Os que atacam de cima contam não com a aquiescência, mas com a fraqueza dos que se opõem. O relatório Cerrell é claro: “todos os grupos socioeconômicos tendem a recusar a proximidade de grandes instalações, mas os estratos médios e superiores têm melhores recursos para efetivar sua oposição”.

Ou seja, os pobres são o alvo não porque não lutam, mas porque, sendo pobres, não têm meios para vencer. A luta por justiça ambiental é a luta contra isso.

***

Então, comecemos com a não-totalidade do “nós”. Daí podemos não apenas enxergar a tarefa à frente, mas podemos voltar a nossas utopias e honrar o que há de melhor nelas.

Aqueles rios de leite e vinho podem parar de ser excedente. Não há nada de tolo em tais aspirações: são o brilho dos olhos voltados à liberdade humana, para além da necessidade. Longe de ser meramente oníricos, esses são aspectos de uma utopia que inclui elementos de economia política, uma aspiração dos que lutam sem poder. Em Cockaigne, uma utopia medieval camponesa, chove queijo. Charles Fourier imaginou os mares feitos de limonada. A Grande Montanha de Doces. Esses são sonhos de sustança além do limite dos sonhadores, da redução do trabalho, de um mundo onde a humanidade exaurida descansa.

Podemos dispensar as criticas mais banais da utopia. De que não é convincente como um projeto, como se isso fosse o que se espera dela. Que é monótona, cansativa, insossa e incolor, sempre a mesma. O desdém de que aspiração visionária por coisas melhores sempre as torna piores. Tais mentiras prestam um serviço à estagnação.

Há críticas melhores a se fazer, em prol das próprias utopias e das intervenções cotidianas sem as quais elas correm o risco de se tornar válvulas para aliviar a pressão – e isso já é em si uma das tais críticas.

Utopia, para começo de conversa, nunca foi território exclusivo dos que clamam por emancipação. Colonizadores e expropriadores clamaram seu excelente senso ambiental contra a impotência de nativos preguiçosos por séculos, finalmente realizando o potencial de terras espuriamente declaradas vazias, trazendo “crescimento” a esses “desertos”. Ecotopias já serviram de justificativa para colonização e império muito antes dos programas REDD das Nações Unidas. Já justificaram muitos assassinatos.

Há uma visão de que o mundo é um jardim ameaçado. Sufocado com o crescimento tóxico. Jardinagem, entendida como guerra. E a tarefa é a “eliminação implacável das ervas que disputam por nutrientes, ar, luz e sol com as boas plantas.”

Nesse cenário, as boas plantas são o povo ariano. E as ervas são os judeus.

O SS-Obergrupenfuhrer e Reichminister de Agricltura do Terceiro Reich, Walther Darré, reuniu geologia, nostalgia, crenças pagãs, imperialismos, misticismo agrário e ódio racial em uma visão de renovação verde e administração planetária baseadas em genocídio. Ele era o mais influente teórico de Blut und Boden, “sangue e solo”, uma Ecotopia nazista de fazendas orgânicas e recuperação de florestas nórdicas, protegidas pelos soldados camponeses de puro sangue.

A árvore pode não ter crescido como Darré esperava, mas suas raízes não morreram. Uma ampla variedade de grupos fascistas ao redor do mundo ainda proclama fidelidade à renovação ecológica, a um mundo verde, e se mobilizam ostensivamente contra mudanças climáticas, poluição e desflorestamento, se opondo a estes três venenos em nome de um outro: a lógica da supremacia racial.

É claro que apologistas reacionários de empresas poluidoras chamam ativistas ecológicos de ‘fascistas’ rotineiramente. Isso não significa que tais ativistas não precisam se manter constantemente atentos para buscar e combater aqueles que realmente o são – muito pelo contrário.

