27.5.17

a cena do ódio


José de Almada Negreiros

(... ) Larga a cidade masturbadora, febril,
rabo decepado de lagartixa,
labirinto cego de toupeiras,
raça de ignóbeis míopes, tísicos, tarados,
anêmicos, cancerosos e arseniados!
Larga a cidade!
Larga a infâmia das ruas e dos boulevards,
esse vaivém cínico de bandidos mudos,
esse mexer esponjoso de carne viva,
esse ser-lesma nojento e macabro,
esse S ziguezague de chicote autofustigante,
esse ar expirado e espiritista,
esse Inferno de Dante por cantar,
esse ruído de sol prostituído, impotente e velho,
esse silêncio pneumônico
de lua enxovalhada sem vir a lavadeira
Larga a cidade e foge!
Larga a cidade!
Vence as lutas da família na vitória de a deixar.
Larga a casa, foge dela, larga tudo!
Nem te prendas com lágrimas que lágrimas são cadeias!
Larga a casa e verás — vai-se-te o Pesadelo!
A família é lastro: deita-a fora e vais ao céu!
Mas larga tudo primeiro, ouviste?
Larga tudo!
— Os outros, os sentimentos, os instintos,
e larga-te a ti também, a ti principalmente!
Larga tudo e vai para o campo
e larga o campo também, larga tudo!
— Põe-te a nascer outra vez!
Não queiras ter pai nem mãe,
não queiras ter outros nem Inteligência!
A Inteligência é o meu cancro:
eu sinto-A na cabeça com falta de ar!
A Inteligência é a febre da Humanidade
e ninguém a sabe regular!
E já há Inteligência a mais: pode parar por aqui!
Depois põe-te a virar sem cabeça,
vê só o que os olhos virem,
cheira os cheiros da Terra,
come o que a Terra der,
bebe dos rios e dos mares,
— põe-te na Natureza!
Ouve a Terra, escuta-A.
A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!
Depois põe-te à coca dos que nascem
e não os deixes nascer.
Vai depois pla noite nas sombras
e rouba a toda a gente a Inteligência
e raspa-lhes a cabeça por dentro
co'as tuas unhas e cacos de garrafas,
bem raspado, sem deixar nada,
e vai depois depressa, muito depressa,
sem que o sol te veja,
deitar tudo no mar onde haja tubarões!
Larga tudo e a ti também!
Mas tu nem vives nem deixas viver os mais,
Crápula do Egoísmo, cartola d'espanta-pardais!
Mas hás de pagar-Me a febre-rodopio
novelo emaranhado da minha dor!
Mas hás de pagar-Me a febre-calafrio
abismo-descida de Eu não querer descer!
Hás de pagar-Me o Abismo e a Morfina!
Hei de ser cigana da tua sinal
Hei de ser a bruxa do teu remorso!
Hei de desforra-dor cantar-te a buena-dicha
em águas fortes de Tróia
e nos poemas de Poe!
Hei de feiticeira a galope na vassoura
largar-te os meus lagartos e a Peçonha!
Hei de vara mágica encantar-te arte de ganir!
Hei de reconstruir em ti a escravatura negra!
Hei de despir-te a pele a pouco e pouco
e depois na carne viva deitar fel,
e depois na carne viva semear vidros,
semear gumes,
lumes,
e tiros,
Hei de gozar em ti as poses diabólicas
dos teatrais venenos trágicos do persa Zoroastro!
Hei de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques,
e desfraldar-te nas canelas mirradas
o negro pendão dos piratas!
Hei de corvo marinho beber-te os olhos vesgos!
Hei de bóia do Destino ser em brasa
e tu náufrago das galés sem horizontes verdes!
E mais do que isto ainda, muito mais:
Hei de ser a mulher que tu gostes,
hei de ser Ela sem te dar atenção!
Ah! que eu sinto claramente que nasci
de uma praga de ciúmes.
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a Alma dos Bórgias a penar!



25.5.17

globalização, democracia e terrorismo



[...]

Tortura nos corpos de prisioneiros políticos eram necessariamente sádicos e embrutecidos em sua vida privada. Tal como os SS, que eram efetivamente punidos em casos de assassinatos particulares, ao mesmo tempo que eram treinados para cometer assassinatos em massa com toda a calma, isso tornou suas atividades mais, e não menos, condenáveis. A ascensão do megaterror no século passado não reflete a banalidade do mal, e sim a substituição dos conceitos morais por imperativos superiores. 

[...] 

Na América Latina, o objetivo dos regimes torturadores, na medida em que não constituíam uma degeneração patológica da política, não era, normalmente, impedir o aumento do número de participantes nas atividades subversivas, mas, mais concretamente, obter informações dos ativistas a respeito dos seus grupos. 

[...]

Os países que têm economias pujantes e estáveis e uma distribuição de renda relativamente equitativa entre seus habitantes tendem a ser menos vulneráveis - social e politicamente - do que os países pobres, economicamente instáveis e com distribuição interna de riquezas fortemente desigual. O aumento significativo da desigualdade econômica e social dentro dos países ou entre eles reduzirás as possibilidades de paz.

E. H. 
Trad.: José V. 



24.5.17

24.05




Somente 
um
sistema
classista
e
racista
prende
Rafael Braga
e
deixa
solto
Aecio Neves




22.5.17

vivam os tomates

por Ouologuem Yambo
Poesia Africana
Tradução de Manuel de Seabra
Lisboa, 1974

Todos pensam que eu sou um canibal
Mas bem sabem o que são as línguas

Todos vêem as minhas gengivas rubras
Mas quem as tem brancas
Vivam os tomates

Todos dizem que agora virão
Menos turistas
Mas bem sabem
Não estamos na América e de qualquer maneira
Somos todos tesos

Todos dizem que a culpa é minha e que têm medo
Mas vejam 
Os meus dentes são brancos não rubros
Eu não comi ninguém

As pessoas são más e dizem que eu engulo
Os turistas assados

Ou talvez grelhados
Assados ou grelhados perguntei
Ficaram calados e olharam com medo para as 
Minhas gengivas
Vivam os tomates

Todos sabem que um país arável tem agricultura
Vivam os tomates

Todos garantem que os vegetais
Não alimentam bem o agricultor
E que eu sou forte demais para um subdesenvolvido
Miserável insecto vivendo dos turistas
Abaixo os meus dentes

Todos se repente me cercaram
Prenderam
Prostaram
Aos pés da justiça

Canibal ou não canibal
Fala
Ah julgas que és muito esperto
E pões-te todo orgulhoso

Agora vamos ver o que te acontece
Qual é a tua última palavra
Pobre homem condenado

Eu gritei vivam os tomates

Os homens eram cruéis e as mulheres curiosas sabem
Havia uma no círculo que espreitava
Que com a sua voz raspante como a tampa duma panela
Gritava
Chiava
Abram-no ao meio
Estou certa de que o papá ainda está lá dentro

Como as facas estavam rombas
O que é compreensível entre vegetarianos
Como os Ocidentais
Pegaram numa lâmina Gillette
E pacientemente
Crisss
Crasss
Floccc
Abriram-me a barriga

Encontraram lá uma plantação de tomates
Irrigadas por riachos de vinho de palma
Vivam os tomates

Ouologuem Yambo nasceu em 1940, em Dogon (Mali), filho de um inspector escolar. Desde 1962 vive em Paris, onde se formou em filosofia, literatura e sociologia. 

20.5.17

deus, um delírio

 
"Se a história da ciência nos mostra alguma coisa, é que não chegamos a lugar nenhum ao chamar nossa ignorância de deus".

deus, um delírio

1856 - 1950

O fato de um crente ser mais feliz que um cético não quer dizer muito mais que o fato de um homem bêbado ser mais feliz que um sóbrio.
B. Shaw


19.5.17

brinquedo absurdo


Singer

Qualquer mecanismo para nos distrair 
é um dispositivo de alienação.

18.5.17

cadeião chocolate

Bomb it

Eu não estou a fim de me tornar o ponto de referência vivo de todas as vidas ilusórias, dos valores místicos.

Sou apenas um cara que gosta do gênero punk, escrever fanzines, deixar uns estêncil pela urbe e praticar a leitura.

Eu gostava de lecionar, mas a coerção, os assédios morais, as arbitrariedades, o fundamentalismo descarado e a repressão jurídica das cadelas do fascismo só vieram consolidar o que eu vinha observando. A escola não passa de uma prisão.

No mais, sou calmo como um bomba.


17.5.17

deus, um delírio


[...]