Aspectos da má utopia eliminacionista podem ser encontrados muito além da autoproclamada extrema direita. Muito do pensamento ecológico vem de mãos dadas com uma utopia sentimentalista e espiritualista nebulosa, que a ecofeminista Chaia Heller chama de “Eco-la-la”. Misturada com um malthusianismo cru, formam uma variante combativa chamada de “Ecologia Profunda”. O erro dessa visão pode se transformar em uma perspectiva brutal, segundo a qual o problema seria o excesso populacional – ou seja, a própria humanidade. Sua versão mais excêntrica é o Movimento pela Extinção Humana Voluntária, defendendo o fim da reprodução. A mais cruel está nos pronunciamentos de David Foreman, do Earth First!, sobre a fome na Etiópia em 1984: “A pior coisa a se fazer na Etiópia é prestar ajuda – a melhor seria apenas deixar que a natureza busque seu próprio equilíbrio, deixar as pessoas morrerem de fome.”

Essa é uma utopia ecológica genocida. Que também atende pelo nome “apocalipse”.

Apocalipse e utopia: o fim de todas as coisas, e o horizonte da esperança. Longe de opostos, os dois sempre foram inseparáveis. Às vezes, como em Lactâncio, a relação imaginada é cronológica, ou até mesmo de causa e efeito. O primeiro, o apocalipse, o fim dos tempos, abre o caminho para o outro, o que há do outro lado, o recomeço.

Algo aconteceu: agora eles estão mais inseparáveis do que nunca. “Hoje”, anuncia o sinistro filósofo Emil Cioran, “reconciliados com o terrível, assistimos uma contaminação da utopia pelo apocalipse (…). Os dois gêneros (…) que antes nos pareciam tão diferentes, se interpenetram, se misturam, formando um terceiro”. Tal reconciliação com o terrível, tal interpenetração, é vívida em tais devaneios da Ecologia Profunda por um mundo sem humanidade. O flagelo se tornou o sonho.

Não se trata exatamente de uma distopia, mas de uma terceira forma – apocatopia, utopalipse – e está entre nós. Estamos cercados por uma cultura de ruínas, sonhos de cidades em queda, um mundo despovoado explorado por animais. Conhecemos os clichês. Plantas tomam Wall Street como se pertencesse a elas, ao invés do contrário; a vastidão do lixo, dunas de restos; as sobras de alguma ponte vagamente reconhecível mas agora quebrada, um portentoso trampolim para o vazio. Et cetera.

É como se ainda não enxergássemos nada melhor além dos destroços, porque nos falta força. Ou como se houvesse um esforço para voltar ao “nós”, mas negativamente – “nós” somos justamente o problema, e a ausência de “nós” se torna a solução. A melancolia é dissimulada. Há entusiasmo, um investimento desmentido em tais supostos avisos, nessas catástrofes. Os profetas do apocalipse não enganam ninguém. Muito tempo antes de Shelley imaginar o dia em que “a Abadia de Westminster resistirá, deformada em ruínas sem nome, em meio ao pântano despovoado”, essas já eram cenas de beleza.

Todos já passamos boquiabertos por páginas com imagens de Chernobyl, da ilha deserta de Gunkanjima no Japão, ou das ruínas de Detroit, em páginas clickbait de “Os Dez Lugares Abandonados mais Incríveis”. Isso não deveria gerar culpa. Nosso horror com as tragédias e crimes por trás de tais cenas é real: ele coexiste com nosso fascínio, sem apagá-lo. Não escolhemos o que nos espanta. As imagens que nos fascinam não nos reduzem a uma política em particular. Mas certamente a beleza amoral de nossas apocatopias podem acabar em algo brutal e maléfico, um desgosto eliminacionista.

Não podemos ler tudo isso como mero diagnóstico. O que mais podemos fazer com o dilúvio de filmes sobre dilúvios? Com o empilhamento, como escombros sob as asas do anjo da história de Benjamin, de textos sobre pilhas de escombros.