Dizem que Alfred Hitchcock, o grande cineasta especialista na arte de assustar as pessoas, estava uma vez dirigindo na Suíça quando de repente apontou pela janela do carro e disse: "Essa é a cena mais aterrorizante que já vi". Era um padre conversando com um menininho, a mão dele sobre o ombro do garoto. Hitchcock pôs a cabeça para fora do carro e gritou: "Fuja, menininho! Salve a sua vida!".

Richard Dawkins | 2007
Trad.: Fernanda Ravagnani



a arte de viver para as novas gerações


O senso-comum é um compêndio de falsidades como: os chefes são sempre necessários, sem autoridade a humanidade se precipitará na barbárie e no caos e assim por diante.
Raoul Vaneigem


16.5.17

chopin na cadeira elétrica


Acción Directa

Acción Directa: una banda que supo resistir en los 90
En un momento de crisis, de privatizaciones en los servicios básicos, de desempleo y precarización laboral una de las bandas punk rock que impugno al capitalismo.

Transcurrían los años 90, el imperialismo avanzaba triunfante con la ofensiva neoliberal en el mundo entero. La caída del muro de Berlín y el rechazo a la burocracia gobernante “en bloque” con el rechazo al estado obrero de la unión soviética, pretendía borrar del imaginario colectivo las ideas de la revolución y de la construcción de un sistema socialista como alternativa al capitalismo. Era el momento de una brutal ofensiva ideológica reaccionaria que decretaba “el fin de la historia”, “el fin de las ideologías” y de la clase obrera.

En nuestro país el gobierno de Carlos Menem, con Duhalde en el gobierno de la PBA implemento una política de sistemática persecución y represión contra la juventud. La caída de la dictadura en 1983 y la breve primavera democrática Alfonsinista, no impedía que las policías bravas realizaran violentas razias. Uno de sus blancos favoritos fue la juventud identificada con el rock y en particular, el punk que desde sus sonidos rechinantes y estruendosos, y sus letras combativas se oponía en los hechos a la cultura consumista e individualista en una suerte de resistencia cultural anti neoliberal.

El indulto a genocidas de la dictadura militar como una amenaza a todo tipo de protesta contra el gobierno de turno era el telón de fondo de esta situación. Mientras los empresarios como el actual presidente Mauricio Macri, se enriquecían a costillas del pueblo trabajador con un estado manejado por la burguesía nacional decadente y socia menor del imperialismo. Estaban de fiesta.

Acción Directa una banda de punk rock subversivo
Acción Directa surge luego del compilado punk rock invasión 1988, para que a través de la música, de la mística de los recitales y el grito contenido los jóvenes expresen su bronca. Una forma de agitar la resistencia a través de un punk rock hilarante que incitaba a la violencia colectiva como necesaria para que los pueblos se liberen.

La banda oriunda de La Plata tocó por primera vez en Junio del 92 junto a Chempes 69, la banda en la que cantaba Miguel Bru, un joven de 23 años, estudiante de periodismo, que el 17 de agosto de 1993, seria torturado y asesinado por la policía en la comisaría 9na. Su cuerpo nunca apareció, pero la movilización desatada, logro un triunfo parcial encarcelando a dos de los policías responsables. Era también la década en la que Walter Bulacio, asesinado por la policía en un recital de los redondos, desato la bronca de miles y su rostro se transformó en bandera de lucha contra la represión y la impunidad. 

También fueron parte de la Coordinadora contra la represión de Zona Oeste, prendiéndose en todo festival contestatario o de resistencia al Menemismo, tocaron en festivales contra los despidos en YPF, acompañando la lucha por memoria, verdad y justicia de los organismos de DDHH, por la libertad de los presos políticos de Neuquén Panario, Chritensen y Estrada, detenidos por luchar con los desocupados.

Sus discos “Con la sangre roja y el corazón a la izquierda”, “Revolución o muerte” son un manifiesto musical de la resistencia en aquellos años.

La banda terminó por separarse en 1997, luego de cinco años de música, lucha y militancia a la par de la izquierda, rescatamos su música contestataria antisistema que fue el grito de desahogo de una juventud que no tenía nada que perder. Este es un humilde homenaje a una banda que supo resistir y rechazar la cooptación del rock.

Ernesto Álvarez


valor e cultura



XXXIV

Em proveito da operacionalidade e da velocidade a verdade é deixada de lado. Torna-se basura.

Uma das razões da pós-modernidade é o fim da preocupação com a verdade. Mesmo que, embora, toda verdade carregue seus conflitos de interesses, a modernidade tardia menospreza o pensamento analítico.

E isso é tão perceptível dentro das escolas.



15.5.17

advis pour dresser une bibliothèque


Conselhos para formar uma biblioteca
Objetivo de organizar uma razão política

Gabriel Naudé | 1644

"Seu objetivo consistia em contrabalançar, e mesmo anular, o poder da igreja, que, por meio da Bíblia interpretada por uma casta ou estamento com poder de monopólio nesse domínio, apresentava-se como fonte exclusiva de 'conselhos' políticos para os soberanos. Naudé esposava um projeto político que, em suas palavras, procurava substituir a autoridade espiritual da Igreja pela Máquina Cultural que era a biblioteca."

Teixeira Coelho
Dicionário Crítico de Política Cultural


11.5.17

fuck off!


Luis Ruffato, em seu artigo intitulado Sobre o vandalismo, chamou os Black Blocs de "desagradáveis e irritantes" e escreveu ainda que eles se infiltram em manifestações pacíficas reduzindo a tática à vazão de adolescentes.

A desonestidade intelectual está alcançando até mesmos os escritores ditos originais.


10.5.17

valor e cultura


Neste falatório interminável e infernal cada pessoa exprime sua opinião de acordo com seus sentimentos ou seus preconceitos.


7.5.17

a gênese do proibicionismo moderno e o ponto de inflexão atual

[...]

O proibicionismo tem em si um natureza anti-republicana, é um despotismo sobre os direitos de escolha fundamentais, aqueles que dizem respeito a si próprio.

[...]

Submeter esta relação entre o real molecular, o imaginário psicológico e o simbolismo social a uma polícia de conduta é querer policiar o próprio corpo, monitorar seus trânsitos e estabelecer interditos coercitivos de comportamentos e estilos de vida.

Essa coerção, fundada pelo puritanismo ianque, associada ao despotismo tártaro manchu e tornada doutrina oficial do eugenismo industrialista fordista fascista erigido em biopoder global, se tornou uma megaindústria de acumulação financeira hipertrofiada, lucro mercantil exorbitante, máquina repressiva bilionária, despesas de endoregulação disfuncional com aprisionamento privatizado e burocracias policiais e jurídicas multiplicadas.

H.C.


6.5.17

Um conto sobre como a indústria da música ativamente cria e alimenta doenças mentais


"A indústria musical é como um boteco dentro de uma cervejaria que ajuda a criar e manter doenças mentais na cabeça de seus clientes; tudo isso atrelado a uma sinuca, projetada para atrair quem já sofre destes males."

5.5.17

cultura e valor


A indústria da música no Brasil é análoga a um ladrão. Ela rouba o silêncio criativo, o pensamento crítico, o corpo e a temperança e os transforma num pacote mercantil para alimentar outra indústria: a do álcool.


3.5.17

cultura e valor


A geral tem de saber que um escritor e um artista compromissados (que não fazem concessões ou representam marcas, e que, muito menos, não almoçam com o rei, e por isso fica mais difícil o seu reconhecimento e suas relações sociais) cobram pelo escrito e pela arte.

O sujeito que deseja um Gramsci na parede do seu escritório ou uma resenha de seu novo livro de graça pensa o quê da vida, que o escritor e o artista vivem em uma sociedade que se paga o aluguel com abraço?

Tempo para ler e escrever não consta na contabilidade? E tinta do spray, cês acham que dá na árvore da praça mais próxima?


2.5.17

limitar o limite: modos de subsistência

Tim Noble & Sue Webster

[...]

Segundo um boato dos anos 1990, havia, além da Muralha da China, uma outra "construção" humana visível do espaço: o Aterro Sanitário de Fresh Kills, em Nova York; sintomaticamente, um limite e uma wasteland. Esse boato trazia consigo uma profunda verdade: depositado no fundo do mar, deslocado para as periferias, o lixo é a grande produção da modernidade - e sua maior realização como obra é a ilha de Lixo do Pacífico. O mundo foi contaminado pela indigestão consumista, fazendo da Terra um "planeta doente". Nesse processo, ignorou-se a reciprocidade da transformação envolvida em toda digestão, a sua via de mão dupla: a transformação daquilo que se consome. Mas, como sugerem as obras de Tim Noble e Sue Webster, o "projeto humano" se tornou a sombra de seu lixo - e não apenas o contrário. Não é um acaso, portanto, as cidades destruídas por catástrofes "naturais" se parecerem muito mais com lixões do que com ruínas. Vivemos em um cenário de terra devastada, em um mundo esvaziado de sentido e repleto de montanhas de lixo, que continuarão aqui mesmo que cessemos imediata e totalmente de gastar as coisas do mundo. Não é que teremos que nos virar com pouco, como alertava Benjamin: teremos que nos virar com restos.