Os sintomas mudam com o mundo. Uma andorinha só não faz verão, mas não é preciso ser um Žižek para perceber uma mudança cultural quando, no filme Círculo de Fogo, de Guillermo Del Toro, Idris Elba grita “Hoje nós cancelamos o apocalipse!”. Talvez já estejamos fartos do fim, e com essa fala damos início a algo diferente: um apocalipse que falha. Estamos de volta, com esperança reforçada.

Uma mudança parecida acontece com o surgimento da geoengenharia, ideias que já foram ficção e excentricidade. Agora, planos de borrifar ácido na estratosfera em escala planetária para criar uma camada de partículas capazes de espelhar radiação, remover CO2 da atmosfera, trazer água bêntica à superfície para resfriar oceanos, são propostos por cientistas premiados com Nobel, e discutidos no New Yorker e no MIT Technology Review. Uma nova esperança, o retorno da agência humana, mangas arregaçadas resolvendo o problema. Com ciência.

Essa gambiarra planetária, contudo, é altamente especulativa, controversa, e, de acordo com pesquisa recente do Centro Helmholtz, na Alemanha, totalmente inadequada para interromper o caos climático até na mais generosa das projeções. É absurdo que tais planos pareçam mais racionais do que a adoção das medidas sociais para cortar emissões que são inteiramente possíveis de imediato, mas que requerem uma transformação de nosso sistema político.

É um clichê da esquerda dizer que hoje em dia é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo: Andreas Malm lembra que com a mania de geoengenharia é mais fácil imaginar a transformação deliberada do planeta inteiro do que da economia política. O que inicialmente parece um novo Prometeu é na verdade capitulação, a rendição absoluta ao status quo. Utopia se torna a exoneração do poder estabelecido, cujas linhas vermelhas não devem ser cruzadas.

Qual o preço da esperança?

***

Setenta por cento do staff da fábrica da Union Carbide em Bhopal, Índia, tiveram pagamento retido por se recusarem a violar as práticas de segurança. Sem pessoal suficiente, inspeções eram feitas a intervalos insuficientes. Nenhum dos seis sistemas de segurança funcionava devidamente (se é que funcionassem de alguma forma). O sindicato protestou e foi ignorado.

No dia 3 de dezembro de 1984, vinte e sete toneladas de isocianato de metila foi despejado da usina. Entre 8 e 10 mil pessoas morreram naquela noite; mais 25 mil morreram desde então. Meio milhão de feridos, dos quais 70 mil permanentemente desfigurados. A taxa de nascimentos com alguma deformação na área é imensamente alta. A água no solo ainda tem níveis de toxinas muito além do considerado seguro.

Inicialmente, o governo indiano exigiu US$3,3 bilhões em compensação, que a Union Carbide resistiu nos tribunais com um gasto de US$50 milhões. Por fim, em 1989, a companhia aceitou um acordo para pagar uma indenização de US$470 milhões, apenas 15 por cento do valor inicial. Os sobreviventes receberam, como compensação vitalícia, entre US$ 300 e 500 por pessoa. De acordo com Kathy Hunt, relações públicas da Dow-Carbide em 2002, “US$ 500 é bom o bastante para um indiano”.

Por que retomar essa história terrível? Não apenas porque, como se sabe, Warren Anderson, ex-CEO da Carbide, jamais foi extraditado para a Índia, apesar de um mandado de prisão ter sido expedido em seu nome. Nem porque a Carbide, ou a Dow, que a comprou em 2001, negam qualquer responsabilidade e se recusam a recuperar a área ou a responder a intimações de tribunais indianos. Há outra razão.

Em 1989, o Wall Street Journal anunciou que executivos estadunidenses estavam extremamente ansiosos com esse primeiro grande teste da responsabilidade de uma corporação sobre um acidente no Terceiro Mundo. Por fim, em outubro de 1991, veio o momento chave para a discussão: a suprema corte indiana manteve o acordo da Carbide, e rejeitou todos os outros pedidos contra a empresa, conferindo assim proteção legal à companhia. E os preços de suas ações imediatamente dispararam. Porque Wall Street sabia que suas prioridades prevaleceram. Foi o momento de alívio.

Uma interpenetração de apocalipse e utopia no mundo real. Apocalipse para aqueles milhares que se afogaram em seus próprios pulmões. E para as corporações, agora asseguradas que os pobres, diferente dos lucros, são descartáveis? A utopia cotidiana.

Essa é outra das limitações da utopia: nós já estamos em uma, mas não na nossa.

Então, vivemos no apocalipse.

***

Terra: a confirmar. Utopia? Apocalipse? É pior ter esperança ou desespero? Só cabe uma resposta: sim. É pior ter esperança ou desespero.

Má esperança e desespero ruim são mutuamente constitutivos. O capitalismo te pega na ida ou na volta. “Nós” podemos resolver o problema que “nós” criamos. E quando “nós”, os geoengenheiros, falharmos, “nós” podemos sobreviver e lidar com o peso na “nossa” consciência acumulando comida enlatada.

Há um otimismo melhor? Há uma maneira certa de perder a esperança? Depende de quem tem esperança, e em quê, em quem – e contra quem. Nossa esperança precisa ladrar e morder.

Não seremos derrotados pelas demandas de burocratizar nossas próprias propostas. Na verdade, não faltam modelos a ser considerados, mas crítica radical do cotidiano existe, mesmo que faltem alternativas. Podemos ir além: se levarmos a utopia a sério, como uma reformulação total, concluímos que não podemos pensá-la do lado de cá. É o processo de fazê-la que nos permitirá pensá-la. É a fidelidade à utopia que fundamenta nossa recusa em explicá-la ou planejá-la.

Deveríamos ser utópicos com todas as nossas forças. Junto com uma humanidade plena, deveríamos imaginar também ilhas voadoras, bairros de coral autoconstruídos, carros fotossintetizantes criados a partir de amostras de medula óssea. Grandes Montanhas de Doces. Porque assim nunca confundiremos tais sonhos com planos, nem com absurdos.

Utopias são novos Rorschachs. Colocamos nossas preocupações e nossas ideias para fora, e, ao sonhar, dobramos o papel para, abrindo-o, revelar novas formas. Podemos fazê-lo com algum grau de intencionalidade, mas o que realmente criamos está muito além de nossa capacidade de planejar. Nossas utopias devem ser aproveitadas e admiradas, elas são feitas de nossas preocupações e revelam muito sobre nosso presente, sobre nossos egos pré-utópicos. Elas devem ser interpretadas. Assim como as utopias de nossos inimigos.

Entender aquilo a que nos opomos requer respeito. A Terra não está sendo destruída porque os destruidores são estúpidos, irracionais, por erro, ou por falta de informação. Precisamos dar continuidade à nossa luta com toda a urgência, e ganhar discussões, mas não devemos nos enganar: qualquer que seja a auto-ilusão, culpa, ou eventual lástima de um CEO em um mundo de maximização de lucros é perfeitamente racional que as instituições de nosso status quo façam o que fazem. Indivíduos e eventualmente algumas organizações podem resistir em casos específicos, mas só ao recusar a lógica do sistema. O que, logicamente, o próprio sistema não pode fazer.

A luta por justiça ecológica é também uma luta contra tal sistema, porque há imensos lucros na injustiça. A batalha não será sempre sobre mudança climática catastrófica ou expropriação de terra: no neoliberalismo, até disputas locais sobre momentos fugazes de verde são lutas contra o poder. Os protestos que abalaram a Turquia em 2013 começaram com os planos do governo para construir sobre o Parque Gezi, um dos últimos espaços verdes em Istambul.