Alexandre N.


1.5.17

definição de poesia


Um risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, a folha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto-desafio.

Um doce ervilhal abandonado.
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas -
Geada no canteiro, tombado.

Tudo o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim uma estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.

Mormaço: como pranchas na água,
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E no entanto o universo está surdo.

1917
Boris Pasternak
Trad.: Haroldo de Campos


29.4.17

nota de solidariedade


Nota de Solidariedade e Pedido de Providências da Faculdade de Ciências Sociais da UFG 


A Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás reafirma o seu compromisso com a ordem jurídica vigente neste país e repudia a violência criminosamente perpetrada pela Polícia Militar do Estado de Goiás que, em desrespeito à lei e à sensatez, cometeu um bárbaro ato de agressão contra o estudante Mateus Ferreira da Silva, aluno do curso de graduação em Ciências Sociais- Habilitação Políticas Públicas desta unidade acadêmica.

Mateus Ferreira da Silva é um exemplar estudante que, no dia 28 de abril de 2017, somou-se pacificamente à manifestação realizada no contexto da greve geral deflagrada contra as reformas previdenciária e trabalhista propostas pelo Governo Federal. Exercia, na ocasião, o seu direito fundamental de manifestação e de reunião, garantido no artigo 5o, incisos IV e XVI, da Constituição da República.

Como se infere de material audiovisual amplamente divulgado nos veículos de comunicação, Mateus sofreu uma agressão unilateral, criminosa e irracional por parte de um profissional que, investido em suas funções segundo o regime artigo 144, parágrafo 5o, da Constituição da República para manter a ordem, promoveu a ilicitude e a barbárie na manhã do dia 28 de abril, incorrendo arbitrária e imotivadamente contra os direitos fundamentais e a integridade físico-corporal de um cidadão.

Esta unidade acadêmica solidariza-se com os familiares e amigos de Mateus, esperando uma breve e plena recuperação de sua saúde.

Adicionalmente, diante deste repudiável episódio – cuja natureza de arbítrio e de desrespeito por agentes públicos às garantias fundamentais de cidadania soma-se à longa relação de casos similares no Estado de Goiás - exige-se a mais célere, contundente e efetiva apuração do crime que vitimou o nosso estudante, punindo-se o policial militar que o perpetrou e responsabilizando-se o Poder Público por esse bárbaro ato de desrespeito ao direito e aos mais basilares princípios civilizatórios.

Goiânia, 29 de abril de 2017.


28.4.17

Introdução

T. U.

[...]

Capaz de aumentar as riquezas, de produzir e difundir em abundância bens de todo tipo, o capitalismo só consegue isso gerando crises econômicas e sociais profundas, exacerbando as desigualdades, provocando catástrofes ecológicas de grandes proporções, reduzindo a proteção social, aniquilando as capacidades intelectuais e morais, afetivas e estéticas dos indivíduos. Abraçando unicamente a rentabilidade e o reinado do dinheiro, o capitalismo aparece como um rolo compressor que não respeita nenhuma tradição, não venera nenhum princípio superior, seja ele ético, cultural ou ecológico. Sistema comandado por um imperativo de lucro que não tem outra finalidade senão ele próprio, a economia liberal apresenta um aspecto niilista cujas consequências não são apenas o desemprego e a precarização do trabalho, as desigualdades sociais e os dramas humanos, mas também o desaparecimento das formas harmoniosas de vida, o desvanecimento do encanto e da graça da vida em sociedade: um processo que Bertrand de Jouvenel chamava de "a perda de amenidade". Riqueza do mundo, empobrecimento das existências; triunfo do capital, liquidação do saber viver; superpoder das finanças, "proletarização" dos modos de vida.