Ao invés de vociferar união, nós lutamos melhor se aceitarmos que ela não existe. Se aceitarmos que existem lados. Nos aproximamos de um momento crítico. Ao invés de esperar por união, nossa melhor esperança está no conflito. Nosso objetivo, um aspecto da nossa utopia, deveria ser essa estratégia de tensão.

Há um pessimismo ruim, assim como há um otimismo ruim. Contra a rendição grosseira de, digamos, um James Lovelock, há pelo menos razões científicas plausíveis para sugerir que não estamos ainda em um ponto onde não há mais volta. Em todo caso, até um mundo sem conserto é digno de luta. Precisamos de um novo tipo de beco sem saída, uma mudança social irrevogável, que requer um novo tipo de pessimismo, um olhar fixo e determinado a quão ruim a situação está.

O pessimismo tem uma reputação ruim entre ativistas, que morrem de medo de se render. Mas ativismo sem o pessimismo que resulta do rigor é apenas sentimentalismo.

Há esperança. Mas para que seja real, e farpada, para que se torne em uma arma, não podemos nos recostar nela. Precisamos testá-la, sujeitá-la às tensões do quase desespero que é apropriado. Precisamos de utopia, mas tentar pensar em utopia neste mundo, sem raiva, sem fúria, é um luxo que não podemos ter. Diante de tudo que é feito, não podemos pensar em utopia sem ódio.

Até nossos fins-do-mundo são muito aristocráticos. Ponhamos logo um fim ao apocalipse-em-um-só-país. Ao contrário, brindemos à utopia antinômica! Uma esperança que renuncie à esperança dos que estão no poder.

Os críticos supostamente sensatos são os mais profundamente irrealistas. Como diz Joel Kovel, “nós temos a acumulação de capital, e podemos ter a integridade ecológica, mas não podemos ter os dois juntos”. Acreditar no contrário seria excêntrico, se não fosse tão perigoso.

Em 2003, William Stavropoulos, CEO da Dow – que, lembre-se, não tem nenhuma responsabilidade sobre os mutilados químicos de Bhopal – disse em uma nota à imprensa que “responsabilidade ambiental é bom para os negócios”.

E isso, no sentido pejorativo, é a utopia mais absurda de todas.


China Miéville
Trad.: Pedro Salgado

7.11.17

censura-violência

1918-2017

A censura é uma forma eficaz e profunda de violência, e a violência se tornou em nosso tempo horizonte e limite. Não afundemos demais no lugar-comum, mas registremos o fato de que neste fim de século a sua penetração e a sua explosão fazem realmente pensar. sobretudo porque, ao contrário do que ocorreu noutras épocas e noutras civilizações, ninguém gosta de assumi-la francamente; os seus próprios autores e executantes não apenas a renegam ostensivamente, como a condenam. Haja vista na instância suprema os países ricos, que vendem armas aos outros, cultivam os pontos de conflito no mapa-múndi, mas não obstante lançam apelos veementes e patéticos a favor da paz.

Talvez isso venha desde sempre, pelo menos no Brasil, que é um país pacífico, sendo qualquer violência, no dizer das autoridades e respectivos ideólogos, “contrária à índole do nosso povo”.

Quando os homens da minha geração começaram a ler e aprender, reinava na educação caseira e escolar uma concepção tecida sutilmente de violência inculcada, mas logo negada, e que por isso mesmo se incrustava a fundo em nossa consciência burguesa. Esse padrão comportava o que se pode chamar um refinamento estético da violência, com o culto do penacho, do uniforme vistoso, do rompante heroico, do gesto marcial cristalizado no quadro ou na estátua, do movimento coreográfico das batalhas de museu – e uma insensibilidade coletiva em face da maioria esmagada pela miséria, vista como fato natural. Nós entrávamos por aí com soldadinhos de chumbo, espadas e capacetes de folha e a ideia de uma profunda nobreza da força. “Assim nos criam burgueses”, como diz o poeta.