O capitalismo aparece assim como um sistema incompatível com uma vida estética digna desse nome, com a harmonia, a beleza, o bem viver. A economia liberal arruína os elementos poéticos da vida social;  ela dispõe, em todo o planeta, as mesmas paisagens urbanas frias, monótonas e sem alma, estabelece por toda a parte as mesmas franquias comerciais, homogeneizando os modelos dos shopping centers, dos loteamentos, cadeias de hotéis, redes rodoviárias, bairros residenciais, balneários, aeroportos: de leste a oeste, de norte a sul, tem-se a sensaçao de que aqui é como em qualquer lugar. A indústria cria uma pacotilha kitsch e não cessa de lançar produtos descartáveis, substituíves, insignificantes; a publicidade gera a "poluição visual" dos espaços públicos; as mídias vendem programas dominados pela tolice, a vulgaridade, o sexo, a violência - em outras palavras, "tempo de cérebro humano disponível". Construindo megalópoles caóticas e asfixiantes, pondo em risco o ecossistema, tornando insípidas as sensações, condenando os seres humanos a viver como rebanhos padronizados num mundo insulso, o modo de produção capitalista é estigmatizado como barbárie moderna que empobrece o sensível, como ordem econômica responsável pela devastação do mundo: ele "enfeia toda a terra", tornando-a inabitável de todos os pontos de vista. Esse juízo é amplamente compartilhado: a dimensão da beleza se estreita, a da feiura se amplia. O processo iniciado com a Revolução Industrial prossegue inexoravelmente: é um mundo mais desgracioso que dia após dia se desenha.

Um quadro tão implacável assim não tem falhas? Estamos condenados a aceitá-lo em bloco? Se o reinado do dinheiro e da cupidez tem efeitos inegavelmente calamitosos no plano moral, social e econômico, dá-se o mesmo no plano propriamente estético? O capitalismo se reduz a essa máquina de decadência estética e de enfeamento do mundo? A hipertrofia das mercadorias vai de par com a atrofia da vida sensível e das experiências estéticas? Como pensar o domínio estético no tempo da expansão mundial da economia de mercado? 

LIPOVETSKY, G. SERROY, Jean. L'Esthétisation du monde: vivre à l'âge du capitalisme artiste. Trad.: Eduardo B. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


25.4.17

a linguagem do parquinho


I

Desde que os anarquistas sentem no fim da sala e fiquem de bico calado, tudo bem para a classe.


24.4.17

mil platôs

Greve Selvagem || 2017


23.4.17

entrevista


Ethiopiques ||1969-1974

com João Gilberto Noll
 E. S.
[...]
Muitas vezes o estilo do escritor vem do erro, da insuficiência, disso que você pode chamar de idiossincrático. Exponho muito as vísceras da minha luta sintática. Às vezes, a sintaxe é uma camisa de força brutal. A voragem mental nem sempre pode ser traduzida dentro do espartilho sintático vigente. Uma das funções do escritor é mostrar a coisa linguística na dor da expressão, mostrar o feio, o mal ajambrado. A beleza vem da insuficiência brutal querendo ser lúcida.


22.4.17

il mondo invisibile


Entrei (inopinadamente) no mundo da escrita com dois livros sobre os campos de concentração; não cabe a mim julgar-lhes o valor, mas eram sem dúvida livros sérios, dedicados a um público sério. Propor a esse mesmo público um volume de contos-entretenimento, de armadilhas morais talvez divertidas, mas distanciadas e frias, não seria o mesmo que praticar uma fraude comercial, como quem vendesse vinho em garrafas de azeite? São perguntas que me fiz ao escrever e publicar estas "histórias naturais". Pois bem, eu não as publicaria se não estivesse convencido (não imediatamente, para ser sincero) de que entre o Lager e essas invenções existe uma ponte, uma continuidade. 

Primo Levi
Trad.: Maurício S. Dias


21.4.17

ecologia cognitiva



O punk é um exercício de explosão de códigos estabelecidos, especialmente no que se refere aos gêneros.
Virginie D.


20.4.17

estilo de controle


NERVO
           S
           S
           O


ecologia cognitiva


[Cartaz plágio]

Pierre Lévy, em As tecnologias da inteligência, de 1990, na tradução de Irineu, escreveu o seguinte:

[...]

A inteligência ou a cognição são o resultado de redes complexas onde interagem um grande número de atores humanos, biológicos e técnicos. Não sou "eu" que sou inteligente, mas "eu"com o grupo humano do qual sou membro, com minha língua, com toda uma herança de métodos e tecnologias intelectuais (dentre as quais, o uso da escrita). [...] Fora da coletividade, desprovido de tecnologias intelectuais, "eu" não pensaria. O pretenso sujeito inteligente nada mais é que um dos micro atores de uma ecologia cognitiva que o engloba e restringe.