Mas, ao mesmo tempo, impunha-se a ideia de um Brasil pacífico por natureza, cordato e generoso, inimigo desta mesma força, com uma história onde o sangue belicoso só corria derramado no campo da honra para defender o solo invadido ou ameaçado, dos holandeses aos paraguaios. Hoje as modas são outras entre os intelectuais, e talvez até se exagere a brutalidade da nossa história, que apenas não fica devendo nada à de outros países sob este aspecto. No entanto, creio que ainda predomina a velha barragem ideológica, mantida com uma pertinácia que chega a espantar, nessa era de violência desmascarada; e que decerto alcança com eficiência os seus fins mistificadores, como auto-sugestão consciente ou inconsciente.

Se não me engano, o primeiro historiador que mostrou a concatenação da violência na história republicana foi Edgard Carone, não faz muito tempo. Na sua obra, é impressionante a sucessão ininterrupta da ferocidade, numa cadeia de chacinas, conflitos sanguinolentos, intervenções armadas cheias de selvageria. Em outros historiadores isso tudo, quando aparecia, aparecia esbatido ou isolado, facilitando a ideologia da exceção lamentável. Não há dúvida de que a clava do hino nacional, se nem sempre foi justa, é invariavelmente forte. Seja como força física de compressão, seja como pressão sobre a inteligência e a criatividade, que é o caso da censura.

Violência física e violência mental são na verdade violência social, como fica mais evidente neste fim de século especialmente bruto. Ela é fruto da desigualdade econômica, que requer força para se manter, porque sem força a igualdade se imporia como solução melhor, que na verdade é. Hoje, é espantoso ouvir e ler os pronunciamentos das autoridades de todos os níveis, que falam com veemência crescente que a miséria do povo é intolerável, que a concentração da riqueza deve ser mitigada, que a pobreza é um mal a ser urgentemente superado – não raro com estatísticas demonstrativas. É espantoso, porque até pouco tempo tais afirmações eram consideradas coisa de subversivos; e é espantoso porque isso é dito, mas quem diz faz tudo para que as coisas fiquem como estão, e para que os que querem mudar sejam devidamente enquadrados pela força. Não há dúvida de que a censura funciona como retificação, como dolorosa ortopedia feita para lembrar aos incautos a obrigação de não passar da demagogia à luta real pela democracia. A ideia, a palavra, a imagem podem ser instrumentos perigosos aos olhos dos que desejam apenas escamotear, operando conscientemente no plano da ideologia para abafar a verdade. Censura, portanto, e censura como arma para formar com outras o arsenal de manutenção da desigualdade – econômica, política, social. Por isso, mais em nosso tempo do que em outros, nos quais eram menos variados e atuantes os meios de expressão, devemos estar cada vez mais preparados para lutar contra a violência dentro da qual vivemos em todos os níveis. Inclusive a censura.

Há certas expressões significativas: “O fato é homem e a palavra é mulher; um homem vale vinte mulheres”; ou: “Contra fato não há argumento”. Elas querem dizer que, diante da evidência do real, não cabem as argumentações abstratas em contrário, o que em princípio parece estar certo. Mas, na verdade, significam também coisas como “o que vale é a força” ou “ideia não resolve”. Assim, pregam o reconhecimento do fato consumado, a capitulação diante do que se impôs no terreno prático, negando o direito de discutir, de argumentar para mudar a realidade. E então se tornam sinistras.