[...] 

Quem pensa? Não há um sujeito ou substância pensante, nem "material", nem "espiritual". O pensamento se dá em uma rede na qual neurônios, módulos cognitivos, humanos, instituições de ensino, línguas, sistemas de escrita, livros e computadores se interconectam, transformam e traduzem as representações. 




19.4.17

de la musique


Portishead || NYC || 1997


18.4.17


Noturno Citadino 
recebe a produção de fanzine

Literárias & subversivas /
Poéticas & anárquicas /
Arte iconoclasta /
Pensamento selvagem /
Cyberpunk /



17.4.17

o timoneiro


"Não sou o timoneiro?" - exclamei. "Você?" - disse um homem alto e escuro e esfregou as mãos nos olhos como se espantasse um sonho. Eu estivera ao leme na noite escura, a lanterna ardendo fraca sobre minha cabeça, e agora vinha esse homem e queria me pôr de lado. E já que eu não me afastava, ele calcou o pé no meu peito e me empurrou para baixo devagar enquanto eu continuava agarrado aos raios do leme e na queda o tirava completamente do lugar. Mas o homem pegou-o, colocou-o em ordem e me empurrou dali com um tranco. Eu porém me recompus logo, corri até a escotilha que dava para o alojamento da tripulação e gritei: "Tripulantes! Camaradas! Venham logo! Um estranho me expulsou do leme!". Eles vieram lentamente, subindo pela escada do navio, figuras possantes que cambaleavam de cansaço. "Não sou o timoneiro?" - perguntei. Eles assentiram com a cabeça, mas seus olhares só se dirigiam ao estranho; ficaram em semicírculo ao redor dele e, quando ele disse em voz de comando: "Não me atrapalhem", eles se juntaram, acenaram para mim com a cabeça e voltaram a descer pela escada do navio. Que tipo de gente é essa? Será que realmente pensam ou só se arrastam sem saber para onde sobre a Terra?

Franz Kafka
Trad.: Modesto Carone


15.4.17

bibliografia



Chimamanda já tem lugar certo na biblioteca. Em seu manifesto recém lançado pela Cia das Letras, a autora de Meio sol amarelo resolveu escrever uma carta a sua amiga de infância, que lhe havia perguntado como criar sua filha, Chizalum Adaora, como feminista.

Das quinze sugestões, eu destaco a quinta:


Ensine Chizalum a ler. Ensine-lhe o gosto pelos livros. A melhor maneira é pelo exemplo informal. Se ela vê você lendo, vai entender que a leitura tem valor. Se ela não frequentasse a escola e simplesmente lesse livros, provavelmente se instruiria mais do que uma criança com educação convencional. Os livros vão ajuda-la a entender a se expressar, vão ajuda-la em tudo o que ela quiser ser – chefs, cientistas, artistas, todo mundo se beneficia das habilidades que a leitura traz. Não falo de livros escolares. Falo de livros que não têm nada que ver com a escola: autobiografias, romances, histórias. [...]


de la musique



Stan Getz & Bill Evans is an album by jazz saxophonist Stan Getz and pianist Bill Evans recorded in 1964 for the Verve Label.


14.4.17

o intelectual e a universidade estagnada

Félix Vallotton


Milton Santos publicou este pronunciamento em Outubro de 1997 e continua tão atual como se tivesse escrito ontem.

Separo três fragmentos que me chamaram a atenção.

O intelectual e a Universidade estagnada
Revista Adusp

[...]

Se a universidade pede aos seus participantes que calem, ela está se condenando ao silêncio, isto é à morte, pois seu destino é falar.

[...]

Ser intelectual é exercer diariamente rebeldia contra conceitos assentados, tornados respeitáveis, mas falsos. É, também, aceitar o papel de criador e propagador do desassossego e o papel de produtor do escândalo, se necessário. É preciso, para esse desiderato, ter a boa medida entre a modéstia e a coragem, essas condições do “homem só”, já que o intelectual não é o “nós”, ele não espera o apoio do colega ou do vizinho para avançar. Aliás, na maioria das vezes não avança se a cada passo tem que pedir, solicitar o apoio do colega ou do vizinho. Daí a sua solidão e seu entendimento das chamadas derrotas. O intelectual tem de saber, e a professora Maria Adélia de Souza já o lembrou, que a nossa meta não é o poder, mas o prestígio, que são coisas diferentes.