Sob este aspecto, o papel do intelectual consiste em fazer o contrário do que tais expressões postulam. Em não aceitar o fato como necessidade inelutável, nem considerar inapelável a circunstância que o formou. Em 1973, instigados por Fernando Gasparian, alguns intelectuais se juntaram a ele para fundar uma revista, a que deram o nome de Argumento, para marcar o direito da razão em funcionar contra a força. Os tempos eram bem mais duros do que agora e a censura à imprensa era maciça. Por isso mesmo, a nossa decisão foi não aceitar o fato como inevitável, mas lutar na medida das forças para mudar, sugerir alternativas, abrir. A apresentação foi escrita por Paulo Emilio Salles Gomes e acaba assim:

Nascemos sem ilusões e não está no nosso programa nutri-las. A independência custa caro e não encoraja as subvenções. Não temos propriamente o que vender mas nos achamos em condições de propor um esforço de lucidez. Esta não é artigo de luxo ou de consumo fácil mas em qualquer tempo é alimento indispensável pelo menos para alguns. Sua raridade é, aliás, sempre provisória; tudo que a lucidez revela tende a se transformar em óbvio.Contra fato há argumento.

No terceiro número a revista recebeu o aviso de que deveria ser submetida à censura prévia, e, como não quisemos aceitar, ficamos impedidos de publicá-la e ela acabou, afinal, depois de uma luta que obrigou o presidente da República a baixar decreto, cortando a nossa possibilidade de recorrer à Justiça. Portanto, o resultado final parece ter sido – que contra fato não há argumento. Mas talvez seja possível interpretar de outro modo, dizendo que tanto há argumento contra fato, que os zeladores do fato consumado, da situação intolerável, usam toda a força contra a lucidez da razão, para apagarem o argumento correto e manterem o fato distorcido. De certo modo, isso é o resumo das aventuras da cultura em face da censura, no Brasil de hoje.

O que esta vem representando como sufocação é incrível. Nem é possível avaliar o que significa na deformação da mentalidade de toda uma geração, crescida em regime de censura drástica de rádio, televisão, teatro, jornal. Censura acompanhada de medidas coercitivas, que vão até a morte, como foi o caso de Vladimir Herzog.

Vlado foi a maior vítima da liberdade de opinião e o seu sacrifício representa simbolicamente da maneira mais nobre a luta por ela. Representa a atuação da inteligência em frente da força bruta que se arma para esmaga-la. E até a sua fragilidade física faz pensar no texto famoso de Pascal:

O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmaga-lo: um vapor, uma gota d’água bastam para mata-lo. Mas, ainda que o universo o esmagasse, o homem seria mais nobre do que aquilo que o mata, porque ele sabe que morre e sabe a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo não sabe nada disso.

A diferença é que os agentes da tortura em que se prolongou a censura sabem que matam, na sua força enorme em relação ao intelectual frágil – e isso agrava infinitamente a sua culpa. Mas permanece a imagem do homem isolado, débil, armado da inteligência e da razão, sabendo que elas são mais nobres, mais fortes na escala de valores do que a força que se armou para destruí-lo. Vlado foi, por isso, o eixo em torno do qual a violência de um certo momento girou e declinou. Um frágil caniço pensante que encarnava toda a dignidade e alcance do pensamento.


Reagir e lutar, portanto, sem ilusões excessivas, como diz a nota de Paulo Emilio. Nesta reta de chegada do século, as contradições sociais são tão evidentes, que as soluções de igualdade se impõem. Daí o esforço redobrado dos que as querem esmagar, desviar ou desfigurar, mesmo quando as usam demagogicamente nos seus pronunciamentos. Assim, a perspectiva é de luta, não de tranquilidade. Haverá alguns oásis no vasto deserto e momentos de miragem, antes de se atingir o alvo, que é distante. Por isso, é preciso afirmar a razão, condenar a repressão que no campo da inteligência é censura e, como vimos, vai até a morte dos discrepantes. Estamos no fim de um passado que começou a ser dissolvido com a revolução industrial e no começo de um futuro assinalado pela liberação da energia atômica. É urgente pensar segundo esta escala, enfrentando a violência, que é o esforço desesperado para desviar o futuro, mediante os salvados indesejáveis de um passado moribundo. Para o intelectuais, a luta começa pela oposição à censura, que é a sua mordaça aviltante.

Antonio Candido