[...]

Ser intelectual hoje, na fase da globalização, encontra dificuldades oferecidas pela própria definição do que, atualmente, é conhecimento. Neste momento da história e do mundo, o papel do conhecimento como força produtiva direta acaba por atrapalhar o trabalho e complicar o papel do intelectual, ameaçado todos os dias de corrupção.


12.4.17

The 5 Filters of the Mass Media Machine




O consentimento 
está sendo manufaturado 
ao seu redor 
o tempo todo.



10.4.17

atitude no coração da cibercultura


O poder está nas mãos dos cyberpunks: você pode fazer a sua própria literatura, sua própria música, sua própria televisão, sua própria vida - e mais importante de tudo - sua própria realidade.

Queremos a internet, mas não a vigilância eletrônica e spamsqueremos informação livre, mas não sites inseguros que possam ferir a nossa privacidade...

André L.


7.4.17

as tecnologias da inteligência



  • fanzine-se
    [...] 


    Na Idade Média os livros eram enormes, acorrentados nas bibliotecas, lidos em voz alta no atril. Graças a uma modificação na dobradura, o livro torna-se portátil e difunde-se maciçamente. Em vez de dobrar as folhas em dois (in folio), começou-se a dobrá-las em oito (in octavo). Mas para que o Timeu ou Eneida coubessem em um volume tão pequeno, Aldus Manutius, o editor veneziano que promoveu o in-octavo, inventou o estreito caractere itálico e decidiu livrar os textos do aparelho crítico e dos comentários que os acompanhavam a séculos... Foi assim que o livro tornou-se fácil de manejar, cotidiano, móvel, e disponível para a apropriação pessoal. Como o computador, o livro só se tornou uma mídia de massa quando as variáveis de interface "tamanho" e "massa" atingiram um valor suficientemente baixo. O projeto político-cultural de colocar os clássicos ao alcance de todos os leitores em latim não pode ser dissociado de uma infinidade de decisões, reorganizações e invenções relativas à rede de interfaces "livro". 

    Pierre Lévy 
    Trad.: Carlos Irineu 


6.4.17

o intelectual e a universidade estagnada


Se a universidade pede aos seus participantes que calem, ela está se condenando ao silêncio, isto é à morte, pois seu destino é falar. 

[...] 

Ser intelectual é exercer diariamente rebeldia contra conceitos assentados, tornados respeitáveis, mas falsos. É, também, aceitar o papel de criador e propagador do desassossego e o papel de produtor do escândalo, se necessário. É preciso, para esse desiderato, ter a boa medida entre a modéstia e a coragem, essas condições do “homem só”, já que o intelectual não é o “nós”, ele não espera o apoio do colega ou do vizinho para avançar. Aliás, na maioria das vezes não avança se a cada passo tem que pedir, solicitar o apoio do colega ou do vizinho. Daí a sua solidão e seu entendimento das chamadas derrotas. O intelectual tem de saber, e a professora Maria Adélia de Souza já o lembrou, que a nossa meta não é o poder, mas o prestígio, que são coisas diferentes.

[...]

Ser intelectual hoje, na fase da globalização, encontra dificuldades oferecidas pela própria definição do que, atualmente, é conhecimento. Neste momento da história e do mundo, o papel do conhecimento como força produtiva direta acaba por atrapalhar o trabalho e complicar o papel do intelectual, ameaçado todos os dias de corrupção.

Milton Santos
Outubro, 1997


5.4.17

banalidades básicas


Seria tentador explicar o fascismo - como uma entre outras explicações - como um ato de fé, o auto-da-fé de uma burguesia assombrada pelo assassinato de deus e pela distribuição do grande espetáculo sagrado, que se devotou ao diabo, a uma mística invertida, uma mística obscura com seus rituais e seus holocaustos. Mística e grande capital.


4.4.17

dialética da escola-prisão


Vinte e dois

É uma mentira dizer que a escola democratiza algo, ela reproduz uma sociedade de classes que a mantém para isso.


3.4.17

dialética da escola-prisão


vinte e um

Quem trabalha com ensino - em qualquer nível - e não leu Tragtenberg, Paulo Freire e Ivan Illicht não sabe em que se meteu. Nós temos instituições disciplinares, instituições que não atraem os professores contestatários. A fabricação final é um aluno despolitizado e um professor desmobilizado.